Juan Guaidó: “Há genocídio silencioso na Venezuela”

Juan Guaidó: “Há genocídio silencioso na Venezuela”

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Em entrevista exclusiva ao JM Madeira, o Presidente Interino da Venezuela alerta que “há pessoas que não podem esperar nem mais um dia” pelo fim do regime ditatorial de Nicolas Maduro.

Por Agostinho Silva, em Caracas

agostinhosilva@jm-madeira.pt

Há venezuelanos que não aguentam nem mais um dia – alerta Juan Guaidó. “Esses venezuelanos foram assassinados indiretamente pela ditadura”. O Presidente Interino não tem dúvidas que há, na Venezuela, um “genocídio silencioso.”

Seguro e determinado, o rosto da nova Venezuela por que muitos esperam garante que não vira a cara à luta. “Voluntariamente Nicolás Maduro não vai desistir do poder, porque é um ditador.”

Guaidó não se compromete com uma data, apenas diz que “a transição pode ocorrer a qualquer momento.”

Que boas notícias posso levar aos luso-venezuelanos que se refugiaram na Madeira?

Pode levar boas notícias, sem dúvida, porque temos anos de luta, construímos maiorias.

A Venezuela foi sempre um país de imigrantes. De fato, a colónia portuguesa é uma das mais prósperas e que nos ajudou a construir uma Venezuela, sem dúvida, muito sólida.

Alguns lusodescendentes foram forçados a emigrar e muitos querem voltar.

Estamos enfrentando um regime ditatorial. Ainda hoje (quinta-feira) emitiram a resolução da ONU sobre violações de direitos humanos e é muito claro que o que denunciamos há anos na Venezuela: existe uma ditadura que viola os direitos humanos, que mata, tortura, persegue. Não há mais eufemismos que apoiem o que acontece na Venezuela.

A todos os lusovenezolanos que estão na Madeira, quero dizer-lhes que estamos nas vésperas de uma transição, que sentimos falta deles neste país, que são necessários para a reconstrução, assim como os seus pais contribuíram em vários momentos para construir a Venezuela que, abraçando-se à liberdade e à democracia, vai mudar muito em breve.

Quando passar a ser um Presidente reconhecido por todos, quais serão as suas medidas prioritárias para unificar este país?

Sou Presidente Interino numa ditadura com a pior crise humanitária da região. Logo, a primeira coisa é tratar da emergência humanitária, resolver as necessidades, estabilizar o país e os serviços básicos: eletricidade, água, gás doméstico, gasolina. Devemos normalizar tudo isso para poder iniciar a reconstrução da Venezuela e depois, claro, promover uma eleição realmente livre neste país.

Visto à distância, o seu plano parece algo fragilizado, pelo menos não tem corrido tudo bem. Houve muito otimismo no começo?

Hoje não queremos apenas a mudança, mas precisamos dela.

A Venezuela morre de fome, a Venezuela morre por falta de medicação, os venezuelanos são espancados até a morte em celas como o capitão da fragata Acosta Arévalo. Hoje a ONU fala claramente da violação sistemática dos direitos humanos na Venezuela.

A energia de hoje não é distinta de 2015 quando ganhámos as eleições para o Parlamento. Mas agora, devido a repressão, perseguição, geração de medo pelo regime, é claro que se tornou difícil finalizar o que todo o povo venezuelano quer, que é uma mudança. Mas continuamos firmes, mantemos nosso reconhecimento, continuamos a colocar pressão no mundo, gerando alternativas com o Grupo Internacional de Contatos, do qual Portugal também faz parte com a mediação do governo norueguês, do Grupo de Lima, com a OEA e o reconhecimento que nos deu como país membro.

Todos nós queremos que seja mais rápido, mas temos que exercer com firmeza as opções que temos.

Para a opinião internacional, a mudança está demorando muito…

Certamente, porque já temos 20 anos. E os últimos seis foram muito intensos.

É claro que está a demorar mais tempo do que todos nós queremos. Mas não foi porque não insistimos, porque não tentámos. Pelo contrário, apesar de se tratar de uma ditadura, de nos perseguirem, torturarem, de nos reprimirem, como reconhecido no relatório do Conselho de Direitos Humanos da ONU, apesar disso, estamos firmes e temos a maior parte do país connosco para conseguir gerar essa mudança.

