Lar de idosos em Caracas grita por ajuda

Lar de idosos em Caracas grita por ajuda

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NICOLAU FERNANDEZ 

Só em Caracas, nos últimos tempos, dos 80 lares existentes apenas 10 sobrevivem. O Lar Padre Joaquim Ferreira acolhe 60 idosos. Uns pagam a diária, alguns uma parte, outros nada, porque não podem. Só com muito engenho e dedicação é possível manter a instituição a funcionar.

Agustín da Silva ficou viúvo há 30 anos. Há vários meses no hospital Domingo Luciani, em Caracas, já estava recuperado. Tinha de sair, mas não tinha para onde ir. A solução foi recolher este madeirense, de 75 anos, no lar. Uma instituição que fica à saída da capital venezuelana, em direcção a Maracay. Quando lá chegamos, Agustín, acabado de entrar, estava no meio de um corte de cabelo. É apenas um dos muitos afazeres diários do lar que tem o nome de um sacerdote português que viveu em Caracas. Um padre que esteve nos momentos de festa, como aniversários, casamentos e baptizados, mas também nas dificuldades. Nesta parte inspirou várias iniciativas de solidariedade. Dar o nome ao lar foi uma forma de reconhecer esse trabalho.

Dar muito com pouco

É uma luta diária. Manter as portas abertas do lar só é possível com a ajuda e dedicação de muitos, de uma forma directa ou indirecta. A instituição tem capacidade para acolher uma centena de pessoas. Há ainda lugares, mas não há meios. Os voluntários e pessoas ligadas à instituição estão no limite. Cinco Irmãs da congregação ‘Marta e Maria’ com sede na Guatemala dão uma ajuda preciosa.

Marilu de Andrade, desde muito nova é voluntária, aprendeu com a mãe, a filha já está integrada no denominado grupo das netas. Não perde o sorriso, apesar de todas as agruras da vida. A família, proprietária de várias padarias, viu quase todas encerradas nos últimos tempos devido à crise – uma delas foi expropriada. Marilu, a secretária da direcção, é quem nos faz a visita guiada ao lar que, como explica “é um filho da Sociedade de Beneficência das Damas Portuguesas”. Para sublinhar o esforço e a dedicação necessários à manutenção do projecto, recorda que dos 80 lares existentes em Caracas, 70 já encerraram. Quer no interior do edifício, quer nos arredores, é fácil constatar a limpeza e manutenção dos espaços, incluindo jardins. “Esse talvez seja o nosso erro”, diz sempre a sorrir. “Se mostrássemos isto, em pior estado, talvez nos ajudassem mais”. Mais a sério, sugere às várias entidades que “venham conhecer o trabalho, é sempre um prazer recebê-las”.

Um olhar mais atento mostra que o edifício precisa de obras. Completou 14 anos a 10 de Junho, Dia de Portugal e das Comunidades. Os elevadores, extremamente necessários para pessoas com mobilidade reduzida, estão avariados. A solução é transportar os idosos pelas rampas, em cadeiras de rodas, o que só é possível com muito esforço. São necessárias máquinas de lavar e as canalizações precisam de uma intervenção urgente. Despesas que chegam facilmente a muitos milhares de euros. Daí o apelo veemente dos responsáveis: “Toda a ajuda é importante, urgente e absolutamente necessária”. Um apelo dirigido às diversas entidades, especialmente ao Governo Regional – que entregou donativo (ver página ao lado), e autarquias, mas também aos privados. São vários os que, em nome individual ou empresarial, contribuem para o funcionamento desta instituição. Destaque para a Academia do Bacalhau, mas com a crise o número de participantes nas iniciativas que promovem para angariação de fundos diminuiu substancialmente. Mais de 130 empresários são igualmente parceiros, mas não chega. E fica o aviso: “A ajuda cá significa poupança lá. Se não houver condições para acolher esta gente, vai ser necessário fazê-lo na Madeira”. Uma solução seria um apoio mensal ou uma ajuda substancial, cada ano. E dão o exemplo dos lares das comunidades italianas e espanholas que recebem uma ajuda fixa, dos respectivos governos. Também foi feita uma candidatura a um programa lançado pelo Governo de Lisboa, em Dezembro último, mas não foi aprovada.

Outras das carências tem a ver com o pessoal, especialmente enfermeiros. Muitos profissionais estão a abandonar o país à procura de melhores condições de vida. Actualmente trabalham no lar 20 funcionários, incluindo cozinheiros, empregados de limpeza, lavandaria, condutores, vigilantes, um médico e um terapeuta ocupacional.

Com a hiperinflação que atinge o país é difícil, se não impossível, fazer um orçamento. Qualquer estimativa fica desactualizada em poucos dias. “A parte mais complicada é assegurar salários, a alimentação para todos os dias, os medicamentos que são caros ou simplesmente não existem no país, os transportes e, claro, a manutenção do edifício. Toda a ajuda é pouca”. É necessária uma mobilização geral nesta causa que deve ser assumida por todos.

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