Cinco presidentes foram eleitos em nove processos

As eleições presidências do próximo domingo 24 de janeiro serão as décimas desde o início da Terceira República, sob a forma de sufrágio universal, direto e secreto

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As primeiras eleições presidenciais portuguesas após o 25 de Abril de 1974 tiveram lugar em 27 de Junho de 1976. A ela concorreram o general António Ramalho Eanes (independente, embora com o apoio dos partidos da esquerda moderada e do centro-direita), Otelo Saraiva de Carvalho (antigo comandante do COPCON, independente), José Pinheiro de Azevedo (antigo primeiro-ministro, independente) e Octávio Pato (com o apoio do PCP).

O prestígio que adveio a Ramalho Eanes da chefia das forças que derrotaram o movimento de 25 de Novembro do ano anterior facilmente o conduziram à vitória, tornando-se assim o primeiro presidente democraticamente eleito na história portuguesa. Foi o candidato mais votado em todos os distritos do continente (excepto no de Setúbal), bem como nas regiões autónomas.

As segundas eleições da Democracia tiveram lugar em 7 de Dezembro de 1980. O presidente em exercício de funções, António Ramalho Eanes, contava com o apoio da maior parte dos socialistas (apesar da objecção do seu secretário-geral, Mário Soares), bem como dos comunistas, cujo candidato desistiu da corrida na véspera das eleições em seu favor. Também o PCTP/MRPP deu o seu apoio incondicional ao General Eanes.

O seu principal oponente era o General Soares Carneiro, que contava com o apoio da Aliança Democrática (formada pelo Partido Social-Democrata, Centro Democrático Social e Partido Popular Monárquico, e liderada pelo então primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro). Três dias antes das eleições, a 4 de Dezembro, quando se deslocava para um comício no Porto, o avião no qual seguia Sá Carneiro e o seu ministro da Defesa Amaro da Costa despenhou-se em Camarate, poucos segundos após descolar do Aeroporto da Portela, tendo falecido todos os seus ocupantes.

Apesar das manifestações de dor de parte significativa da nação, a data das eleições presidenciais manteve-se inalterada; embora muitos analistas políticos tivessem julgado que a morte de Sá Carneiro conseguisse inverter a tendência para a vitória retumbante de Eanes e levasse, pelo menos, à realização de uma segunda volta, tal não viria a suceder, tendo o presidente em exercício sido reeleito para um segundo mandato, com mais 16 pontos percentuais que o seu principal oponente.

Ao contrário das primeiras eleições presidenciais, revela-se uma cisão clara do país: Eanes teve mais votos nos distritos do Sul do País, ao passo que Soares Carneiro obteve a maior parte dos seus nos distritos do Interior Norte e ainda nos de Leiria, Aveiro e Viana.

As terceiras eleições presidenciais portuguesas após o 25 de Abril de 1974 tiveram lugar a 26 de Janeiro de 1986, tendo sido as mais disputadas de sempre, obrigando à realização de uma segunda volta em 16 de Fevereiro, caso único nas eleições presidenciais em Portugal.

Apresentaram-se como candidatos à corrida presidencial Diogo Freitas do Amaral (apoiado pelo CDS e também pelo PSD), o ex-primeiro-ministro Mário Soares (apoiado pelo PS e que, ao apresentar a sua candidatura não contava com mais de 5% das intenções de voto), a também ex-primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo, Francisco Salgado Zenha (que contava com o apoio do PRD do ainda presidente António Ramalho Eanes, bem como de alguns membros do PCP, cujo candidato próprio – Ângelo Veloso – viria a desistir).

Embora na votação por distritos Freitas do Amaral tenha ganhado em todo o país excepto no Alentejo e Península de Setúbal (onde o candidato mais votado foi Francisco Salgado Zenha), e não tenha conseguido a vitória à primeira volta por pouco, foi no entanto o candidato do PS, Mário Soares, que viria a passar à segunda volta.

Foi neste último que se concentraram os votos dos restantes candidatos da esquerda, tendo acabado por derrotar Freitas do Amaral por uma escassa margem de 140 mil votos, e com o apoio fundamental do sul do País (Algarve, Alentejo e Ribatejo), bem como pelos distritos mais urbanizados, onde o voto se tem firmado tradicionalmente mais à esquerda (distritos de Coimbra, Lisboa e Porto).

Mário Soares viria a ser empossado presidente da República em 9 de Março de 1986, tendo afirmado ser, para acabar com as dissensões, «o Presidente de todos os Portugueses» – frase que desde então entrou no discurso político nacional.

As quartas eleições tiveram lugar a 13 de Janeiro de 1991. A reeleição do presidente em exercício, Mário Soares, nunca esteve em dúvida, especialmente depois de o primeiro-ministro Cavaco Silva ter anunciado o apoio tácito do PPD/PSD à sua candidatura. Soares obteve uma esmagadora maioria de quase 71%, tendo os restante três candidatos (Basílio Horta, pelo CDS, Carlos Carvalhas pelo PCP e Carlos Marques pela UDP), obtido votações muito pouco expressivas.

As quintas eleições democráticas tiveram lugar a 14 de Janeiro de 1996. O ex-primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva anunciou a sua intenção de se candidatar após a retumbante derrota do PSD, que liderara durante dez anos, nas legislativas do ano anterior. O seu principal oponente viria a ser o ex-Presidente da Câmara de Lisboa, Jorge Sampaio, que o derrotaria por uma margem de 400 mil votos.

