Abstenção mancha eleições para o CCP na Venezuela

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Depois de uma longa espera para a convocatória, e de uma curta campanha de informação, decorreram no passado domingo, 6 de Setembro, em todo o mundo, as eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), nas quais, num total de 50 círculos, foram escolhidos 80 novos representantes.

No caso da Venezuela existem dois círculos: Um Caracas/Oriente (Los Teques, Puerto Ordaz, Barcelona e Nueva Esparta) e outro Valência/Ocidente (Mérida, Táchira, Zulia e Lara), com as regiões a tomarem a batuta para a escolha dos seus representantes. Entre os dois círculos foram escolhidos seis representantes (quatro por Caracas e dois por Valência), que serão os responsáveis pela defesa dos direitos dos portugueses que residem no estrangeiro perante o Governo de Lisboa.

Apesar de se ter tratado de um processo bastante movimentado, a falta de participação foi a característica mais marcante, contando com pouco mais de 2% de participação total, situação pela qual muitos responsabilizam os consulados e inclusive o Governo português, por não ter gerido a informação da forma mais correcta.

A somar ao desconhecimento do processo está a aplicação da nova lei eleitoral, que estabelece que já não basta estar registado no consulado, é também necessário estar recenseado em Portugal a partir da Venezuela, para poder exercer o direito ao voto em qualquer dos sufrágios que seja realizado, pelo que a imagem frequente em todos os consulados no dia da votação foi a dos portugueses que responsavelmente responderam à chamada mas que não puderam exercer o seu direito por não estarem recenseados.

Uma das situações que mais chamou a atenção durante o processo foi a participação dos jovens luso-venezuelanos, que marcaram presença em todos os consulados do país para exercer pela primeira vez o seu direito.

Falaram as regiões

Vale a pena destacar que apesar da baixa participação, os consulados honorários mantiveram-se activos e atentos às questões dos votantes, sobressaindo o grupo do Consulado Honorário de Táchira, que registou a participação mais elevada em relação à população inscrita, com um total de 27 votos, que tiveram um peso de 21% na vitória da única lista existente no círculo Valência/Ocidente.

Nesta região registou-se um total de 448 votos, todos válidos, sem contar com as mais de 50 pessoas que marcaram presença para votar no consulado geral e que não puderam fazê-lo, solicitando de imediato serem incluídas no registo eleitoral.

Com este resultado, os novos conselheiros pela área consular são Fátima de Pontes e Leonel Moniz.

No caso do Oriente, foram registados 419 votos, repartidos entre as três listas, encabeçadas pela A, com 203 votos, seguida da lista B, com 129 votos, e da C, com 87 votos. Por lei, os quatro lugares ficaram ocupados por ordem por António de Freitas e Carlos de Freitas, da primeira lista, sendo este último o primeiro luso-descendente venezuelano a acreditar-se como conselheiro das comunidades, José Fernando Campos da segunda lista e Maria Lourdes de Almeida da terceira.

Neste círculo, a participação mais alta em relação ao número de inscritos aconteceu em Nueva Esparta, que registou 66% de participação, enquanto em Caracas a participação foi de apenas 2,75%.

A lição do dia

Chegada a hora do fecho das mesas, ouviam-se murmúrios nas salas próximas da sala onde se contavam os votos, à espera dos resultados, até que os mesmos se tornaram irreversíveis. “Felicito-vos a todos pelo esforço, e convido-vos a continuar a trabalhar pela comunidade. Foi uma surpresa para todos a participação neste dia, sobretudo porque é a primeira vez que se aplica esta nova modalidade, muitos quiseram votar e não puderam, e disso não podemos tirar senão um ensinamento e uma ideia para continuar a trabalhar neste novo período que se vai iniciar”, disse aos presentes o cônsul geral de Portugal em Caracas, Luiz de Albuquerque Veloso, ao ler os resultados prévios.

“As pessoas têm de ver que este órgão é uma forma de serem ouvidas, para que Portugal saiba que estão cá, e que a sua voz também vale para os assuntos que precisam aqui e para os assuntos que precisam lá. Peço às nossas comunidades que se aproximem dos seus conselheiros, que os apoiem, que se informem sobre o que eles farão de agora em diante”, disse Albuquerque.

Entretanto, em Valência celebravam o facto de, apesar de ter existido apenas uma lista, os eleitores terem ido às urnas para dar apoio aos candidatos, que se bem que poderiam ter ganho com um só voto, fizeram-no com o total de votos escrutinados, conseguindo mobilizar 4.42% do total de eleitores.

Falam os novos conselheiros

António de Freitas: A falta de participação é lamentável, porque neste caso não podemos falar de abstenção. Sabemos que a data teve muito a ver, que foi inadequada porque a maior parte da comunidade portuguesa no mundo está de férias; mas também há um pouco de apatia na nossa comunidade. Julgo também que a falta de informação teve um papel importante, porque a RTP, que é o canal de todos os portugueses da diáspora, transmite propagandas para umas eleições e para outras não, e não se explica que se primeiro eram as de 6 de Setembro, antes das de 4 de Outubro, não se tenha dado a cobertura adequada.

No que diz respeito a esta grande oportunidade com que os eleitores me brindam, sinto que é uma responsabilidade muito maior, porque as pessoas votaram em mim outra vez. Antes deram-me o voto sem me conhecerem, mas agora já me conhecem, e espero não defraudá-las. Continuarei a trabalhar na mesma linha, de chegar directamente à nossa gente nas suas comunidades, porque nem todos estão nos clubes, somos mais fora dos clubes, e temos que ouvir as suas necessidades e tratar de procurar soluções. Espero estar à altura da responsabilidade que me foi concedida, e procurar forma de incentivar os jovens, de dar-lhes novas oportunidades. Há que contribuir em todos os aspectos possíveis.

