Cultura Portuguesa: Exemplo de autenticidade

No ano de 2020 foram escolhidas as 7 Maravilhas da Cultura Popular em Portugal

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Fruto do desenvolvimento social e cultural, e ao contrário de muitos países que se renderam às maravilhas da globalização, resultando na indiferenciação e quebra de autenticidade, Portugal afirma-se hoje pelos seus valores únicos e pela dimensão da sua multiculturalidade, onde a expressão da sua autenticidade se encontra em cada aldeia, vila ou cidade.

Das muitas razões que explicam porque Portugal está hoje na moda, uma das mais marcantes é seguramente a sua base cultural e a importância da sua cultura popular. Foi devido à manutenção e a afirmação inequívoca desta autenticidade, com manifestações em múltiplas categorias culturais, que em 2020 foram escolhidas as 7 Maravilhas da Cultura Popular.

 

Bailinho da Madeira – Calheta, Madeira

Nos quatro cantos do mundo, o Bailinho da Madeira é conhecido devido à vasta comunidade emigrante, bem como ao número peculiar de turistas que visitam, anualmente, a Região. Desde os hotéis, às ruas, do sul ao norte e em todos os cantos da Ilha, é possível ouvir o Bailinho da Madeira, sendo este considerado Património Musical e Imaterial.

O que muitos não sabem é que a génese da música e letra do Bailinho da Madeira foi criada no concelho da Calheta. O seu autor foi o poeta popular, João Gomes de Sousa, popularmente mais conhecido como o “Feiticeiro da Calheta”, uma figura icónica no concelho, sendo acima de tudo um sábio popular que, pelos seus dizeres e cantares, se tornou uma referência para a comunidade. Através da poesia popular criada muitas vezes pelo método repentista, cantada em desafio ou despique, tecia apreciações analíticas ou denunciadoras consideradas certeiras sobre temas antropológicos, de moral social e individual, acontecimentos históricos, comportamentos, problemas sociopolíticos e religiosos, até mesmo sobre temas teológicos e culturais diversos.

Em 1938, o Feiticeiro da Calheta vai à cidade do Funchal com o Rancho Folclórico do Arco da Calheta para participar na primeira Festa das Vindimas, sendo uma festa popular, onde houve um concurso de Ranchos Folclóricos. É neste evento que toca e canta, pela primeira vez, o Bailinho da Madeira e ganha o primeiro prémio. Desde então, o tradicional Bailinho da Madeira move massas, anima arraiais de forma sublime e está presente nos acontecimentos mais importantes da época ao nível local, regional, nacional e internacional.

 

Colete Encarnado – Lisboa, Vila Franca de Xira

O Colete Encarnado é a maior festa de Vila Franca de Xira e uma das maiores festas regionais do Ribatejo. Realizou-se pela primeira vez em 1932 e o seu mentor foi o grande agrário José Van-Zeller Pereira Palha, figura preponderante de Vila Franca tendo sido seu presidente de Câmara. O Colete Encarnado realiza-se sempre no primeiro fim-de-semana de Julho e tem como primordial figura o Campino, figura ímpar da lezíria ribatejana, que anualmente é homenageado com a entrega, pelo Presidente da Câmara, do Pampilho de Honra a um campino escolhido entre os seus pares. O Colete Encarnado vive, entre outras coisas, das esperas e largadas de touros nas ruas, da Homenagem ao Campino, da noite da sardinha assada, do convívio nas tertúlias e dos concertos pelos palcos espalhados pela cidade.

É uma festa que dura três dias, composta por largadas de toiros em algumas ruas da cidade (Rua Joaquim Pedro Monteiro, Rua Serpa Pinto, Rua 1º de Dezembro, Largo 5 de Outubro e Praça de Toiros Palha Blanco), por festas nas Tertúlias, por concertos em diversos pontos da cidade (Av Pedro Victor, Largo da Misericórdia, Mercado Municipal, Mártir Santo, etc) que promovem um são convívio entre os seus habitantes e os milhares de veraneantes que visitam Vila Franca por esta altura. Tipicamente o programa inclui também uma Missa Rociera (6ª feira), um concerto pela Banda do Ateneu Artístico Vilafranquense (Sábado), Concentração de barcos tradicionais, entrega do Pampilho de Honra, desfile de campinos, charretes e carros alegóricos das Tertúlias e associações Realizam-se também na Praça de Toiros Palha Blanco duas Corridas de Toiros e uma Garraiada da Sardinha Assada (2:00 AM de Domingo).

