Crónicas de Lisboa

Eu, Quem Sou?

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Eu, pronome pessoal, da primeira pessoa do singular mas que representa, contudo, tantos “eus” que é, por isso, imensamente plural:

O “eu” que é (só) nosso e que não partilhamos com outros, mesmo com os mais íntimos, porque muito da vida que eu ainda quero viver existe, essencialmente, nos meus sonhos e a minha meta é ser feliz e não perfeito;

O “eu” que julgamos ser, de acordo com os nossos valores e referências. Mas sou o que eu vejo, porque somos o que sabemos e o que estamos dispostos a aprender; sei que eu não sou a melhor pessoa do mundo, mas pelo menos não finjo ser quem não sou;

O “eu” que aparentamos ser, tentando esconder o nosso “eu” intimista;

O “eu” que queremos ser, visando objectivos individualistas; Sigo procurando quem eu sou e sei que sou o que quero ser, porque sou ser humano e que o meu “eu” me permite ser;

O “eu” que deveríamos ser, para que o nosso contributo pessoal beneficiasse outros “eus”;

O “eu” que os outros querem que sejamos, como que limitando a liberdade do nosso “eu” mais egoísta; O que os outros pensam sobre mim não vai mudar quem eu sou, porque ninguém tem o direito de me julgar a não ser eu mesmo;

O “eu” pelo qual nos tomam, a partir de certos preconceitos ou de ideias-feitas e que podem mudar o meu conceito sobre o “eu” dos outros que me julgam;

O “eu” que nós não conhecemos, porque não sabemos ou não queremos olharmo-nos ao espelho, preferindo cultivar um certo narcisismo; afinal, seria tanto o que poderíamos aprender com os outros, se tivéssemos a mente aberta.

O “eu” que os outros conhecem e nós não, porque egocêntricos, tentamos escondermo-nos numa carapaça que, apesar de tudo, é visível pelos outros;

Contudo, sou o que eu vejo e sinto e não tento ser o que os outros querem que eu seja; simplesmente sou o que eu sou;

Sou também o meu “eu” da criança que existe dentro de mim, apesar das muitas voltas da vida dum tempo que já passou e se aproxima do fim;

Sou o “eu” do presente, o “eu” do depois e de tudo o que já fui antes, mas, o que de facto importa é o “eu” que, verdadeiramente, sou, porque eu sou para cada pessoa aquilo que ela acha que eu sou;

Mas este meu “eu”, que para mim é mais importante, é o “eu” que eu procuro ser e isso eu ainda não sei, nem sei se algum dia saberei quem sou. Sei que o que somos hoje e o que seremos amanhã depende das nossas atitudes; Se procedo mal, sofro as consequências e se procedo bem, o meu “eu” mesmo se purifica, enriquecendo-se.

Este “eu” que nos confunde e, por vezes, nos deixa perdidos neste mundo de tantos “eus”;

Este “eu” que também é dos outros, principalmente daqueles com os quais nos relacionamos e interagimos;

Este “eu” que incomoda os outros, gerando, por vezes, ciúme, inveja, ódios, raiva e violência;

Este “eu” inquieto e lutador, neste mundo tão desigual e tão violento, com um “eu” confuso do inconfundível e do medo do impossível. Mas sou o “eu” de mim mesmo, o dono das minhas ideias;

Este “eu” sofrido, mas corajoso e resistente à dor, buscando no exemplo do sofrimento dos outros a coragem e a resistência, quando as forças parecem já faltar;

Este “eu” que ama os outros e, sem narcisismo, se ama também a si próprio; um “eu” que se revê na ternura das crianças e na paz dos idosos e da natureza, nas suas diversas formas, mas um “eu” que se revolta pela onda destruidora em que vivemos.

Por muito tempo fui tudo o que pude e agora procuro ser tudo o que quero (…)”

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