Virgem de Fátima: Mistério e Devoção

Virgem de Fátima: Mistério e Devoção

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“Vistes o inferno para onde vão as almas dos pobres pecadores; para salvá-las, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se se fizer o que vos vou dizer, salvarão muitas almas e terão paz. A guerra cedo terminará”

Para uns, é sinónimo de devoção e fé; outros consideram-na um absoluto mistério; finalmente, há quem não acredite em nada disto. No entanto, desde que a Virgem de Fátima apareceu, em 1917, a Jacinta, Francisco e Lúcia, muita tinta tem corrido sobre o assunto. Não há dúvidas que das aparições e sinais sobrenaturais que salpicam a história, Fátima é uma das histórias que cativou a maior quantidade de crentes e não crentes do século passado.

Tal como milhares de fiéis em redor do mundo, os portugueses na Venezuela se fazem eco do testemunho de Lúcia dos Santos e dos seus primos, Jacinta e Francisco Marto, três crianças que sentiram o reflexo de uma luz que se aproximava deles e viram uma senhora vestida de branco surgir de um pequeno monte. Esta foi a primeira aparição da Bem-aventurada Virgem Maria na localidade de Fátima, Portugal.

A partir de 13 de Maio de 1917, a Virgem apresentou-se aos três pastorinhos no mesmo local e dia durante seis meses consecutivos, com a excepção do dia 13 de Agosto, não tendo havido aparição senão a 19 desse mês.  Em todas as aparições marianas, a Virgem focou a importância de rezar o rosário para a conversão dos pecadores e do mundo inteiro.

Inicia-se então a devoção mariana a Nossa Senhora de Fátima. Anualmente, milhares de fiéis em todo o mundo organizam festas em honra a esta Virgem.

O mistério que envolve os três segredos dados pela Virgem aos pastorinhos converteu-se num tema de discussão nos mais diversos recantos do planeta. Ainda que se suponha que estejam já revelados três segredos, ainda há quem pense que por detrás deles há muitas outras coisas a dizer. Façamos uma breve passagem pela história com a documentação existente e seja você mesmo a dar o seu veredicto.

Primeira e segunda parte do Segredo

Na Terceira Memória de Sor Lúcia, com data de 31 de Agosto de 1941 e destinada ao bispo de Leiria, assegurou que já tinha a “licença do céu” e dos seus representantes na terra para revelar os mistérios que foram entregues pela Virgem.

O escrito reza o seguinte: “Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia debaixo da terra. Submersos nesse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou acastanhadas, com forma humana que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam, juntamente com nuvens de fumo que caíam por todos os lados, parecidas ao cair das faíscas nos grandes incêndios, sem equilíbrio nem peso, entre gritos de dor e gemidos de desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se pelas suas formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos mas transparentes e negros.”

Segundo Sor Lúcia, esta visão persistiu por pouco tempo, e imediatamente a Senhora vestida de branco disse-lhes com certeza: “Vistes o inferno para onde vão as almas dos pobres pecadores; para salvá-las, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao meu Imaculado Coração. Se se fizer o que lhes vou dizer, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra em breve terminará. Mas se não deixarem de ofender a Deus, no pontificado de Pio XI começará outra pior. Quando vires uma noite iluminada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai castigar o mundo pelos seus crimes, por meio da guerra, da fome e das perseguições à igreja e ao Santo Padre. Para impedi-la, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora dos Primeiros Sábados. Se atenderem os meus desejos, a Rússia converter-se-á e haverá paz. Se não, espalhará os seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à igreja. Os bons serão martirizados e o Santo Padre terá muito que sofrer; várias nações serão aniquiladas. Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á à Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.”

Segundo o arcebispo emérito de Vercelli, Tarcisio Bertone, esta primeira e segunda parte do Segredo referem-se à visão do inferno, a devoção ao Coração Imaculado de Maria, a Segunda Guerra Mundial e a previsão dos danos que a Rússia provocaria à Humanidade. Sor Lúcia guardaria durante algum tempo mais o terceiro mistério, criando uma grande expectativa nos seus seguidores.

