Comunidade chora a morte do Padre Alexandre Mendonça

O cónego, que esteve internado duas vezes com Covid-19, deixa um grande legado à comunidade portuguesa na Venezuela

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CORREIO / LUSA

Morreu em Caracas o cónego Alexandre Mendonça, 67 anos, diretor da Missão Católica Portuguesa, um devoto de Nossa Senhora de Fátima que durante mais de 33 anos de sacerdócio se destacou como mentor da comunidade luso-venezuelana.

A morte de Alexandre Mendonça foi confirmada por fontes próximas do sacerdote, precisando que esteve internado em setembro por motivos relacionados com a covid-19 e que teve uma recaída que o levou novamente a uma clínica de Caracas.

Alexandre João Mendonça de Canha, nasceu em São Pedro do Funchal, Madeira e emigrou para a Venezuela aos 12 anos de idade, onde se fez sacerdote, concretizando «a coisa mais linda e importante» da sua vida.

«A minha vocação nasceu comigo, desde que abri os olhos ao mundo sempre quis ser sacerdote, mas só aos 26 anos é que entrei para o seminário por causa da difícil situação económica dos meus pais» explicou à Agência Lusa durante a celebração do aniversário da sua ordenação sacerdotal.

Mas, Alexandre Mendonça tinha ainda um outro motivo de alegria, inspiração e paz, os presépios. Era detentor de uma coleção de quase 400 exemplares, de diferentes tamanhos e países.

Desde a chegada da pandemia da covid-19, em março de 2020 que passava os dias fechado, na parte residencial da Ermida de Nossa Senhora de Coromoto e Fátima, em San Bernardino, cujos acessos foram restringidos por ficar no começo da Avenida Boyacá, uma autoestrada que une, pelo norte, o oeste e o leste de Caracas.

Mesmo assim, aos fins de semana, gravava missas que fazia chegar à comunidade portuguesa através do WhatsApp.

«A pandemia da covid-19 é uma desgraça a nível mundial, mas uma desgraça maior para a Venezuela, por esse mar de carências praticamente em todos os âmbitos», desabafou em uma oportunidade à Agência Lusa.

Mendonça mostrou-se preocupado, várias vezes, pelas carências da comunidade lusa local e pela situação de insegurança no país, chegando mesmo a afirmar que «a pior desgraça da Venezuela é que estamos destruindo, não estamos construindo, e até que não se reencontrem todos como um só povo haverá realmente situações muito difíceis».

O sacerdote alertava ainda que a situação polarizada, com discursos extremados entre os apoiantes do governo e da oposição, aumentava o caos no país.

Devoto de Nossa Senhora de Fátima, Mendonça, abriu as portas da Missão Católica Portuguesa para acolher dezenas de compatriotas que perderam as suas casas e familiares durante as enxurradas de finais de 1999 no estado venezuelano de Vargas.

Durante mais de 15 anos foi mentor de Campo Rico, uma paróquia popular de gente muito pobre e exerceu funções como ecónomo do arcebispado de Caracas, diretor da Casa Sacerdotal (que acolhe sacerdotes doentes) e capelão de vários organismos de segurança pública venezuelanos.

Em dezembro de 2016, o arcebispo de Caracas, Jorge Urosa Savino (1942-2021), conferiu-lhe o título honorífico de cardeal.

Em junho de 2019, foi condecorado com a Medalha de Mérito das Comunidades Portuguesas, durante em ocasião do Dia de Portugal, aproveitando a ocasião para apelar aos lusitanos a dar atenção aos mais vulneráveis, em particular os anciãos luso-venezuelanos.

Mendonça foi condecorado como comendador da República de Portugal (1997) e com a ordem Cecílio Acosta em primeira classe (1999) pelas autoridades do Estado de Miranda (Venezuela). Em 2006 foi declarado «madeirense ilustre» e agraciado com uma medalha e um galardão pela Comissão Pró- Celebração do Dia da Região Autónoma da Madeira em Caracas.

Presidiu a Fundação Virgem de Fátima e foi assessor do Movimento Sacerdotal Mariano. Também foi guia espiritual de associações de beneficência e colégios, do Centro Português (Macaracuay) e do Centro Marítimo da Venezuela (Turumo).

Também recebeu a Cruz da Polícia Metropolitana de Caracas, em segunda e terceira classe.

Em 2006 foi condecorado pelo Centro Português de Caracas com a Ordem Grande Cordão João Fernandes de Leão Pacheco.

Governo e Assembleia Legislativa da Madeira lamentam morte do padre

Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional, e José Manuel Rodrigues, presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, manifestaram, hoje, o seu profundo pesar pela morte do padre Alexandre Mendonça, diretor da Missão Católica Portuguesa, na Venezuela, que faleceu ontem aos 67 anos.