Carlos de Freitas: O processo foi bastante tranquilo, mas notou-se um pouco de apatia, e há que reconhecer que as pessoas dos consulados trabalharam bastante bem. Acho que houve desinformação sobre o processo, e que foi tudo muito rápido, havia muita gente que queria votar e não pôde porque não sabiam que tinham de recensear-se. Parece-me que houve um erro muito grande por parte das autoridades nesse sentido, mas isto tem que servir-nos de exemplo, e estou certo que, como conselheiros, trabalharemos para que este tipo de coisas não volte a acontecer.

Enfrento este novo desafio com muitas expectativas, principalmente tendo em conta que se deve continuar o trabalho dos nossos antecessores e melhorá-lo, pelo bem da nossa comunidade, e o objectivo será sempre orientar e ajudar. Estou mais do que convencido que os conselheiros trabalharão pelos portugueses de, e na Venezuela, porque temos aqui um grande país pelo qual lutar, e para que também saibam em Portugal o que fazemos cá, que a nossa voz se ouça lá.

Fernando Campos: Não vou negar que me sinto decepcionado com o nível de votação, porque definitivamente alguém não fez o seu trabalho como devia, mas devemos aprender com isso. Por outro lado, sinto-me profundamente comprometido com esta oportunidade, sinto que a minha equipa fez um trabalho sério, responsável, e chegámos às pessoas, os números são reflexo disso. Felicito os meus restantes companheiros, que sabem que estou disponível e disposto a trabalhar em prol da comunidade.

Penso que, se bem que os conselheiros representam um órgão consultivo, não podemos esperar que nos consultem enquanto estamos sentados nas nossas obrigações habituais. Temos, sim, que nos movimentarmos, temos que chegar até onde precisam de nós, e é por aí que me quero orientar. A verdade é que estou ansioso e com muita vontade de trabalhar pela nossa gente, e sobretudo quero pôr a Venezuela no mapa dos conselheiros, não quero ser mais um de 80, mas sim que sejamos o número um dos oitenta. Há muito por fazer, mas vamos fazê-lo.

Maria Lourdes de Almeida: A abstenção tem a ver com o recenseamento eleitoral tardio, foram anunciadas eleições em muito má data, porque muitos dos nossos compatriotas não estão no país, continuamos com uma apatia no voto, não temos cultura de voto. Mas em linhas gerais, as expectativas são sempre positivas porque espera-se poder fazer o que não foi feito até agora, no meu caso particular, estou a repetir o cargo.

Acho que continua a haver uma falha na visita às comunidades, acho que devemos continuar a educação com vista ao voto, aumentar o recenseamento com a meta de que haja tantos inscritos nos consulados como recenseados. E sobretudo espero que o Governo tome consciência sobre as suas comunidades no estrangeiro, é para isso que estamos a trabalhar.

Fátima de Pontes: Foi um processo alegre, a verdade é que no caso deste círculo, tocámos a fibra das pessoas, acho que se tivéssemos tido um bocadinho mais de tempo, se tivesse havido mais informação, mais gente tinha participado. Acho que com este processo, derrubou-se o paradigma de que Caracas é Caracas e o resto é paisagem, as regiões fizeram-se ouvir, e temos de ter isso como exemplo.

Para mim é uma satisfação ter visto presidentes de clubes a votar, a incentivar ao voto, como ocorreu em Barquisimeto, noutras eleições não se tinha visto tanta gente no Consulado de Valência como desta vez.
Acho que temos de mudar as coisas, ter um plano de trabalho e chegar onde os portugueses estão, porque é a eles que devemos. Vamos ser mais activos, mais próximos da nossa gente e das suas necessidades.

Leonel Moniz: Lamentavelmente demo-nos de conta de que a figura do conselheiro é praticamente desconhecida por grande parte da nossa comunidade, e foi em conhecer esta figura que esteve a chave da participação, isso é algo em que todos os que foram eleitos têm de trabalhar.

Desde o dia das eleições, e de muito antes, que estamos a trabalhar, temos muitas expectativas, queremos fazer projectos que beneficiem os nossos cidadãos, não só na Venezuela mas também os nossos cidadãos no mundo inteiro, porque foi para isso que todos os conselheiros se uniram em congresso. Não é fácil, é um trabalho no qual temos de aprender muito, mas estamos dispostos a fazê-lo. Acredito firmemente que esta geração deve abrir o caminho para os que venham atrás, e ensinar às pessoas quais as mais-valias da existência dos conselheiros, porque isto não é um benefício particular mas sim para a comunidade. Não se pode continuar com esta situação de afastamento entre as autoridades portuguesas e os seus cidadãos, e é por isso que vamos trabalhar e lutar.

RESULTADOS GERAIS

CARACAS-ORIENTE

Lista A 203

Lista B 129

Lista C 87

VALÊNCIA-OCIDENTE

Lista única 448

Eleitores por círculos

Valência – Ocidente Total de eleitores 10141

  Recenseados Votaram
Aragua 3162 80
Carabobo 4771 176
Lara 1115 53
Mérida 148 25
Táchira 128 27
Zulia 817 87

 

Círculo Caracas – Oriente Total de eleitores 8836

  Recenseados Votaram
Caracas 7465 206
Anzoátegui 598 103
Bolívar 209 32
Miranda-Los Teques 522 41
Nueva Esparta 42 28

 

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