Neste momento temos duas Venezuelas: a que podemos ver aqui em Caracas e o interior do país. Concorda?

Embora a capital do país esteja protegida, entre aspas, neste momento não há luz em vários setores de Caracas. Você está de visita à Venezuela, mas nem sonha andar a pé às 10 da noite em Caracas, por causa da insegurança, da escuridão e do medo. Agora imagine nas regiões do interior.

Para quem nos vai ler em Portugal, a Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do mundo, mas há estados na Venezuela onde você tem que fazer até duas semanas de fila para poder abastecer combustível.

Atrevo-me a dizer que mais de 60% das pessoas no interior do país estão cozinhando a lenha porque não há gás doméstico ou não há eletricidade, em muitos setores. Imagine o atraso que esse regime representa para o país. O que a Venezuela tem hoje está 100 anos atrasado. Mais do que duas Venezuelas aqui há uma Venezuela que quer mudar.

Os EUA têm estado sempre ao seu lado, mas não seria desejável uma posição mais enérgica?

No geral, os nossos aliados têm tido uma posição enérgica. Não só os Estados Unidos, a Colômbia, o Brasil, a UE. Acho que têm uma posição muito clara de que não houve eleição em 2018, e que há um vazio de poder.

Tem sido um processo muito longo para todos, não só para os venezuelanos. Também em Portugal, para os descendentes dos portugueses, vimos isso na região com o fluxo migratório. Somente a Síria pode ser comparada aos indicadores que a Venezuela tem hoje, no fluxo migratório, no acesso a bens e serviços, na contração do PIB, na inflação. Destruíram o sistema económico nacional.

O governo de Maduro tem feito alguns apelos ao diálogo. É possível uma solução por essa via?

Aqui há um regime, uma ditadura. Esta caracterização é importante, porque quando você vai ao médico, a medicação varia de acordo com o diagnóstico.

As ditaduras saem com uma negociação, poderia ser, desde que haja pressão suficiente dos cidadãos, a nivel internacional e dentro das Forças Armadas para conseguirem acabar com a ditadura.

Voluntariamente Nicolás Maduro não vai desistir do poder, porque é um ditador. Tanto que eles recusaram uma eleição presidencial que ocorreu em 2018 e é por isso que hoje estamos sofrendo o que estamos sofrendo.

O nosso papel é pressionar em todos os cenários: na rua, exercendo nossos direitos. Destaco que a nossa luta não tem sido violenta. Apesar de sermos uma imensa maioria, em todas as nossas manifestações apelamos sempre à não-violência, apesar de nos reprimirem, nos torturem e persigam.

Há uma possibilidade, uma rota de saída através de Oslo. Mas deve haver muita pressão para que a ditadura possa abrir uma janela para a solução.

O recurso às manifestações não estará já esgotado?

O exercício de um direito nunca pode estar esgotado.

Em Portugal, onde sabem muito sobre futebol, um jogador que falha uma grande penalidade, e até mesmo Cristiano Ronaldo já falhou algumS, a grande penalidade não deixa de ser um mecanismo para marcar.

O protesto, o exercício dos direitos, as exigências nunca deixam de ser mecanismos para exigir o que é justo. Imagine que tivessemos pensado dessa forma em 2007 ou em 2014, quando protestámos de forma épica, ou em 2015 ou 2017, nunca teríamos visibilizado ou mostrado a magnitude da crise. Por isso, o protesto e o exercício das reivindicações são sempre um mecanismo para exigir direitos.

Já definiu um limite para a mudança? Seis meses, um ano… ?

Os venezuelanos esperaram mais do que queríamos. Quanto mais podemos esperar?

Há pessoas que não podem esperar nem mais um dia. Há pessoas que não podem esperar nem mais uma hora, porque não têm tratamento para cancro, para diálise, para hipertensão. Há venezuelanos que não aguentam nem mais um dia. Esses venezuelanos foram assassinados indiretamente pela ditadura. Na Venezuela há um genocídio silencioso.