“Com um trabalho notável junto da comunidade portuguesa radicada na Venezuela, a maioria constituída por emigrantes madeirenses, Alexandre Mendonça destacou-se pelo seu espírito humanista, tendo sido, muitas vezes, a voz dos anseios dos madeirenses na diáspora”, começou por lembrar José Manuel Rodrigues, numa nota enviada à redação.

Rui Abreu: «Alexandre Mendonça foi bastião de fé das comunidades»

A Direção Regional das Comunidades e Cooperação Externa da Madeira emitiu uma nota em que manifesta «profundo pesar» pelo falecimento do padre Alexandre Mendonça, hoje, aos 67 anos de idade.

«Foi com profundo pesar que tomámos conhecimento do falecimento do nosso conterrâneo, o Padre Alexandre Mendonça, de 67 anos, emigrado na Venezuela, natural do Funchal, São Pedro. Ecónomo da Arquidiocese de Caracas, Cónego da Catedral, Diretor da Casa Sacerdotal e Diretor da Missão Católica Portuguesa em Caracas, o Padre Alexandre Mendonça deixou um grande legado humanista, tendo desempenhado um papel de grande relevância naquele país de acolhimento» lamenta a nota.

«Foi o bastião de fé das Comunidades Portuguesa em geral, e junto da Comunidade Madeirense em particular, tornando-se uma figura de relevo. Apoiou todos aqueles que o procuraram nos bons e nos maus momentos. Assumindo-se como o porta-voz daqueles que não tinham voz, foi um guia espiritual em épocas mais sombrias, especialmente aquando da tragédia de Vargas» recorda.

«Neste momento de consternação, o Governo Regional da Madeira, através da Direção Regional das Comunidades e Cooperação Externa, endereça à família enlutada as mais sentidas condolências» conclui o comunicado enviado às redações.

Unanimidade no pesar pela morte de Alexandre Mendonça

Na continuidade dos trabalhos na Assembleia Regional, foram apresentados quatro votos de pesar pelo recente falecimento do padre Alexandre Mendonça. Os votos foram discutidos em conjunto, justificando, naturalmente, unanimidade na enorme perda que representa para a Região, nomeadamente para a comunidade madeirense radicada na Venezuela. “Um verdadeiro líder espiritual da comunidade”, conforme relevou Miguel Iglésias (PS).

O Partido Socialista-Madeira manifestou o seu mais profundo pesar pelo falecimento do padre Alexandre Mendonça, diretor da Missão Católica Portuguesa em Caracas, considerando que o sacerdote “deixa uma marca inapagável junto das comunidades portuguesas e madeirenses na Venezuela, país para o qual emigrou há mais de 50 anos e onde desenvolveu uma notável obra social”.

“Para além do trabalho inerente à Igreja Católica, que desempenhou ao longo de todos estes anos, o padre Alexandre Mendonça dedicou uma vida inteira a pugnar pela justiça social naquele país, particularmente em prol das nossas comunidades. Homem de causas, pautou sempre a sua ação pela defesa da solidariedade, pelo combate à pobreza e pela luta contra a insegurança que atinge a Venezuela. Com a sua partida, a nossa diáspora fica, inevitavelmente, mais pobre”2, pode ler-se numa nota enviada à redação.

O PSD apresentou um voto de pesar pelo falecimento do Cónego Alexandre Mendonça, endereçando, aos familiares e amigos, sentidas condolências e enaltecendo a sua dedicação e atenção para com a comunidade portuguesa residente na Venezuela.

O JPP também apresentou um voto de pesar pela morte do pároco no passado dia 13 de outubro. “A notícia do seu falecimento deixou consternada toda a comunidade madeirense ali residente, pois o pároco era uma «âncora» de esperança na conturbada situação socioeconómica daquele país da América do Sul. Durante trinta e três anos, o pároco da Missão Católica Portuguesa em Caracas foi líder espiritual da comunidade que serviu. Com o espírito crítico que o caraterizava e seguindo os princípios da Doutrina Social da Igreja, denunciou por várias vezes situações dramáticas vividas por famílias Venezuelanas, de descendentes de portugueses e, em particular, de madeirenses. Era uma voz incansável na defesa da comunidade portuguesa”, destacam em comunicado enviado às redações.

O Grupo Parlamentar do CDS-PP apresentou um Voto de Pesar pelo falecimento do Padre Alexandre Mendonça, Diretor da Missão Católica Portuguesa de Caracas. “No passado dia 13 de outubro faleceu, numa clínica de Caracas, o Padre Alexandre Mendonça, por motivos relacionados com a Covid-19, com 67 anos.

Alexandre João Mendonça de Canha, nasceu na freguesia de São Pedro, concelho do Funchal, e após terminar a 4.ª classe, com 12 anos emigrou para a Venezuela, onde seguiu os passos para concretizar a “coisa mais linda e importante” da sua vida, ser ordenado sacerdote.

