Colunistas

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Tradicionalmente um país de emigrantes, Portugal tem conhecido nas últimas décadas novas realidades de fluxos regulares de imigrantes, como é o caso do sudoeste alentejano, uma região onde coabitam entre outras múltiplas nacionalidades, tailandeses, siques, nepaleses, bengalis, vietnamitas, paquistaneses, cambojanos, ucranianos, bielorussos, búlgaros, romenos e moldavos.

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Um jovem caminhava num bosque com o seu pai e foram surpreendidos por uma tempestade. Abrigados, como puderam, ficaram em silêncio meditativo, observando a força da natureza.

– Pai, para que servem as tempestades?

Surpreendido pela pergunta do filho, o pai demorou algum tempo a responder, pois a questão era profunda e ele nunca tinha pensado nisso.

– Servem para testar a resistência, a coragem e a força dos homens. Servem também para purificar e renovar a natureza, pois também nela só os mais fortes resistem. Já pensaste que o vento abana as árvores para que se libertem das folhas e dos ramos mortos?

– Uhm….

– No que diz respeito aos humanos, alguns resistem e ficam mais fortes, mas outros deixam-se abater e ficam revoltados contra todos e contra a própria mãe natureza.

E o silêncio voltou à “gruta”, só quebrado pelo barulho do vento e das árvores que iam caindo, porque estavam frágeis e não resistiam à “lei” e força da natureza.

Com a bonança, o pai retomou.

– Sabes filho, a natureza, não se queixa do mal que lhe fazemos. Vinga-se e zanga-se connosco, quando a agredimos. A natureza, ralha connosco, quando lhe fazemos mal.

As tempestades são a expressão mais violenta que a natureza utiliza para nos castigar das nossas agressões para com ela. E, sabes, tem muitas formas de o fazer e, infelizmente, cada vez com mais frequência. Por vezes, os humanos ficam impotentes de lutarem contra a sua força e só lhes resta esperaram que a fúria acabe.

Este pensamento ocorreu-me, num meu despertar, talvez porque no meu subconsciente se tenha albergado algum facto recente que testou a minha inteligência emocional e também porque têm ocorrido muitas situações de calamidades, algumas por negligência humana, com muitas vidas humanas perdidas. Incêndios, quedas de árvores mortíferas, tufões, destruição da natureza, etc.

Contudo, e involuntariamente, a minha memória recuou cerca de sessenta anos e trouxe-me, qual filme vivo e nítido, um episódio da minha infância rural. Era Agosto, mês de trovoadas frequentes e, naquele fim de dia, a minha mãe, eu, com nove ou dez anos de idade, e o meu irmão mais velho dois anos, (os outros três mais novos ficaram na aldeia entregues a si próprios – cada um a guardar o outro abaixo) apanhávamos feijoeiros secos, antes que a trovoada descarregasse uma bátega de chuva e os estragasse.

– Filho, pega neste molho e põe-te a caminho, antes que comece a chover, pois vem aí uma forte trovoada que eu e o teu irmão ainda ficamos mais um pouco.

Mas a trovoada e a chuva apanharam-me a meio do caminho e não hesitei em me abrigar numa casa-palheiro ali mesmo ao lado do caminho para a aldeia. Entrei, molho dos feijoeiros para o chão, e deitei o meu corpito cansado na palha de centeio e, indiferente aos trovões e relâmpagos, adormeci que nem um anjo, talvez protegido por Santa Bárbara, não fosse ali cair um raio.

Já a tarde tinha caído, andava meia aldeia à minha procura e acabaram por me assustar e interromper o meu sono profundo, aconchegado na palha de centeio ali guardada, ao abrirem a porta da casota.

Ainda “dorminhoco” e meio estranho com o opúsculo e o cheiro a terra molhada, senti-me herói por minutos, apesar de por ali não haver raptores de crianças, mesmo que as destinassem à escravatura ou a serem vendidas em feiras pelos ciganos, assim nos iam assustando, que nómadas, porque a lei da época não lhes permitia “sedentarizar” nos povoados, percorriam as aldeias à procura de meios de subsistência, ora pedindo, ora negociando ou roubando os parcos meios de subsistência, de gentio ainda mais pobre do que os aldeões.

As trovoadas, na minha aldeia beirã, em terras de Viriato, eram um espectáculo único, porque o palco também o era. Belo e assustador, punham em sentido os mais corajosos, que se refugiavam nas preces a Santa Bárbara (só nos lembramos de Santa Bárbara, quando troveja – provérbio popular que significa que só perante o perigo nos lembramos da prevenção/precaução). As tempestades, podem moldar-nos com uma estrutura física e mental de aço, por fora, mas de extrema sensibilidade interior, porque elas nos trazem mensagens que só passam despercebidas aos insensíveis. Por vezes, são acompanhadas de dor, para nós e para outros que, acobardados, tentam mostrar-se fortes, mais por medo, porque são mais frágeis do que mostram. Outros, esses cobardes, sacodem as suas responsabilidades. Nos incêndios florestais, o horror e a incompetência e a negligencia repete-se anos após ano e não aprendemos nada. A memória pelo mortos deste Verão merece que se atalhe caminho no combate a uma “tempestade” que não escolhe vítimas inocentes.

Para que servem as tempestades? Também para aprendermos com elas, quase sempre com elevadas perdas materiais, financeiras e HUMANAS.

Serafim Marques

Economista Reformado