Associação dos Lesados do Banif em Caracas para conseguir mais apoiantes na reivindicação dos direitos

Dezenas de afetados esclareceram as suas dúvidas e apresentaram as suas reclamações aos representantes de Alboa, que esteve na Venezuela

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Uma delegação da Associação dos Lesados do Banif (ALBOA), liderada pelo seu presidente Jacinto Silva, que se fez acompanhar por Daniel Caires, esteve na Venezuela para promover quatro encontros com membros da comunidade portuguesa no país, que foram afetados pela crise e posterior venda do Banco Internacional do Funchal.

A primeira reunião, que se realizou na manhã do sábado 1 de abril nas instalações de Urban Cuplé do Centro Comercial Ciudad Tamanaco, localizado na zona Este de Caracas, contou com a participação de cerca de 40 pessoas, que compareceram com a finalidade de expor os seus casos, esclarecer as suas dúvidas, receber assessoria da associação portuguesa e apresentar as suas reclamações sobre o que consideram ser uma “venda fraudulenta de produtos e serviços”, que serão apresentados perante o regulador dos mercados financeiros. Situação semelhante ocorreu no dia seguinte, na Asociación Civil Centro Portugués, localizada na urbanização Macaracuay, onde os interessados tiveram a oportunidade de, em três reuniões realizadas ao longo de todo o dia, e prolongando-se inclusive pela noite dentro, expor as suas questões e ouvir explicações sobre o assunto.

Segundo dados cedidos por Alboa, um total de 3.500 acionistas investiram entre 250 e 260 milhões de euros, enquanto que um número indefinido de clientes optaram pelo Banif Finance (40 milhões de euros) e pelo Rentipar (60 milhões de euros). Perante estes números, os afetados que assistiram aos encontros concordam que há uma necessidade de articular um movimento que permita ter bases sólidas com vista a conseguir um único objetivo: que alguém pague pelos 350 milhões que, da noite para o dia, desapareceram.

«Se o Santander ficou com o “fillet mignon” e o Estado com o Oitante, onde ainda pode recuperar alguma coisa, então o que fica para nós, emigrantes que com muito sacrifício reunimos dinheiro e apostamos nesses produtos do banco para oferecer um futuro melhor aos nossos filhos? Quem é o culpado disto? Nós temos que ir atrás do culpado e exigir que nos devolvam o nosso dinheiro», expressou José António Moreira, um dos afetados que não escondia o seu descontentamento.

Outra lesada, que preferiu não ser identificada, assegurou que os portugueses e lusodescendentes a residir na Venezuela e os seus descendentes preferem já não investir em Portugal. «Quem vai confiar nos bancos portugueses e no Governo luso depois disto? Ninguém. Víamos o país dos nossos pais como um lugar seguro para o investimento e o nosso erro foi confiar de olhos fechados. Nós já não confiamos em ninguém e muito menos no Estado português, que só recorre às comunidades de emigrantes quando precisa de dinheiro. Agora nós preferimos investir em bancos de outros países da Europa e inclusive da América, onde existe maior estabilidade e garantem salvaguardar o nosso dinheiro», expressou com indignação a cidadã.

Opinião semelhante tem Marinés de Abreu que, em declarações à Agência Lusa, assegurou que existem locais na Europa onde o Estado responde perante estas situações sem a necessidade de chegar a tribunal. «Locais onde, se o banco for à falência, imediatamente o Estado responde e há uma entidade a quem podemos recorrer sem ter que ir diretamente a esse país. Falamos da Alemanha e da Holanda, por exemplo», sentenciou.

Um dos fatores mais coincidentes entre os presentes nos encontros foi o facto de grande parte dos produtos adquiridos ter sido assinado perante recomendações das representações comerciais dos bancos na Venezuela durante festividades e encontros. «No meu caso, queria comprar um determinado montante em ações e, quando fui assinar os papéis no banco, a pessoa que me atendeu tinha-me colocado o dobro do solicitado e disse-me que assinasse porque era um negócio fiável. Como tinha o dinheiro e conhecia minimamente o assunto, para além de confiar na pessoa, assinei-o. Agora estou a tentar sobreviver», explicou outro dos afetados ao CORREIO.

