António Barbosa, um lusitano no Estudiantes de Caracas

Barbosa venceu, como treinador, a Valência Cup com o Real Esppor

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O futebol venezuelano tem crescido paulatinamente nos últimos anos, tanto em termos de estrutura futebolística, como no capítulo técnico-táctico. Esta evolução deve-se ao trabalho de jogadores, dirigentes e, obviamente, treinadores. E neste último sector os luso-descendentes têm sido parte importante. António Barbosa, que actualmente é o treinador das camadas jovens do Estudiantes de Caracas é um exemplo desse trabalho.
Barbosa nasceu na Rodésia, actualmente Zimbabué, a 8 de Setembro de 1969. “É uma história longa. Os meus pais estavam em Portugal e mudaram-se para a Rodésia, o que agora é o Zimbabué, onde vim a nascer. Depois registaram-me em Portugal. Os meus pais nasceram no Porto”, conta o técnico sobre as suas origens. Tem uma filha, de 16 anos, que se chama Ana Karina.

Tinha oito anos quando a sua família decidiu partir do país africano devido a assuntos de força maior. “Na Rodésia começou a guerra entre os brancos e os pretos. O racismo era muito grande e obrigaram todos, nativos e estrangeiros, a cumprir o serviço militar. Nas duas primeiras vezes, o meu velho foi ao quartel e, na outra, ao campo de batalha. O perigo era constante assim que o meu pai disse que já havia servido no seu país e que não ia servir num país que não era o seu. Tomou a decisão de vir para a Venezuela, onde o dólar estava a 4,30 e era um país belo. Tinha cá uns tios e insistiram que viéssemos para cá. E aqui estamos”, explicou.

Pisou terras venezuelanas quando ainda era um menino. “Cheguei a Caracas, mais especificamente a El Cementerio, na rua La Vereda. Iniciei a minha primária no Colégio Guaicaipuro e fiz o quarto, quinto, sexto e secundário em La Salle. E por causa do futebol, acabei por não ir para a universidade”, comentou.

A sua trajectória como profissional foi curta mas logrou manter-se em bons níveis. “Estava em La Salle de Tienda Honda e tocou-nos ir jogar a La Salle La Colina, onde me viram e convidaram para assinar pelo Deportivo Portugués, nas suas camadas jovens. Quando desapareceu, passei a jogar no Asociación. Como também desapareceu, fui para o Galicia, pois o Lino Alonso viu-me jogar e chamou-me. Aqui joguei na Copa Venezuela, segunda divisão e subimos à primeira, mas depois descemos. Passei pelo Frenos Ávila e, por último, fundei o Peñarol com o “Pocho” Mena. Era jogador e dirigente”, relatou.

Em 1994, deu os primeiros passos como treinador. “Comecei a minha carreira no colégio Cristo Rey. Tenho um amigo que se chama Alfonso Muñiz, que estava treinando os juvenis e disse-me que precisava de alguém que o ajudasse, e eu aceitei. Foi um ano antes de retirar-me do Peñarol”, indicou.

Depois foi para o Real Esppor. “Pedro Febles e Pedro Acosta chamaram-me para que os ajudasse nesse projecto que dava os primeiros passos”, recordou.

A sua passagem pelo novo clube foi bem sucedida. “O primeiro título conquistado pelo Esppor foi a Série Nacional Sub-20 e eu era o director técnico da equipa. Estiveram comigo Daniel Febles, Cristián Galdón (preparador físico das camadas jovens do Atlético Venezuela), John Dennis (preparador físico do Atlético Venezuela), entre outros. Tive sorte que me dessem os sub-16, e fui à Valência Cup, que ganhámos em Espanha”, contou.

Vários jogadores conhecidos foram formados pelo técnico. “Elías, no Chipre, Janko Vagovitz, que está com o La Guaira, Alejandro Mota, que está com o Atlético Venezuela; Alejandro González e Ricardo Azuaje, que estão connosco aqui; Alejandro Medina, que está nos Estados Unidos numa bolsa; entre muitos outros”, enumerou.

Ser treinador de formação é o trabalho gratificante. “É o máximo. Muitos jogadores passaram pelas minhas mãos. Entre eles, Rafael Acosta, uma alegria. Cada vez que nos vemos, agradece-me e isso enche qualquer um; Marlon Bastardo, que está com o Tucanes de Amazonas; entre outros”, comentou.

Entre os que formou encontra-se Víctor García, que hoje milita no FC Porto B. “Com ele há uma história engraçada. Na sua primeira prova com Pedro Acosta nos sub-17, o rapaz vomitou. Pedro disse-me que o tirasse. Falei com ele e perguntei o que é que se passava e ele disse-me que não havia comido. Disse-lhe que ia proteger, que ia ajudá-lo e olha onde está”, disse.

Depois chegou ao Estudiantes de Caracas. “É uma história mais ou menos simpática. Quando estava no Cristo Rey, sete jogadores do colégio Champagnat reforçaram a minha equipa. Fomos campeões naquele momento e um dos papais fundou o Estudiantes de Caracas. Nesse ano fui para o Real Esppor e quando voltei de Espanha, fizeram-me uma oferta. Eu também lhes pedi a oportunidade porque no Esppor estava tudo a acabar. Começaram os problemas financeiros. Jorge Peraza, o seu presidente, é como se fosse meu irmão e deu-me os sub-16. Nesse ano (2012), fomos eliminados em Puerto Cabello pelo campeão, Zamora, que justamente foi o ano que Chita se sagrou campeão no seu primeiro ano na primeira e nos sub-20”, explicou.

Trabalhar ao lado de Noel Sanvicente foi uma experiência grata. “Foi excelente, aprendi muito. É um escravo, vive daquilo. Quer estar todo o dia metido no campo. E devíamos ter tudo pronto quando chagava às 5:30 am”, contou.

Desde pequeno que gosta de futebol. “O meu pai ajudou-me porque havia uma bandeira do Benfica em casa e havia um jogador que me inspirou, que se chamava Tony. Via que tínhamos o mesmo nome e então fui por esses lados. Também Jorge Couto, que esteve aqui um tempo, foi para Portugal e na altura vi-o com a selecção de lá. Outro caso emblemático para mim foi Futre”, contou.

A comida lusitana não falta em casa. “O caldo verde, o bacalhau, todas essas cosas típicas que a minha mãe prepara são de lá”, confessou.

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“O meu pai ajudou-me porque havia uma bandeira do Benfica em casa e havia um jogador que me inspirou, que se chamava Tony.”[/pull_quote_center]

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