Um segredo “bem guardado”

A terceira parte do mistério de Fátima foi escrita a 3 de Janeiro de 1944 por ordem do bispo de Leiria e da Santíssima Mãe. Segundo Tarcisio Bertone, o envelope lacrado esteve guardado pelo bispo de Leiria e posteriormente entregue ao Arquivo Secreto do Santo Ofício a 4 de Abril de 1945. O arcebispo descreve que de acordo com os apontamentos do arquivo, a 17 de Agosto de 1959, o Comissário do Santo Ofício, padre Pierre Paul Philippe, levou o envelope que continha a terceira parte do segredo a João XXIII, que decidiu devolver o envelope lacrado e não revelar o seu conteúdo.

Tarcisio Bertone continua a explicar que Paulo VI leu o conteúdo do envelope a 27 de Março de 1965 e devolveu-o ao Arquivo do Santo Ofício, com a decisão de não publicar o texto. Finalmente, João Paulo II pediria o envelope com a terceira parte do ‘Segredo’, depois do atentado que sofreu a 13 de Maio de 1981 e devolveu-o ao Santo Ofício a 11 de Agosto do mesmo ano.

O escrito, que foi tão bem guardado pela Igreja Católica, diz: “Depois das duas partes que já expus, vimos, do lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais no alto, um Anjo com uma espada de fogo na mão esquerda; centelhando, emitia chamas que parecia que iam incendiar o mundo; mas apagavam-se ao contacto com o esplendor que Nossa Senhora irradiava com a sua mão direita dirigida a ele; o Anjo, assinalando a terra com a sua mão direita, disse com voz forte: “Penitência! Penitência!”

Continua Sor Lúcia: “E vimos uma imensa luz que é Deus; Algo semelhante a como se veem as pessoas num espelho quando passam à frente dele, um bispo vestido de branco (…) também outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma montanha empinada, em cujo cume havia uma grande Cruz de madeiros toscos como se fossem de cortiça; o Santo Padre, antes de chegar a ela, atravessou uma grande cidade no meio de ruínas e algo trémulo, com passo vacilante, pesaroso de dor e pena, rezando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho. Chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da Grande Cruz, foi morto por um grupo de soldados que dispararam vários tiros de arma de fogo e flechas; e do mesmo modo morreram uns atrás dos outros os bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e diversas pessoas seculares, homens e mulheres de diversas classes e posições. Sob os dois braços da Cruz, havia dois Anjos, cada um deles com uma jarra de cristal na mão, nas quais recolhiam o sangue dos Mártires e regavam com ela as almas que se aproximavam de Deus.”

A esperada revelação

A 13 de Maio de 1981, o papa João Paulo II saudava e benzia os mais de 20 mil fiéis que se tinham juntado naquela tarde na Praça de São Pedro, no Vaticano, para celebrar a festa de Nossa Senhora de Fátima, quando, no meio da euforia, soaram quatro tiros.

De imediato, o papa amigo caiu no papa-móvel. Tinha sofrido um atentado às mãos do turco Ali Agca, que foi detido imediatamente. Gravemente ferido, foi internado num hospital, no qual reagiu no dia seguinte, chamando o seu secretário e amigo Stanislaw Dziwisz, que lhe relatou o que tinha acontecido, fazendo especial referência à coincidência da data com a primeira aparição de Fátima 64 anos antes, e facilitando-lhe imediatamente toda a documentação referente às aparições da Virgem de Fátima.

João Paulo II conseguiu ler o documento durante os dias em que esteve internado, nos quais se encontrava a terceira parte do Segredo de Fátima, que não tinha sido publicada por nenhum dos seus antecessores, mas da qual havia conhecimento no Vaticano desde 1960, e em que era descrita situação similar à vivida por ele dias antes.

Como diz a história, João Paulo II, depois de ler o escrito, compôs uma oração para o ‘Acto de consagração’, que foi difundido na Basílica de Santa Maria a Maior, a 7 de Junho de 1981. Posteriormente, repetiria em Fátima, a 13 de Maio de 1982, e consagraria todos os homens povos ao Coração Imaculado de Maria, na praça de São Pedro a 25 de Março de 1984; isto em resposta aos pedidos feitos pela Virgem.

Não seria senão até dia 13 de Maio de 2000 que o Santo Padre decidiria partilhar com o mundo este terceiro segredo, tarefa que foi encarregue ao secretário de Estado de Sua Santidade, Cardeal Angelo Sodano, em frente a uma multidão de crentes.

