Não há gente como a gente!

Não há gente como a gente!

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Ana Cristina Monteiro

A Madeira, uma terra de migrantes da qual muitos dos nossos ilhéus, ainda sendo crianças, tiveram de seguir novos rumos e começar uma nova vida além-fronteiras, quer pelo seu espírito aventureiro quer para garantir o sustento da sua própria família.

Segundo o Centro das Comunidades Madeirenses e Migrações, na Venezuela reside uma das maiores comunidades madeirenses espalhadas pelo mundo; estima-se que residam, cerca de 300 mil madeirenses ou luso descendentes, num total de 500 mil portugueses. Ainda refere que de 1950 a 1969, chegaram ao território venezuelano 73.554 portugueses, dos quais 38.737 eram madeirenses.

Naquele país, assim como em outros tantos nos quais os nossos aventureiros foram muito bem recebidos, nomeadamente, África do Sul, Antilhas Holandesas, Reino Unido, França, Austrália, Brasil, Canadá, Equador, USA, iniciaram uma nova vida, num emprego e trabalho que não conheciam; com pessoas que nunca tinham visto; tendo de falar uma língua totalmente alheia; encontrar um emprego estável para conseguir alugar um quarto, que depois passou a ser um apartamento, constituíram família e todos estes madeirenses e seus descendentes formaram o que o Prof. Alberto Vieira chamara de “Nona Ilha”, a aquele espaço imaterial constituído pelos imensos emigrantes madeirenses, e seus descendentes, espalhados pelo mundo fora.

Eu própria sou uma orgulhosíssima descendente de Madeirense, filho de esta terra maravilhosa, que saiu da Madeira para encontrar novas oportunidades além-fronteiras, num país que o recebeu assim como a tantos outros estrangeiros, vindos principalmente de Portugal, Espanha e Itália, e que permitiu o seu desenvolvimento pessoal, familiar, económico e social.

Por tais motivos, custa-me muito ler e ouvir palavras depreciativas, mal-intencionadas, e muitas vezes preconceituosas, de alguns madeirenses contra seus próprios conterrâneos, sejam estes familiares, amigos e irmãos de terra e de sangue e seus descendentes, que regressam a Madeira.

Mas há também aqueles casos de xenofobia contra os Venezuelanos, quando hoje são eles que precisam de um espaço para recomeçar uma nova vida em segurança e liberdade.

Não percebo como sendo nacionais de uma terra iminentemente migrante, algumas pessoas não possam entender como é difícil emigrar, deixar sua vida como a conhecias e ter de começar de zero, com uma nova língua, com pessoas desconhecidas.

Já agora, desculpem o desabafo, mas na verdade fico triste de ler algumas mensagens xenófobas e discriminatórias só pelo facto de uma pessoa ser venezuelana, vir da Venezuela ou por falar castelhano, quando foram esses Venezuelanos e seus ascendentes que receberam de braços abertos na sua terra, Venezuela, às nossas famílias num momento em que muitos precisavam de um lugar para recomeçar, e hoje, lamentavelmente, alguns dos que regressam, recebem desprezo e revolta.

Ainda há muito caminho por percorrer para termos uma região livre de preconceitos e discriminação, e está nas nossas mãos fazer a diferença e escrever a nossa história.

Claro que, não podemos generalizar porque há também muitas pessoas que de uma ou outra forma tem vindo a receber ou simplesmente respeitar a vinda dos nossos irmãos Madeirenses, seus descendentes e Venezuelanos à nossa região e a quem desde já permito-me endereçar um muito obrigado desde o fundo do coração, porque têm sido um porto seguro para muitos e porque definitivamente não há gente como a nossa gente, façamos a diferença.

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