A luz da ressurreição

Memória Agradecida

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Teodoro de Faria, Bispo Emérito do Funchal

No princípio disse Deus: “Faça-se a Luz, e houve Luz. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a Luz das trevas, Deus chamou à Luz Dia e às trevas noite. Houve uma tarde e uma manhã, o primeiro dia”, Jesus proclama solenemente: “Eu sou a Luz do mundo!”. O tema da luz percorre toda a Bíblia, mas na Ressurreição, ganha mais esplendor. A igreja oriental para a Paixão do Senhor, privilegia o texto de São João que, mesmo narrando os sofrimentos e paixão de Jesus, apresenta sempre que Ele é o Senhor da Glória, o Deus de Deus, o Altíssimo, mesmo na cruz.

Durante as minhas estadias na Terra Santa, tive testemunhos desta visão de Cristo que une as narrações, de forma a não se deterem num só aspeto, como no Natal que considera o Menino do presépio, não apenas pobre, mas já realizando o milagre no matrimónio de Caná da Galileia, mudando a água em vinho e a ser batizado no Rio Jordão.

No ano de 1981, ainda Reitor do Colégio Português em Roma, com o Bispo Dom Maurílio de Gouveia e Padre Vidal, colegas de estudo no Funchal, resolvemos visitar a Terra Santa pela Páscoa e todo o território bíblico, com um carrinho árabe pequeno e barato, realizámos uma peregrinação admirável e de profundidade espiritual.

Acompanhei-os até ao aeroporto, pois tinham serviços em Lisboa, retornei a Jerusalém para a Páscoa dos Ortodoxos no Santo Sepulcro, que a Igreja oriental chama mais corretamente da Ressurreição.

Um sacerdote que encontrei na mesma casa onde habitava, disse-me para visitar a Basílica da Ressurreição para a festa da Luz, que se realizava no sábado Santo, como antigamente com o sábado da Aleluia, pelo meio dia na Igreja Católica. Chegando à Basílica já não consegui entrar, estava repleta de fiéis, refugiei-me junto da grande porta da Basílica, vendo os espaços externos a encherem-se de visitantes.

Notei que sobre os muros, terraços das casas, já estava tudo cheio de pessoas que, como esperava, quase em silêncio, notei, porém, que todas elas traziam nas mãos um conjunto de velas amarradas pelo meio, alguns homens seguravam um grande círio, quase da sua altura. Reinava um certo silêncio, mas de vez em quando, um coro de jovens, uns até sentados nos ombros uns dos outros, entoavam cânticos alegres em árabe.

Perguntei por que esperavam, disseram-me: “Pela luz do Santo Sepulcro. O Patriarca está dentro a rezar, esperando que o fogo desça do Céu, outros dizem que ele acende o círio e abre a porta do sepulcro para comunicar a Luz da ressurreição aos cristãos do mundo ortodoxo.

Pelas 10.50 o Patriarca aparece com a Luz acesa. Levantam-se gritos, palmas, hossanas, a Luz em poucos segundos enche a Basílica, passa sobre as cabeças,

penso num incêndio, derrama-se ao meu lado que não tenho círios. Já escalou pelos terraços. Os sinos da Basílica tocam a rebate, soam cânticos, gritos, alaridos, risos e algumas palmas invadem o lugar santo, os escuteiros nas ruas soam tambores. As igrejas da cidade santa tocam os seus sinos, um foguete rebenta no ar, sobre os montes da cidade e arredores acendem-se grandes fachos que indicam ao longe a hora santíssima do fogo da ressurreição. Em pouco tempo, através dos fogos acessos sobre os montes, a hora da Páscoa chegou ao Egito, ao Monte Sinai, a Constantinopla, à Grécia, aos frades do Monte Athos, a Kiev e Moscovo na Rússia.

A LUZ de Cristo Ressuscitado incendeia o oriente cristão. Quando vinha dentro do avião, uma senhora trazia uma lanterninha com o fogo saído do Santo monumento da Ressurreição.

Os nossos peregrinos trazem de Jerusalém como recordações, água do rio Jordão para batismo de familiares, outros saquitos de terra santa, e uma vez uma menina, uma   malinha de pedras das cidades bíblicas, da minha parte, sempre que posso, trago um ícone bizantino russo, para um futuro museu de arte sacra.

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