“Desde que tenho a noção da existência, sempre sonhei ser sacerdote, sempre, sempre, mas só aos 26 anos é que entrei para o seminário por causa da difícil situação económica dos meus pais”, confessou o Pe. Alexandre durante a celebração do 30.º aniversário da sua ordenação sacerdotal, no dia 16 de julho de 2018, numa homenagem na Igreja do Piquinho, Machico.

Dois anos após a sua ordenação, o Pe. Alexandre Mendonça, tornou-se pároco da comunidade portuguesa em Caracas, celebrando missa na Capela do Centro Português da capital venezuelana.

Nos seus 33 anos de sacerdócio dedicou-se a sua missão na Venezuela, no entanto nunca esqueceu a terra que o viu nascer, sendo frequentes as visitas a familiares na Madeira.

A relação que estabeleceu com a comunidade portuguesa, sobretudo com os madeirenses emigrados em terras de Simón Bolívar sempre foi de profunda proximidade, vínculo que o tornou, por diversas vezes, no embaixador da comunidade madeirense na Venezuela, sobretudo nos últimos anos, marcados por uma profunda crise económica naquele país sobre o regime ditatorial de Nicolás Maduro.

Ecónomo da Arquidiocese de Caracas, Cónego da Catedral, Diretor da Casa Sacerdotal e Diretor da Missão Católica Portuguesa em Caracas, o Padre Alexandre Mendonça deixou um grande legado humanista, tendo desempenhado um papel de grande relevância naquele país de acolhimento. Foi o bastião de fé da comunidade portuguesa em geral, e junto da comunidade madeirense em particular, tornando-se uma figura de relevo. Apoiou todos aqueles que o procuraram nos bons e nos maus momentos. Assumindo-se como o porta-voz daqueles que não tinham voz.

Nos últimos anos, o Padre Alexandre Mendonça foi uma voz ativa de alerta das carências, sobretudo de alimentos e medicação, com que sofrem quer os venezuelanos, quer os portugueses que lá vivem, sendo que a sua preocupação com as necessidades e com a segurança da comunidade lusa foi mobilizadora de ações de solidariedade, tendo contribuído ainda para a definição de políticas de apoio aos mais necessitados.

O Padre Alexandre Mendonça prestou um serviço à comunidade portuguesa na Venezuela, à Madeira e aos País, deixando uma marca inapagável na vida de milhares de pessoas. A sua missão humanitária deve servir de exemplo para todos nós.

Neste sentido, a Assembleia Legislativa da Madeira, legítima representante dos povos da Madeira e Porto Santo, expressa o seu mais profundo pesar pela morte do Cónego Alexandre Mendonça, endereçando, aos seus familiares e amigos, sentidas condolências e enaltecendo todo o seu trabalho e dedicação em prol da comunidade madeirense radicada na Venezuela, não só no campo espiritual, mas também pelo profundo sentido humanista com que sempre empregou ao serviço da nossa comunidade.»

‘Parceiros da Madeira’ preparam homenagem na sé

“Os Parceiros da N.S.R. Madeira convidam para a missa de sétimo dia, pelo eterno descanso da alma do nosso padre, companheiro, parceiro e amigo ‘Monsenhor’ Alexandre Mendonça”, apela Avelino Soares Rodrigues, um dos elementos da direção do grupo.

Esta homenagem ao Diretor da Missão Católica Portuguesa na Venezuela vai realizar-se amanhã pelas 17h30 na Sé do Funchal.

O grupo que normalmente traja à marinheiro, preparou uma fotografia de grandes dimensões do Padre Alexandre Mendonça para colocar junto ao altar e espera que possam estar entre 80 a 100 pessoas nesta pequena homenagem.

Cerimónia que os ‘Parceiros da Madeira’ promovem pois, como defendem, “os amigos nunca morrem, apenas partem mais cedo e permanecem sempre vivos no coração.”

Alexandre Mendonça foi condecorado como comendador da República de Portugal (1997) e com a ordem Cecílio Acosta em primeira classe (1999) pelas autoridades do Estado de Miranda (Venezuela). Em 2006 foi declarado «madeirense ilustre» e agraciado com uma medalha e um galardão pela Comissão Pró- Celebração do Dia da Região Autónoma da Madeira em Caracas.

  1. Teodoro de Faria: “Grande missionário madeirense na venezuela”

O Bispo Emérito do Funchal, D. Teodoro de Faria, lamentou o falecimento do Cônego Alexandre Mendonça, orando pelo seu eterno descanso.

Apesar de ausente da ilha, o Bispo Emérito encontra-se com um grupo de madeirenses em peregrinação a São Paulo em Malta, não deixou de recordar “um grande missionário madeirense na Venezuela a quem Portugal e a Região muito devem”.

“Um dia de profundo pesar para a nossa comunidade na Venezuela”, lamenta.

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