Crónicas de Lisboa: «Nunca é Tarde para Mudar de Vida”

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Ele era um velho profissional da área da fotografia e da publicidade com bastante experiência e criatividade, mas um pouco boémio, pessoa que levava a vida de forma despreocupada e pouco rigoroso nas suas obrigações familiares e profissionais. Por isso, do seu ordenado era muito pouco a entrar em casa, em muitos meses, pelo que o sustento da família era, essencialmente, suportado pelo salário da esposa. Por tudo isto e com os filhos já criados, ela não aguentou mais e pediu o divórcio,” atirando-o porta fora” e com o mesmo epiteto injurioso de “inútil” o classificaram a “ex” e os seus dois filhos. Deu-lhe guarida temporária um amigo, num pequeno cubículo, mas o fim do casamento, mesmo que tenha sido, nos últimos anos, pouco exemplar, provocou nele um choque que o deixou psicológica e emocionalmente de rastos. O álcool, o tabaco e outras faltas, levaram-no ao despedimento e, com aquela idade, o que fazer para ganhar o pão, mesmo que fosse exclusivamente para si?

Caiu na rua e passou a ser mais um sem-abrigo que se abrigava, durante a noite, na estação dos comboios, na zona nova da cidade, tendo por companhia muitos outros desafortunados ou desvalidos da vida. Inicialmente e enquanto o pouco dinheiro foi chegando, sentia vergonha em mendigar, preferindo aproximar-se dos contentores com restos de alimentos, para enganar o estômago, que mesmo na vida ativa profissionalmente, não era muito exigente, preferindo o álcool e o tabaco, na companhia dos “amigos”. Mas foi-se aproximando do parque de estacionamento da zona de edifícios de escritórios e, envergonhadamente, ia fazendo aquele gesto típico dos arrumadores de carros. No final do dia, a colheita poderia ser generosa, até porque alguns dos condutores lhe confiavam as chaves da viatura que, por períodos curtos, deixavam paradas em paralelo ou segunda via, enquanto iam tratar dos seus afazeres profissionais. Aquele gesto de alguns dos automobilistas valia mais do que a gorjeta deixada, porque pressupunha uma confiança depositada nele. Nasciam algumas amizades naquele quotidiano, até porque ele era “educado e bem-falante”. Tinha até adotado um cão que teria sido “expulso” de casa, como ele, e apareceu nas proximidades dos contentores de restos de alimentos. Passou a ter companhia nas noites onde dormiam nos cantos da estação de gente sempre apressada que nem olhavam ou eram indiferentes àquele cenário de pobreza humana.

Diz o povo que – “não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe” – e, de facto, aquele “emprego de arrumador” que lhe garantia algum dinheiro, mesmo que insuficiente para deixar o estatuto de “sem-abrigo”, iria acabar naquela praça, porque iriam ser instalados parquímetros pela empresa municipal. Teria de encontrar um novo local de estacionamentos, onde os arrumadores se digladiam à procura da “moedita” (“arrumadora mata concorrente à facada” – noticiava, há tempos, a imprensa, pois o álcool e o consumo de drogas levam-nos a estes extremos), ou mudar de vida. Mas, como mudar, sem casa e sem dinheiro? Talvez uma” fada madrinha” o pudesse ajudar, pensava ele, já bastante castigado pelos erros que cometeu e o expulsaram duma vida normal com um lar.

 Ela, uma mulher na casa dos quarenta anos e com aspeto de executiva, era uma das suas “freguesas” que lhe confiava as chaves do automóvel “topo de gama” e, generosamente, o gratificava, bem como lhe transmitia palavras de encorajamento. Ainda mais quando ele passou a ter por companhia o seu “fiel amigo” e, palava puxa palavra, é sabido que um cão aproxima e quebra o gelo mesmo entre desconhecidos, a confiança foi criando raízes. Ela ficou a conhecer a “estória de vida” daquele homem e, certo dia, perguntou-lhe se ele poderia e quereria passar a levar os seus dois cães de estimação, de raça “topo de gama”, como convém na ostentação, a passear, duas vezes por dia, pois os seus afazeres profissionais, e sendo ela celibatária, por opção, daí os seus dois “filhos caninos”, complicava os seus horários. Confiava nele e acertaram os pormenores e o valor da gratificação ou serviço prestado e ofereceu-lhe ainda e duma forma gratuita, uma pequena divisão externa e autónoma, construída para ser ocupada pelo jardineiro que acabou por nunca ter, da sua vivenda, para que ele deixasse de ser um “sem-abrigo”. Sairia ele ainda a tempo dessa vida que marca, definitivamente, quem nela cai, por erros seus ou vicissitudes deste sistema socioeconómico no qual quase todos somos dependentes frágeis e, sem suportes familiares, para ela poderemos ser arrastados.

Disse-lhe ela, muito interessada nas exigências de “mãe” dos caninos, que ele passaria a ser um passeador de cães e, mais fino, na terminologia anglo-saxónica que transmite outro status (“um Dog Walker”) ou um cuidador (um “Pet Sitter”) e que o iria ajudar a angariar outras clientes, pois havia, no seu bairro da classe média alta, muita gente com as mesmas dificuldades dela. Iria usar a sua influência e conhecimentos pessoais, muitos deles travados através dos “passeios caninos” no jardim e parques da zona, e com o seu aval, assente na confiança que nele depositava, muitas “mães” dos seus “filhos”, são cada vez mais os termos dos humanos usados nos animais de estimação, iriam aderir, podendo ele, deste modo, angariar um rendimento diário e mensal que lhe permitisse levantar a cabeça e voltar a ter uma vida digna. Ademais, ser um “Dog Walker” ou “Pet Sitter” é a uma profissão na moda, porque esta vida moderna de “gente fina” vai criando empregos em serviços que preferem pagar a fazerem eles. Se nesta área o trabalho é feito apeado, outros é motorizada ou em bicicletas, como, por exemplo, da “Uber Eats” e empresas afins. Tempos modernos que gera “novos escravos” como antes eram aquelas(es) de muitas profissões já inexistentes, mas outras ressuscitadas. A nova profissão do “nosso homem” é moderna e não é apenas para jovens.
Para mudar de vida nunca é (poderá ser) tarde, embora para os milhares dos sem-abrigo que “vivem” nas cidades, as esmolas de caridade, muitas vezes caridadezinha, mais em períodos festivos ou vagas de frio ou calor, são como que aspirinas para a sua “doença” que, obviamente, não sara essa chaga. Eles são o fracasso das sociedades modernas, onde o homem é livre para “viver” pior do que os milhões de animais de estimação que habitam nas famílias (cerca de sete em cada dez portugueses- 69% – considera que o seu animal de estimação é já um elemento fundamental da família). Triste, muito triste a vida dos deserdados das sociedades modernas e ricas, materialmente, mas pobres em valores humanos.

P.S – Esta é uma “estória” ficcionada por mim, pelo que quaisquer semelhanças é pura coincidência.

Serafim Marques – Economista (Reformado)

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