«Às vezes, vinham representantes do banco desde a Madeira para nos convencer e levar com eles as nossas poupanças para Portugal. Agora eles desaparecem. Gostava de vê-los um dia para lhes pedir explicações. Com muito esforço, estamos, a família, a tentar recuperar. Abrimos um pequeno restaurante em Bogotá, porque também na Venezuela não há garantias e ninguém entende a gravidade, para os emigrantes, de perder as poupanças de dezenas de anos», indicou Lucinda Camacho à Agência Lusa.

Associação esperançada

Em entrevista ao CORREIO, o engenheiro Jacinto Silva assegurou que a associação que representa está a bem encaminhada para procurar uma solução que beneficie todas as partes. «Se não acreditasse numa solução, não estaria aqui. O que eu garanto é que, enquanto não houver solução, não vamos deixar de estar aqui, nem eu nem os meus colegas. É uma causa em que acreditamos e defendemos. Constatamos casos de flagrante miséria. Pessoas que não tem dinheiro para comer e precisa de apoio social. Ninguém nos vai parar até que estas circunstâncias tenham uma solução. Esperamos que essa solução seja encontrada o mais rapidamente possível», disse.

As reuniões em Caracas, desde um aspeto de mobilização, viram-se afetadas devido à situação política que está a afetar o país. Contudo, Jacinto Silva mostrou-se positivo ao fazer um balanço. «Apesar da situação política, a suspeita de algumas pessoas (o que as levou a não participar) e o facto de muitos dos afetados estarem a residir fora de Caracas, os resultados são muito bons. O número de pessoas que esteve no encontro foi importante e agora eles têm a capacidade de passar a palavra. As pessoas ficaram sensibilizadas, conhecendo melhor a associação e a estratégia que temos na defesa dos seus interesses. Estou convencido de que este trabalho vai dar frutos a curto prazos. Talvez pensávamos que iam estar presente mais pessoas, mas em qualquer um dos casos estamos satisfeitos porque os resultados justificaram a nossa presença na Venezuela», afirmou.

Interrogado sobre os principais produtos que possuíam os emigrantes lusos radicados na Venezuela, Silva assegurou que a maioria das pessoas tinha subscrito ações na instituição. «A nível de lesados na Venezuela, temos situações diversas, embora a maioria tenha subscrito ações do Banif. Contudo, existem muitas pessoas que se associaram em simultâneo a produtos subordinados de Banif Finance e produtos do Banif (…). Cada produto é diferente, quando se trata de ressarcir», explica o representante de Alboa.

«A associação vê numa fase mais adiantada a questão das ações, que passa pela recoleção de reclamações e apresentação destas à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Existe um compromisso do Primeiro-ministro António Costa, que já tinha sido feito antes, de intervir. Este refere que é preciso haver por parte da CMVM, nem que seja de forma explícita, uma declaração de venda fraudulenta. Consideramos que essa é uma primeira fase para conseguir a resolução do problema de todos os lesados. Por outro lado, acreditamos que a fase dos acionistas tem que ser resolvida pela via judicial e vai demorar mais tempo. No que se refere aos clientes do Banif com dívidas em Rentipar, eram acionistas diretos do Banif e as pessoas confundiram», argumentou Silva.

Ao perguntar-lhe sobre o responsável da supervisão da venda de produtos, estando já o banco a intervir pelo Estado, Silva assegurou que o Banco de Portugal era a instituição com a referida responsabilidade. «Havia responsáveis nomeados pelo Estado e pelo Banco de Portugal. Ambos tinham a obrigação de saber o que acontecia, embora parece que não o sabiam. Portanto, o Estado tem aqui grandes responsabilidades e o Banco de Portugal também. Nas duas últimas emissões de obrigações subordinadas, em 2014 e 2015, nasceu um reparo da comissão da CMVM e ainda assim o Estado avançou com estas. A última foi emitida em janeiro de 2015 e dois meses depois deu-se a resolução do banco, sancionou.

Sobre a relação da associação do Banco Santander Totta, Silva expressou: «Quanto à resolução e à compra da atividade comercial, o Santander protegeu-se no que se refere às obrigações que poderia ter com este problema. Oficialmente e juridicamente, a responsabilidade do Santander é nenhuma. O referido banco proibiu a associação de circular ou associar o seu nome à nossa causa, mas acreditamos que o Santander, por uma questão de melhoria da imagem ou por uma questão moral, deveria aproximar-se da Alboa e sentar-se à mesa, dando as suas ideias e participando na resolução do problema. A nossa proposta não é que o Santander pague nada, mas que apoie na procura de uma solução».

