A saltar a corda e a jogar as pedrinhas

A saltar a corda e a jogar as pedrinhas

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Brincadeiras de meninas

Os rapazes construíam joeiras, faziam carros de canas e de caixas de esferas, jogavam futebol com uma bola de trapos e jornais. E as meninas? Com que brincavam as miúdas de há 40 anos, quando havia poucas bonecas para pentear e nem todas tinham a sorte de ter brinquedos pelo Natal, quando o Menino Jesus – ainda não havia Pai Natal – deixava um fogão e um ferro de engomar no sapatinho.

Sem bonecas e sem brinquedos, as meninas também inventavam como podiam as suas brincadeiras. Saltavam à corda, às vezes a tarde inteira, e em concursos em que ganhava quem era mais ágil e prendia menos vezes as pernas na corda. O mais difícil era encontrar a corda, que fosse boa e grande e desse para mais de um a saltar em simultâneo.

corda2E quando aborrecia aquilo de saltar à corda a tarde, o melhor era desenhar um avião no chão e encontrar uma pedra lisa e saltar só com um pé as casas sem pisar o risco e a empurrar a pedra. Na Madeira havia ainda uma outra versão do avião, a que se dava o nome de senhora e senhora. Todas versões regionais daquele que é um jogo tradicional português e mais conhecido por jogar à macaca. O desenho era quase sempre feito com uma telha já que era raro alguém ter um giz para riscar.

As meninas, com menos barulho do que os rapazes, faziam também concursos de pedrinhas. O jogo – com cinco peças pequenas – é uma sequência de várias mãos. O jogador – quase sempre a jogadora – deita as cinco pedras e começa por levantar uma a uma a pedras, enquanto atira uma ao ar. A sequência passa para duas de uma vez, três e quatro. No fim, é preciso atirar as cinco peças e apanhá-las todas na parte de cima da mão.

As peças do jogo das pedrinhas eram quase sempre feitas com pedacinhos de telha, de preferência de telha portuguesa, que era mais fácil de amolar e tornar o mais redondo possível. A verdade é que as peças podiam ser menos pedras ou então bagas de eucalipto, que eram leves e tinham todas o mesmo tamanho. Na verdade, cada jogadora tinha as suas preferências e, no recreio da escola, cada uma tirava as suas para jogar.

pedras2As meninas também jogavam ao anel e ao lenço, mas também a cabra-cega – era só por uma venda nos olhos e rodar para depois apanhar uns dos outros. Para o jogo do lenço, eram precisas duas equipas. E também eram precisos vários jogadores para o jogo do anel, onde quem tem o anel deixa-o em alguém quando passa. Depois é adivinhar quem o tem.

Se as raparigas saltavam à corda, todos, rapazes e raparigas, brincavam as escondidas e aquilo que, na Madeira, se dava ao nome de pilhagem. As escondidas era simples. Um ficava a contar de costas e os outros corriam a esconder-se. Quando acabava a contagem, tinha que ir descobrir os escondidos. Quem fosse apanhado antes de chegar ao lugar da contagem, ficava de castigo a contar.

A pilhagem era mais ou menos o mesmo, mas em vez de escondidos, era preciso correr atrás dos outros e apanhar. E assim passava de presa a caçador, ainda que ninguém gostasse de andar a correr atrás dos outros. Os mais lentos , os mais gordinhos e mais aselhas eram os que ficavam sempre a correr a ver se apilhavam alguém, como na altura se dizia na Madeira. O jogo é conhecido como ‘apanhada’ noutras partes do continente português.

corda3Mais sossegadas ou a correr atrás para não serem apilhadas, as meninas de há 40 anos usavam a imaginação para compensar a falta de brinquedos, as bonecas que só havia no tecto da mercearia ou nas montras grandes do Bazar do Povo.

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