O Natal português

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Celebrado por todo o país, o Natal tem especial expressão a norte na rica mesa da consoada e na Madeira, onde as festas vão de 8 de Dezembro ao Dia de Reis. Os madeirenses designam a época como a Festa, a mais importante e esperada de todas as que se fazem no arquipélago, mas nos Açores e no continente sobrevivem tradições de um povo católico que, a cada Natal, se repetem.

A norte, entre o Douro e o Minho, o banquete da noite da consoada (de 24 para 25 de Dezembro) é o melhor de todos os dias do ano. E não podia ser mais português, já que à mesa vai o bacalhau cozido com batatas, couves e ovo. No Minho também se serve polvo numa ementa onde entra o vinho do Porto e os doces. A aletria, a receita onde se troca o arroz por massa doce, as migas doces ou mexidos, as rabanadas, os sonhos e o tronco de Natal compõem a lista das sobremesas.
A noite da consoada, nos tempos de maior fervor católico, terminava com a Missa do Galo e as crianças, que deixavam o sapatinho para as prendas, abriam os presentes na manhã do dia de Natal. Hoje as famílias ligam menos aos ritos religiosos e trocam-se os presentes durante a consoada. E o costume é mais ou menos o mesmo por todo o território continental, o que muda é a ementa, que cada região adaptou ao que a terra dava.

A norte os presépios feitos de musgo verde foram durante anos a principal decoração de Natal, mas actualmente o que domina nas casas é a árvore, quase sempre artificial, sem cheiro a pinheiro e enfeitada com as tendências de cada ano e de acordo com a decoração de cada sala. O que não mudou foi o prato do dia de Natal feito dos restos da consoada e a que se dá o nome de «roupa velha»

Lugar de pastoreio, nas Beiras, a consoada inclui, além do bacalhau, cabrito assado e, como em quase todo o interior português de Trás-os-Montes ao Alentejo, os rapazes em idade de casar vão buscar um madeiro para arder no adro da igreja ou na praça de cada aldeia na noite da consoada. É provável que o costume seja anterior ao cristianismo e esteja relacionado com o solistício de Inverno.

O lume novo é como a Festa dos Rapazes em Trás-os-Montes, também assinalada por altura do Natal. Os rapazes com mais de 16 anos vestem-se caretos (mascarados) na noite de Natal e colocam máscaras de diabos. E durante uma noite são permitidas diabruras. A festa terá origem pagã, mas ainda se faz pelas aldeias de Tras-os-Montes.

IMG_0082A sul, mesmo em Lisboa, a capital composta de gente vinda de todos os cantos do país, também se celebra a consoada, mas está inclui peru assado. É em Lisboa e no Porto que ainda existem lojas especializadas na venda do bacalhau. Estabelecimentos antigos com clientes fiéis que, todos os anos, encomendam o melhor bacalhau para a noite de 24 de Dezembro.
No Alentejo, além do bacalhau, há lugar para os pratos de porco que, quase sempre, é morto em Dezembro e a pensar no Natal. A noite da consoada, que nesta região dá pelo nome de missadura, é aquecida também pelo madeiro a arder na praça. Os pratos da missadura só se comem depois da missa do galo. Antes disso servem-se os pratos de peixe como a sopa de cação e o bacalhau. Da lista de doces constam as barrigas de freira e a boleima.

O bacalhau para prato da consoada só chegou ao Algarve no fim do século XX já que no extremo sul do país as tradições eram outras e diferentes. Havia porco frito com berbigão e amêijoas abertas na chapa, servia-se galinha de cabidela, galinha cerejada ou um ensopado de galo. Quando havia bacalhau, era servido em guisado e com salsa. Também o presépio algarvio não representa uma gruta, mas é só uma escada com um Menino Jesus em pé rodeado de searinhas e laranjas.

Divididos por nove ilhas, os açorianos vivem o Natal com particularidades sendo costume comer galinha recheada com torresmos, nas Flores, além dos enchidos e da linguiça com inhames. Na Graciosa o presépio é semelhante ao algarvio, um Menino Jesus num altar e em Santa Maria é tradição colocar pratinhos de trigo grelado no presépio. Os açorianos têm a tradição de ir de casa em casa, da véspera de Natal ao dia de Reis, numa ronda a que dão o nome de «O menino mija».

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A Festa na Madeira

O Natal na Madeira vai de 8 de Dezembro ao Dia de Reis e os madeirenses designam a quadra como a Festa, por ser a mais importante de todas as que se fazem no arquipélago. E pela Festa tudo muda nas ilhas, até a disposição das pessoas. São os dias das limpezas em casa, das compras, das missas do parto, da noite do mercado e as visitas à família nas oitavas do Natal.

As iluminações no Funchal ligam, no totalidade, a 8 de Dezembro, o mesmo dia em que, reza a tradição, os madeirenses começam as limpezas. Faz parte da época limpar, pintar, encerrar o chão e fazer arranjos em casa porque é assim que se recebe o Menino Jesus.

A tradição dizque é por esta altura que se começam a fazer os bolos de mel. Os licores, o de tangerina é muito afamado, também. Ainda se faz a função do porco, mas é proibido por lei matar o animal em casa. A carne vai servir para as festas que não há Natal na Madeira sem uma sandes de carne vinha e alhos.

O movimento no Funchal aumenta com as compras e, a 15 de Dezembro, começam as missas do parto. As missas são as novenas à Virgem e até dia 23, a revéspera de Festa, há romarias nas igrejas ao amanhecer. Há violas, acordeões e, porque é tradição, rebentam-se bombas de garrafa.

As bombas são pequenos cartuchos de pólvora que rebentam ateando lume, quase sempre de um cigarro. São próprias desta quadra na Madeira e continuam a rebentar, apesar de todas as restrições e regras impostas à venda destes artefactos. As bombas rebentam nas missas do parto e, depois do Natal, na semana que vai até ao Fim do Ano.

Só que a Festa faz-se de muitos passos e a 23 de Dezembro o povo sai à rua para a noite do Mercado. Hoje é uma festa para beber e comer, mas tem na origem o dia das últimas compras numa época em que não havia maneira de conservar os alimentos. Era a noite de ir comprar ramagens, tangerinas e o ananás dos Açores para comer no dia 25 de Dezembro.

Na Madeira, a consoada não tem a importância de outros lugares, mas come-se sempre uma canja antes de ir para a Missa do Galo e há romaria em várias igrejas. O dia 25 é celebrado dentro de portas, em família, e à mesa vai o melhor. Antigamente, ia uma galinha, carne de vinha e alhos e, manhã cedo, havia cacau quente para beber.

Passado o dia de Natal, começam as oitavas e é por esta ocasião que se fazem as visitas à família, se provam os licores e apreciam os presépios. Na Madeira há duas versões: a escadinha de origem algarvia com o Menino Jesus em pé e o presépio feito de papel pintado a imitar a gruta de Belém.

As festas estendem-se até ao Fim do Ano, quando volta a haver motivo para celebrar. O fogo de artifício é a apoteose deste mês de alegria e boa disposição. As luzes desligam-se no Dia de Reis e os madeirenses voltam à vida normal até à Festa, que há-de ser celebrada com mesmo entusiasmo.

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