Como é sabido, o objectivo da sua vinda a Fátima foi a beatificação dos dois pastorinhos. No entanto, quer atribuir também a esta sua peregrinação o valor de um renovado gesto de gratidão à Virgem pela protecção que lhe dispensou ao longo dos anos de pontificado. É uma protecção que parece que guarda relação também com a chamada terceira parte do Segredo de Fátima (…) Segundo a interpretação dos pastorinhos, interpretação confirmada recentemente por Sor Lúcia, o bispo vestido de branco que ora pelos fiéis é o Papa. Também ele, caminhando com fatiga rumo à Cruz entre os cadáveres dos martirizados (bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas e inúmeros laicos), cai ao chão como morto, sob os disparos de arma de fogo”, leu o Cardeal.

Depois do atentado de 13 de Maio de 1981, pareceu claro a Sua Santidade que tinha sido “uma mão materna que guiou a trajectória da bala”, permitindo ao “Papa agonizante” que se detivesse “no umbral da morte”. Por ocasião de uma visita a Roma do então bispo de Leiria-Fátima, o Papa decidiu entregar a bala, que ficou no ‘jeep’ depois do atentado, para que se guardasse no Santuário. Por iniciativa do Bispo, a mesma foi depois encastrada na coroa da imagem da Virgem de Fátima”, prosseguiu.

 Seja você a julgar…

A decisão de João Paulo II em tornar pública a terceira parte do ‘segredo’ de Fátima encerra, para muitos, uma página cruel e sangrenta da história; para outros, é apenas o início de um processo de mudanças e evolução que levará ao caos e à destruição.

Sendo certo que é impossível saber se existe algo por detrás destes segredos, a humanidade não pode fazer mais que consagrar-se ao Coração Imaculado de Maria e reflectir sobre o apelo de atenção feito pela ‘senhora vestida de branco’ perante o esquecimento dos valores. Seja você a julgar a história…

Curiosidades

– A árvore sobre a qual apareceu a Virgem de Fátima existiu no mesmo lugar até aos anos 1930. Desapareceu porque as pessoas acabaram por a destruir ao arrancar pequenos pedaços.

– Existe um texto conhecido como “Carta da Virgem de Fátima”, de carácter apocalíptico e cujo origem se desconhece. Este texto é considerado pela Igreja Católica como uma falsificação.

– A última aparição da Santa foi a 13 de Outubro de 1917, data em que cerca de 50 mil pessoas se concentraram e, segundo os testemunhos, viram o sol bailar.

–  A capela que existe nas proximidades do local das aparições da Virgem foi o primeiro edifício construído na Cova de Iria.

– A bala que feriu gravemente João Paulo II no atentado perpetrado na Praça de São Pedro, no dia 13 de Maio de 1981, ficou incrustado na coroa da imagem de Nossa Senhora de Fátima.

–  A 18 de Maio de 2010, a Arquidiocese de Maracaibo iniciou uma investigação sobre a presumível aparição da Virgen de Fátima numa vivenda humilde do bairro Nuevo Mundo, no Norte de Maracaibo. A imagem da Virgem terá aparecido no tronco de uma árvore e, desde então, centenas de devotos visitam a vivenda para orar e pedir favores à presumível avocação de Fátima.

– A imagem da Virgem de Fátima, conhecida como a peregrina, é uma réplica da imagem que é utilizada para percorrer algumas das cidades episcopais da Europa e do mundo.

Editor - Jefe de Redacción / Periodista sferreira@correiodevenezuela.com Egresado de la Universidad Católica Andrés Bello como Licenciado en Comunicación Social, mención periodismo, con mención honorífica Cum Laude. Inició su formación profesional como redactor de las publicaciones digitales “Factum” y “Business & Management”, además de ser colaborador para la revista “Bowling al día” y el diario El Nacional. Forma parte del equipo del CORREIO da Venezuela desde el año 2009, desempeñándose como periodista, editor, jefe de redacción y coordinador general. El trabajo en nuestro medio lo ha alternado con cursos en Community Management, lo que le ha permitido llevar las cuentas de diferentes empresas. En el año 2012 debutó como diseñador de joyas con su marca Pistacho's Accesorios y un año más tarde creó la Fundación Manos de Esperanza, en pro de la lucha contra el cáncer infantil en Venezuela. En 2013 fungió como director de Comunicaciones del Premio Torbellino Flamenco. Actualmente, además de ser el Editor de nuestro medio y corresponsal del Diário de Notícias da Madeira, también funge como el encargado de las Comunicaciones Culturales de la Asociación Civil Centro Portugués.

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