Durante os encontros que se realizaram em Caracas, Silva e Caires explicaram pormenorizadamente a resolução tomada no que se refere ao Banif.  Lembre-se que, a 20 de dezembro de 2015, o Governo e o Banco de Portugal anunciaram a resolução do Banif com a venda da atividade bancária, ou “Banco Bom”, ao Santander Totta por 150 milhões de euros e a criação da sociedade-veículo “Oitante” para a qual foram transferidos os ativos que o Totta não comprou. Continua a existir ainda o Banif SA, agora “Banco Mau”, no qual ficaram os acionistas e os obrigacionistas subordinados, que provavelmente nunca receberão o dinheiro investido.

Um ano de Alboa

A associação foi constituída a 17 de fevereiro de 2016 e representa cerca de 3.500 acionistas afetados. Atualmente, está a ser registada perante a CMVM, para ser reconhecida como uma associação de lesados. Contudo, a organização já é reconhecida pelas entidades oficiais: o Primeiro-ministro e o Governo têm mantido encontros com os seus representantes.

 «A associação tem como fim promover a proteção e defesa dos direitos e interesses dos lesados, quer por efeito direto, quer por efeito indireto, do mecanismo de resolução bancária ocorrido no ano de 2015, perante entidades bancárias, empresas e pessoas relacionadas, entidades administrativas, entidades reguladoras, o Estado Português e a União Europeia, podendo para o efeito desenvolver atividades e/ou praticar quaisquer atos adequados à prossecução do seu fim, incluindo incentivar o agrupamento de associados a promover reuniões, debates e manifestações, prestar declarações públicas, esclarecimentos relacionados com o seu fim, e praticar quaisquer outros atos previstos na lei, bem como intentar e/ou  requerer  ações  judiciais,  estabelecer negociações e acordos, em representação  dos seus associados para a defesa dos interesses  que lhes são próprios», pode ler-se na missão desta associação no seu portal informativo.

Jacinto Silva recordou que Alboa, com o portal web www.lesadosbanif.com, onde os interessados podem encontrar toda a informação necessária para pertencer à associação. «A inscrição tem um custo de 50 euros ou 55 dólares. Uma vez transferido para a conta e enviado o comprovativo de depósito, entram na base de dados e começam a receber informação privilegiada por e-mail, com os avanços da nossa gestão e as novas notícias sobre o tema. O dinheiro da inscrição é algo insignificante perante os montantes perdidos, mas temos consciência de que as pessoas estão a passar por dificuldades depois deste golpe. Contudo, os lesados devem entender que a associação tem despesas com advogados, assessoria de imprensa, deslocações, viagens e estadias. Nestes dois últimos anos, estivemos na Venezuela e na África do Sul. Contudo, podemos garantir que nenhum dos membros da associação é remunerado pelo seu trabalho», explicou.

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Contactos

Email: geral@lesadosbanif.com

Facebook: https://www.facebook.com/LesadosBANIF

Contacto telefónico: (+351) 925 333 309

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Editor - Jefe de Redacción / Periodista sferreira@correiodevenezuela.com Egresado de la Universidad Católica Andrés Bello como Licenciado en Comunicación Social, mención periodismo, con mención honorífica Cum Laude. Inició su formación profesional como redactor de las publicaciones digitales “Factum” y “Business & Management”, además de ser colaborador para la revista “Bowling al día” y el diario El Nacional. Forma parte del equipo del CORREIO da Venezuela desde el año 2009, desempeñándose como periodista, editor, jefe de redacción y coordinador general. El trabajo en nuestro medio lo ha alternado con cursos en Community Management, lo que le ha permitido llevar las cuentas de diferentes empresas. En el año 2012 debutó como diseñador de joyas con su marca Pistacho's Accesorios y un año más tarde creó la Fundación Manos de Esperanza, en pro de la lucha contra el cáncer infantil en Venezuela. En 2013 fungió como director de Comunicaciones del Premio Torbellino Flamenco. Actualmente, además de ser el Editor de nuestro medio y corresponsal del Diário de Notícias da Madeira, también funge como el encargado de las Comunicaciones Culturales de la Asociación Civil Centro Portugués.

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