Os outros dois candidatos, Jerónimo de Sousa (pelo PCP) e Alberto Matos (pela UDP) desistiram da candidatura a favor de Sampaio, que foi empossado para o seu primeiro mandato em 9 de Março de 1996.

Cavaco obteve a maior parte dos seus votos no Norte e Interior do país (região que já havia votado maciçamente no PSD nas anteriores eleições legislativas e autárquicas, e que levou à popularização da alcunha Cavaquistão para designar essa zona onde colhia maior número de apoiantes – sobretudo o distrito de Viseu). Também no distrito de Leiria e nas regiões autónomas colheu a maioria dos votos.

Seguindo a tradição das eleições presidenciais, o presidente em exercício Jorge Sampaio foi reeleito a 14 de Janeiro de 2001, para um segundo mandato com uma maioria absoluta de quase 56% dos votos. Talvez por esse motivo, as eleições foram muito menos participadas que as anteriores, mas o aumento da abstenção deve também ser lido em comparação com as legislativas precedentes, em que o número de votantes tem vindo progressivamente a diminuir.

Os outros candidatos foram o ex-ministro das Obras Públicas de Aníbal Cavaco Silva, Joaquim Ferreira do Amaral (pelo PPD/PSD), o então vereador da Câmara Municipal de Lisboa António Abreu (pelo PCP), o historiador Fernando Rosas (pelo B.E.) e o advogado António Garcia Pereira (pelo PCTP/MRPP). Com excepção do candidato da direita (que logrou alcançar quase 35% dos votos), os restantes candidatos da esquerda obtiveram percentagens insignificantes.

As sétimas eleições presidenciais portuguesas após o 25 de Abril de 1974 tiveram lugar a 22 de janeiro de 2006 e marcaram o fim do mandato do Presidente Jorge Sampaio. O ex-primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva, candidato único do centro-direita, venceu à justa o escrutínio logo na primeira volta, com 50,5% dos votos expressos. Tinha nomeadamente enfrentado dois candidatos oriundos do Partido Socialista no poder, o candidato oficial Mário Soares, antigo Presidente da República que ficou em terceiro lugar com 14,3%, e o dissidente Manuel Alegre que se classificou em segundo lugar com 20,7% dos votos. Esta vitória histórica do candidato conservador, a primeira após a Revolução dos Cravos, inaugurou um período de «coabitação política» com o Primeiro Ministro socialista José Sócrates.

Aníbal Cavaco Silva foi reeleito para um segundo mandato a 23 de janeiro de 2011. As eleições legislativas de 25 de setembro de 2009 confirmaram a situação de coabitação política, reconduzindo o PS no poder, privando-o contudo da sua maioria absoluta. A situação de crise económica e financeira que o país vive conduziu à adopção de um plano de austeridade orçamental e à intervenção mais frequente do Chefe de Estado na vida política para promover o acordo entre os partidos políticos do país.

As nonas eleições presidenciais portuguesas desde a Revolução dos Cravos tiveram lugar a 24 de janeiro de 2016 e decidiram o sucessor do presidente Aníbal Cavaco Silva, constitucionalmente impossibilitado de se recandidatar a um terceiro mandato consecutivo. O presidente da República eleito, Marcelo Rebelo de Sousa, é o vigésimo desde a Implantação da República, e o sétimo desde o 25 de Abril — destes, o quinto democraticamente eleito.

 

António Ramalho Eanes 1976-1986

Militar. Primeiro presidente da República eleito democraticamente por sufrágio universal após o 25 de Abril de 1974, em 1976 e reeleito em 1980. Cumpriu dois mandatos, entre 14 de julho de 1976 e 9 de março de 1986

Mário Soares 1986-1996

Segundo presidente da República eleito democraticamente por sufrágio universal após o 25 de Abril de 1974. Primeiro presidente da República civil desde 1926. Cumpriu dois mandatos, entre 9 de março de 1986 e 9 de março de 1996. O histórico socialista derrotou, na segunda volta da primeira eleição, Freitas do Amaral. Na segunda eleição, em 1991, deixou para trás, entre outros, Basílio Horta e Carlos Carvalhas.

Jorge Sampaio 1996-2006

Terceiro presidente da República eleito democraticamente por sufrágio universal após o 25 de Abril de 1974, em 1996 e reeleito em 2001. Cumpriu dois mandatos, entre 9 de março de 1996 e 9 de março de 2006. O socialista foi eleito, nas duas eleições, sempre à primeira volta.

Aníbal Cavaco Silva 2006-2016

Quarto presidente da República eleito democraticamente por sufrágio universal após o 25 de Abril de 1974, em 2006 e reeleito em 2011. Cumpriu dois mandatos, entre 9 de março de 2006 e 9 de março de 2016. A Presidência passou a ‘vestir-se’ de laranja com o social-democrata.

Marcelo Rebelo de Sousa 2016-2021

Quinto presidente da República eleito democraticamente por sufrágio universal após o 25 de Abril de 1974, em 2016. Os portugueses voltam a escolher um social-democrata para Belém que já ficou conhecido por ser o Presidente dos Afetos.

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