10 de Junho: Uma data com história

A efeméride nacional nem sempre foi conhecida como na atualidade

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Portugal é um dos poucos países do Mundo que dedica o seu dia nacional a uma data relacionada com a Cultura, dia apontado para a morte de Camões, e não a um facto da sua História política. Mas o dia 10 de Junho nem sempre foi conhecido como na atualidade.

A primeira referência legal que declara «Dia de Festa Nacional e de Grande Gala» o 10 de junho data de 27 de abril de 1880. É um decreto das Cortes Reais em que o rei D. Luís I acedeu a que se assinalassem os 300 anos da data apontada pelos historiadores para a morte de Luís de Camões, 10 de junho de 1580.

Após a queda da Monarquia e a implantação da República, em 1919, na primeira lista de feriados nacionais elaborada pelo Governo, não aparece ainda o 10 de Junho, mas o decreto 17.171, de 29 de agosto de 1919, consagrava-o como feriado.

Durante o regime ditatorial do Estado Novo de 1933 até à Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974, o dia 10 de Junho era celebrado como o “Dia da Raça: a raça portuguesa ou os portugueses”. Foi aproveitado para exacerbar as características nacionais.

Como Camões foi uma figura emblemática, associada aos Descobrimentos, foi usado como forma de o regime celebrar os territórios coloniais e o sentimento de pertença a uma grande nação espalhada pelo mundo, com uma raça e língua comum.

O 10 de Junho é estipulado como feriado, na sequência dos trabalhos legislativos após a  implantação da República a 5 de Outubro de 1910. No decorrer desses trabalhos legislativos, foi publicado um decreto a 12 de Outubro, que definia os feriados nacionais. Alguns feriados foram eliminados, particularmente os religiosos, de modo a diminuir a influência da  Igreja Católica e com a intenção de consolidar a laicização da sociedade.

O decreto que definia os feriados nacionais dava ainda a possibilidade dos municípios e concelhos escolherem um dia do ano que representasse as suas festas tradicionais e municipais. Lisboa escolheu para feriado municipal o 10 de Junho, em homenagem a Camões, uma vez que a data é apontada como sendo a da morte do poeta.

O que seria apenas um feriado municipal passa a ser exaltado com o Estado Novo. Assim, a partir desse momento o Dia de Camões passou a ser celebrado a nível nacional.

Mas não ficou por aqui: até ao 25 de Abril, o 10 de Junho era conhecido como o Dia de Camões, de Portugal e da Raça, este último epíteto criado por Salazar na inauguração do  Estádio Nacional do Jamor em 1944. A partir de 1977 este dia fica designado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

No Decreto-Lei n.º 39-B/78 de 4 de março, lê-se: “O dia 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades, melhor do que nenhum outro, reúne o simbolismo necessário à representação do Dia de Portugal. Nele se aglutinam em harmoniosa síntese a Nação Portuguesa, as comunidades lusitanas espalhadas pelo Mundo e a emblemática figura do épico genial”. Ficava, assim, batizado o «Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas».

Neste dia o Presidente da República e altas individualidades do Estado participam em cerimónias de comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, que decorrem em cidades diferentes todos os anos. Anualmente são distinguidas novas individualidades pelo seu trabalho em nome da nação.

 

O poeta da epopeia dos Descobrimentos

Luís Vaz de Camões, autor do poema Os Lusíadas, uma das obras mais importantes da literatura portuguesa, que celebra os feitos marítimos e guerreiros de Portugal, nasceu em Lisboa, Portugal, por volta de 1524. Era filho de Simão Vaz de Camões e Ana de Sá e Macedo, aparentada com a casa de Vimioso, da alta nobreza portuguesa, e sobrinho de D. Bento de Camões, cônego da Igreja de Santa Cruz de Coimbra. Em 1527, durante uma epidemia de Peste, em Lisboa, D. João III e a corte transferiram-se para Coimbra, e Simão, a mulher e o filho, com apenas três anos, acompanharam o rei.

Luís de Camões viveu sua infância na época das grandes descobertas marítimas. Foi aluno do colégio do convento de Santa Maria, tornando-se um profundo conhecedor de história, geografia e literatura. Em 1537, D. João III transferiu a Universidade de Lisboa para Coimbra. Camões iniciou o curso de Teologia, mas levava uma vida irrequieta, desordeira, além da fama de conquistador, mostrando pouca vocação para a Igreja.

Em 1544 deixou as aulas de teologia e ingressou no curso de filosofia. Já era conhecido como poeta. Com 20 anos, encontra-se com D. Catarina de Ataíde, dama da rainha D. Catarina da Áustria, esposa de D. João III e, desse encontro nasce uma ardente paixão, mais tarde imortalizada pelo poeta, que se referia à dama do paço, com o anagrama “Natércia”.

Em um sarau, seguido de um torneio poético, o espanhol Juan Ramon, sobrinho de um professor da Universidade, sentiu-se ofendido por causa dos versos de Camões. Seguiu-se um duelo e o espanhol saiu ferido, o que terminou na prisão do poeta, sob o protesto dos estudantes. No final de muitas discussões, Camões é perdoado, com a condição de ser desterrado durante um ano em Lisboa.

Na capital, era perseguido por outros poetas, sendo vítima de muitas intrigas para desprestigiá-lo e afastá-lo da corte. Para fugir das perseguições, em 1547, Camões resolve embarcar, como soldado, para a África. Serviu dois anos em Ceuta. Combateu contra os mouros e durante uma briga perdeu o olho direito.

Em 1549, Camões retorna para Lisboa, onde é conhecido pela sua vida pouco comedida e chega a ser preso devido a um assalto em que participa. Perdoado por D. João III parte para o Oriente, onde vai ficar por quase duas décadas.

Em 1569, Camões resolve voltar para Portugal e embarca na nau Santa Fé, levando consigo um escravo, que lhe acompanhou até seus últimos dias. Chega a Cascais em 7 de abril de 1570. Depois de 16 anos, estava de volta à sua pátria. Em 1572, publica seu poema Os Lusíadas. Com o sucesso, Camões recebe do rei D. Sebastião uma pensão anual, que mesmo assim não o livrou da extrema pobreza em que vivia.

Luís de Camões morreu em Lisboa, Portugal, no dia 10 de junho 1580, em absoluta pobreza. Teria sido enterrado em cova rasa. Mais tarde, em 1594, Dom Gonçalo Coutinho, mandou esculpir uma lápide com os dizeres: «Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas do seu tempo. Viveu pobre e assim morreu».

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