Crónicas de Lisboa: uma ponte chamada Jesus

Crónicas de Lisboa: uma ponte chamada Jesus

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Serafim Marques .- Qual Pedro Alvares Cabral, Jorge Jesus (JJ) ousou ir à “descoberta” dum país onde o futebol é rei e que é o maior exportador de futebolistas para todo o mundo.

Para o nosso país, há décadas que os futebolistas e alguns treinadores brasileiros descobriram Portugal. No sentido inverso, isto é, jogadores e treinadores portugueses a rumarem ao Brasil, contam-se pelos dedos das mãos. Isto porque, infelizmente, os portugueses no Brasil continuam a ser vistos como os “padeiros” e passou a ser sistematicamente desvalorizado e até esquecido, ao ponto muitos brasileiros não associarem sequer a língua que falam com Portugal. O inesperado sucesso de Jorge Jesus no Brasil como treinador do Flamengo, da cidade do Rio de Janeiro, mostra o imenso impacto mediático que só o futebol consegue, isto é, todas as outras formas de difusão de um país não se comparam ao impacto das vedetas do futebol que é um fenómeno sem explicação. Comecemos em Eusébio, Figo, Cristiano Ronaldo e agora, ainda sem a abrangência mais planetária – Jorge Jesus. Ele venceu desportivamente e (con) venceu a arrogância de muitos brasileiros influentes no futebol: treinadores, jogadores e jornalistas desportivos. Felizmente que o “pai” de Jesus o ajudou, porque, no futebol, não basta ter mérito. Depende de outros fatores imponderáveis e “inexplicáveis”.

Quando JJ pensou deixar este pequenino país, também futebolisticamente, e ainda nas “arábias”, onde esteve pouco tempo, sonhou que lhe apareceu Jesus e lhe disse. Tu que és cristão e porque usas o meu nome, mesmo aqui neste país muçulmano, podes fazer-me um pedido, de três à tua escolha, que eu te o concederei. Então o Jorge começou por pedir uma ponte entre Portugal e o Brasil, mas Jesus disse-lhe que era impossível; então o treinador pediu-lhe que acabasse com a pedofilia em Portugal e também lhe foi recusado (é muito difícil – disse Jesus), e então pediu que Ele acabasse com a corrupção no nosso país. Jesus Cristo pensou por algum tempo e, por fim, disse ao Jorge: vou ajudar-te a construíres a ponte de Portugal para o Brasil. Vai para lá, à confiança que eu serei o teu “anjo da guarda e protetor”.

O sucesso de JJ no campeonato brasileiro assentou numa filosofia de trabalho diferente daquela a que as equipas brasileiras estão habituadas e, mais uma vez e na linha dos seus colegas treinadores portugueses que trabalham no estrangeiro, e são muitos – incluindo todas as outras profissões, “confirma-se” que os portugueses são tão bons como os melhores, mas no estrangeiro. Aqui, no nosso “cantinho à beira-mar”, há muitos vícios, por exemplo, a inveja e que JJ também teve que vencer nos seus colegas treinadores das restantes equipas do campeonato do Brasil. Novos métodos de trabalho resultam muitas vezes enquanto são novidade e, obviamente, tendem a ser seguidos pelos “concorrentes”. Contudo, JJ tem o mérito de ter arriscado mudar coisas num país onde o “samba e o forró” fazem parte da cultura de todos os brasileiros não “estrangeirados”. Já o sucesso na Taça dos Libertadores, a “equivalente” à Liga dos Campeões na Europa, o percurso não foi tão convincente porque não eram apenas equipas do Brasil e na final contra a equipa argentina do River Plate, o Flamengo esteve quase a sair derrotado. A poucos minutos do final do jogo, a equipa de JJ estava a perder por um golo e, qual milagre de Jesus (não o JJ), a equipa deu a volta ao resultado e ganhou a taça. Foi a loucura no Rio de Janeiro. Afinal, Jesus, cumpriu a promessa feita ao JJ e a “ponte” ficou mais sólida.

Jorge Jesus foi “endeusado” na cidade do Rio de Janeiro, cuja Prefeitura o condecorou e, por cá, onde tinha alguns milhões a torcer pelo sucesso dele, como se fosse a vitória deste pequeno país sobre o colosso que é o Brasil, também, provavelmente, será condecorado pelo nosso Presidente da República, afinal condecora-se tanta gente sem que se compreenda o seu mérito. Devemos saudar JJ, mas sem ilusões de que o impacto do seu êxito não é, minimamente, suficiente para criar uma verdadeira ponte entre Portugal e o Brasil que favoreça os dois povos. Aos governos e às diversas instituições, de lá e de cá, cabe o papel maior na construção dessa real ponte.

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