Crise crioula está a aproximar lusodescendentes de Portugal

Crise crioula está a aproximar lusodescendentes de Portugal

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A crise política, económica e social na Venezuela está a levar lusodescendentes a aproximar-se de Portugal, um país que começa a ser atractivo pela sua estabilidade, embora a língua continue a ser uma barreira.

“Desde criança sempre tive alguma curiosidade para conhecer Portugal, mas nunca houve oportunidade. Depois da secundária veio a universidade, a mulher, um filho e conhecer a Madeira deixou de ser uma prioridade”, relatou à Lusa José Daniel Gonçalves, 32 anos, filho de pais madeirenses.

Admitindo que o agravar da crise da Venezuela “tem dificultado viajar à terra dos pais”, explicou que, tendo em conta os ordenados no país, “é muito complicado poupar, pelo menos, para a viagem”.

“Tenho familiares nas Eiras [Madeira] que estão na disposição de me receber, de me ajudar, mas não gostaria de chegar com as mãos a abanar”, disse.

Este lusodescendente sente que agora está “mais perto” de Portugal, e admite que foi a crise que “de alguma maneira fez despertar esse interesse [de] pensar na possibilidade de um dia ir para lá viver”. Por isso tem a documentação “ao dia” e acredita que na sua área, “a da informática, há boas oportunidades” de emprego em Portugal.

“Quase sem querer comecei a ver a televisão portuguesa com mais frequência. Às vezes leio os jornais e sem dar-me conta até vejo páginas ‘web’ de Portugal, à procura de notícias da Venezuela”, disse.

O próximo passo, explicou, é melhorar os conhecimentos de português, que afirma dominar mais na escrita do que na fala.

Por outro lado, Elizabeth Martins, 25 anos, secretária de uma empresa comercial, vê Portugal “como o lugar ideal para quando estiver reformada”.

“Sempre sonhei comprar uma casa na Madeira, perto do mar, com uma varanda onde tomar um chá ao final da tarde. Não sei de onde surgiu essa ideia, mas é um desejo que quero materializar”, explicou.

A mulher admite que “se a situação se complicar, na Venezuela” poderá antecipar a viagem para Portugal.

“Para já, se isso acontecer em breve, gostava de ter uma casa grande, com vários quartos, um quintal onde brincariam os filhos”, diz, desabafando de imediato que em Caracas não tem sorte no amor, mas “talvez na Madeira, seja diferente”.

A finalizar o curso de psicologia, António Marques, 24 anos, vê em Portugal “a primeira opção”, se tiver que emigrar.

“Gosto dos Estados Unidos, por já lá estive três vezes. Também já estive na Espanha e a Portugal fui apenas quando era miúdo. Os semestres da universidade não coincidem com as férias da família, por isso não voltei lá”, explicou.

Apesar de não viver em território português, insiste que “conhece” Portugal, a sua cultura, história, geografia, a gastronomia, mas receia falar português, uma situação que diz poderia ultrapassar se viver dois ou três meses na Madeira.

“De pequenino ficava aborrecido com as festas porque eram apenas bailinho, espetada e actos protocolares. Hoje, vejo as coisas de outra maneira, talvez porque mesmo estando longe, estou mais perto emocionalmente”, disse.

Orgulhoso das suas raízes, diz que os portugueses na Venezuela reflectem um pouco o que é Portugal: “Saudade, futebol, festa, mas também capacidade de trabalho, honestidade e dedicação”.

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