“A vida ganha-se no campo, não nas bancadas”

“Ano novo, vida nova”, diz o ditado, e nunca foi tão bem dito como pelo protagonista desta história, que nasceu num dia 31 de Dezembro, quase à meia-noite. Corria o ano de 1954, e aquela família (encabeçada por João Maio e Maria da Conceição) começava um novo capítulo com a chegada de Salvador de Freitas Nunes.

“Vivíamos em Santa Cruz, na Madeira, precisamente onde agora se encontra o aeroporto da ilha”, recorda. “Com o tempo, as coisas mudaram, e em 1967, quando tinha 13 anos, vim para a Venezuela junto com o meu pai, num navio. Eram 14:30 quando chegámos a La Guaira, e ao sair do navio, propus-me trabalhar muito e prosperar. Impressionou-me ver o bairro perto do porto”, conta o senhor Salvador, cujos irmãos já se encontravam no país, mas lamentavelmente dois (de oito) já faleceram.

“Fui aprendendo a língua aos poucos, trabalhei num supermercado em Catia La Mar, em Picure (onde fica a termoeléctrica de Tacoa), em Junho de 1968 vim para Caracas e em 1973 abri o meu restaurante”.

É no restaurante que deleita os comensais com pratos da gastronomia nacional e internacional, especialmente com a portuguesa. No entanto, é na sua casa que mais desfruta tanto do bacalhau com grão de bico como do pernil, tanto do cozido à portuguesa como da hallaca… Uma variedade consequência da mistura de raízes e culturas, pois a sua esposa é venezuelana (mais concretamente de Trujillo), e adora seguir as sua tradições.

Conheceu a mulher no mesmo espaço onde decorreu esta entrevista. “Foi numa Semana Santa, muitas pessoas que iam às igrejas próximas (para cumprir a tradição dos sete templos) passavam pelo restaurante, e quando ela passou por aqui, vi-a e apaixonei-me”.

“Madeira mudou e nós também”
Cada visita à terra Natal foi para Nunes um remoinho de emoções. Em 1979 regressou, e a sua mãe encontrava-se muito doente, “foi uma viagem triste, e pensei em todo o tempo que não pude estar com ela porque o meu dever era erguer um novo lar aqui na Venezuela”.

Voltou em 1989, e nessa altura “era outra coisa, outras caras, outros vizinhos… pude dizer que a Madeira mudou, e nós também”, diz com saudade. “A transformação é enorme, alegra-me ver a modernização e o progresso das estradas. Antes tínhamos de andar dois ou três quilómetros, entre montanhas e vales, para chegar a outra povoação. Por exemplo, se queríamos ir ao aeroporto, caminhávamos cerca de uma hora e meia, mas hoje em dia é mais rápido, há sete túneis e para chegar levamos apenas uns 10 a 15 minutos, no máximo”, explica.

“Quando a minha filha conheceu a Madeira, ficou encantada, disse-me que gostaria de ter ficado mais tempo na ilha e percorreria tudo. Foi tratada com muita amabilidade, falou do respeito para com os mais velhos, da delicadeza ao se dirigirem aos outros, da atenção que dão à preservação dos monumentos e a forma de conservar as propriedades antigas, as fortalezas e os parques”.

Golo da vida
Para Nunes, o futebol é algo muito sério. “Não se trata de um simples jogo, é algo com muito significado”, afirma o seguidor do Sporting e do Marítimo, cuja paixão pelo futebol o motivou a experimentá-lo na primeira pessoa. Jogou no meio campo do Marítimo de Venezuela, e o seu irmão também jogou nessa altura e enfrentaram equipas distritais. “Jogávamos contra o Grúas América, que tinha sede em Santa Mónica, e lembro-me como se fosse ontem daqueles jogos no Colégio Fray Luis de León, Colégio Don Bosco, Germania, San José de Los Teques, no Petare Futebol Club quando era amador, para nomear alguns dos clubes onde competiam venezuelanos, portugueses e outras nacionalidades. Partilhei muitas jornadas como Noel Chita Sanvicente, Candela, os irmãos Pitanga, e até conheci Pelé, tenho uma foto com ele que mostro com orgulho.”

Nunes conta que gostava tanto de futebol “que até tive uma equipa amadora que jogava no Fuerte Tiuna”. Pára por um instante e emociona-se ao recordar que o único dia livre entre tanto trabalho era dedicado a estar com a sua família e o passeio favorito era até ao estádio.

Dessa época tão especial ficam grandes vivências, e ainda que não possa retroceder no tempo, está seguro de que “ alguma coisa daquela altura se poderia reviver, como o Marítimo, por exemplo. Gostaria que voltasse com toda a força, seria muito importante, já que daria muta alegria, era parte dos domingos familiares e do fortalecimento das raízes, porque este desporto está na nossa história.”

O que aprendeu na Venezuela
Adora a ilha que o viu nascer, e expressa-se com igual amor em relação à terra que o viu formar-se como trabalhador, marido e pai. Depois de tantos anos na Venezuela, destaca “as paisagens, os locais culturais como o Teatro Teresa Carreño e sobretudo as pessoas. Aqui deixam que gostem deles, são hospitaleiros e alegres, soube-o porque desde o primeiro dia fui aberto, e responderam-me igual. Aprendi que as pessoas valorizam-se pelo que são e não pelo dinheiro nas suas contas, que a história mantém-me firme e que devemos nos arriscar para conseguir as metas. Depois de tudo, o futebol ensinou-me que a vida se ganha no campo, não nas bancadas.”

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