Todo o dinheiro para a Saúde foi roubado. Ontem [quarta-feira, 3 julho] foi queimado o 9º andar do Hospital Clínico Universitário, que era uma das poucas unidades de neonatologia que funcionou em toda a cidade de Caracas. E já há mães dando à luz nas ruas, como aconteceu em Valência há um mês, por falta de fornecimentos ao hospital. Portanto, para nós, a materialização da mudança no nosso país é urgente. Estamos trabalhando muito para que isso aconteça. Não vou lhe dizer que é amanhã, daqui a um mês, daqui a dois meses, mas temos as ferramentas, temos as variáveis, as capacidades e a transição pode ocorrer em qualquer momento.

Os graves problemas na Saúde não exigiriam uma solução menos política, mais célere?

Não haverá solução enquanto Nicolás Maduro estiver ali. Dou-lhe vários exemplos: não há remédios na Venezuela porque o governo deve 4 bilhões de dólares aos laboratórios; devido à falta de pagamento não houve manutenção no sistema elétrico nacional, houve um apagão que ainda mantém muitos Estados com um racionamento sem precedente no mundo no século XXI.

Há um elemento central em qualquer sociedade e na economia, que é a confiança. Quem emprestaria um dólar a Maduro hoje? Você emprestaria?

Falando em economia, assiste-se hoje à ‘dolarização’ de toda a economia venezuelana, a gasolina é de borla, o Metro é gratuito…

A ‘dolarização’ da economia aconteceu através dos factos. A gratuidade acontece porque o regime não controla a economia, não controla a moeda da circulação nacional, porque destruiu a economia.

A moeda de circulação legal na Venezuela é o Bolívar, mas hoje com um Bolívar você não compra nada e é por isso que as empresas preferem receber dólares. Um hambúrguer vale um salário mínimo na Venezuela, então as pessoas pagam com dólares. Este é um regime tão fraco, tão ineficiente, tão corrupto, que nem sequer pode controlar isto. São tão ineficientes que nem sequer conseguiram ajustar a taxa de pagamento da gasolina; não é que a dêem de graça, é que não a ajustaram. Temem uma reforma fiscal do ajuste de preços, porque não há como pagar o que custa o transporte público, no Metro por exemplo. Mas isto não é uma medida de governo, é um facto que ocorre devido à força da situação venezuelana. É importante o mundo saber disso, não se compreende porque é absolutamente irregular, é uma distorção absoluta da economia venezuelana. E é muito grave para o dia-a-dia dos venezuelanos.

O governo atual tem uma ação contra o Novo Banco, em Portugal, por reter 1.500 milhões de dólares da Venezuela. O que pensa de todo esse processo?

Portugal fez o que é correto para proteger os ativos dos venezuelanos. Todos sabemos que na Venezuela eles roubam o dinheiro.  Roubam e financiam grupos ilegais, usam-no para o controle social, para comprar consciências. Então essa foi uma decisão muito sábia do governo português, não só pelo reconhecimento que deram à nossa luta, mas para a realidade venezuelana. Porque esse dinheiro deve servir para a reconstrução e a utilização no bem-estar da Venezuela.

Fala-se muito em eleições. Há condições para eleições livres e confiáveis?

Para haver eleições livres e confiáveis, deve haver um novo sistema eleitoral, o árbitro deve ser imparcial, devemos ter observação internacional por causa das tentações que o regime terá em roubar uma eleição. Não deve haver presos políticos ou partidos que são ilegalizados ou perseguidos. Um novo sistema eleitoral deve ser implementado, que garanta o voto dos venezuelanos no exterior que são mais de 4 milhões, quase 5 este ano. Os venezuelanos que estão na Madeira, em Lisboa ou em Madrid são venezuelanos com plenos direitos onde quer que estejam e devem ter acesso garantido aos seus direitos.

A corrupção é um fenómeno mundial, sobretudo na Venezuela. É possível travar a corrupção aqui?

Sem dúvida que é possível. O cancro da Venezuela foi justamente a corrupção, a miséria, os pensamentos totalitários implementados. Só no caso da Odebrecht, que deteve presidentes, ex-presidentes, empresários, concedeu 938 milhões de dólares em subornos em 12 países p, o que produziu 20 bilhões de dólares em lucros para a empresa.

Na Venezuela, um funcionário público recebeu 1.200 milhões de dólares em subornos. Alejandro Andrade confessou que recebeu essa quantia para emitir dívida do país. Imagine, eles subornaram-no para deixar o país endividado! É algo sem precedentes na história da Venezuela. A corrupção é tal que o valor da economia da Venezuela foi roubado cinco a seis vezes.

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