A festa termina no domingo com concertos e fados, tendo por epílogo às 24h00 de domingo com um fogo de artificio, com acompanhamento musical. Este espectáculo ocorre junto à marina de Vila Franca de Xira, de onde se vislumbra uma fantástica vista sobre o rio Tejo e ponte Marechal Carmona que une Vila Franca de Xira à margem sul do rio.

Criptojudaísmo de Belmonte – Castelo Branco, Belmonte

Belmonte, terra de tolerância e diferentes credos! Após o édito de expulsão de D. Manuel e o estabelecimento da Inquisição, na Vila continuou a viver uma comunidade judaica em segredo até à sua “descoberta” no início do século XX, mas em total conivência com a restante população.

Estes Filhos de Israel isolados de restantes comunidades e em segredo mantiveram os costumes principais do Judaísmo até ao presente, subsistindo numa comunidade fechada, havendo muitos casamentos entre eles, na qual as mulheres se encarregaram da preservação, manutenção e passagem das tradições, sem sinagoga, com recurso a poucos livros e objetos sagrados, sendo sobretudo através da via oral.

Isto originou que se perdesse o uso do hebraico e muitos dos ritos religiosos, mas a base religiosa do judaísmo foi mantida. Estes judeus são chamados de criptojudeus ou “marranos” numa alusão à proibição ritual de comer carne de porco. Estes continuavam com o hábito de acender uma vela na sexta ao pôr do sol, mas em potes de barro, guardavam o sábado (Shabbat), tinham casamentos e funerais cristãos, mas também os celebravam em casa segundo a sua religião. Mais de 500 anos em contacto com o catolicismo originou também que muitas das suas orações se misturassem, sendo a referência a santos, um exemplo dessa mistura.

Desde 1989, altura em que se fundou a Comunidade Judaica de Belmonte que estes se encontram em processo de retorno ao judaísmo primitivo, têm sinagoga, rabino, cemitério, mas séculos de convivência em segredo não se apagam facilmente, em Belmonte ainda se sentem criptojudeus! Por isso candidatamos a comunidade criptojudaica de Belmonte, porque esta é uma marca intemporal, histórica e identitária de Belmonte, que enfrentaram séculos na perpetuação da sua religião, pelo orgulho de ser judeus.

Em certas povoações de Trás-os-Montes e Beira Interior, comunidades judaicas praticam secretamente a religião «marrânica» convencidas de que seguem o judaísmo na sua forma ortodoxa. Mas é em Belmonte que se situa o centro mais importante do criptojudaísmo actual em Portugal. A comunidade de Belmonte é aquela que conserva mais viva as práticas, usos e costumes da religião judaica, onde os seus membros são mais unidos, e onde mais facilmente se diferenciam da restante.

Não são raras as vezes que Belmonte é chamada a “terra dos judeus”, motivo que enche de orgulho toda uma comunidade. Desde 2005 que em Belmonte existe o Museu Judaico de Belmonte, como forma de homenagear os criptojudeus da Vila, sendo este visitado por visitantes de todo o Mundo.

 

Festas em Honra de Nossa Sra. dos Remédios – Viseu, Lamego

A Romaria da Senhora dos Remédios de Lamego é um excesso de festividade, multidão e simbologia, que cruza uma matriz citadina e rural, atestando que Lamego é um património vivo, uma cidade monumento e nobre que, setembro após setembro, abre as suas engalanadas portas de par em par, para receber milhares de romeiros e peregrinos durante os seus dias de festa, projetando a devoção, o sentido e a identidade do povo lamecense, muito para além das muralhas do seu Castelo.

De origem medieval, as Festas em Honra de Nossa Senhora dos Remédios têm a sua génese no ritual religioso e nas peregrinações ou romarias que, então, se impunham e preenchiam toda a vida quotidiana das terras lamecenses. Incrementadas aquando da construção do novo Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, concluído em 1761, desde logo muito concorrido por multidões, novenas e romagens processionais à Virgem dos Remédios, as festas contribuem decisivamente para a conquista de uma verdadeira dimensão de Romaria, intensa e extensa, das Festas da Cidade, num desmedido e sentido abraço entre a comoção profana e religiosa.

Hoje, o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, o seu imponente escadório e o tonificante manto de verdura que envolve este compósito arquitetural e paisagístico, obra monumental que faz a honra e o orgulho da ilustre cidade de Lamego, fazendo esquecer, por breves segundos, qualquer álbum do melhor património monumental da Humanidade. Este projeta não somente a Romaria e as Festas em Honra de Nossa Senhora dos Remédios no país e no mundo, mas também a identidade, o sentir e o património cultural lamecense.

E assim, ano após ano, Lamego veste-se e engalana-se para a Festa. Um mar de gente desagua numa Romaria viva e participada, onde confluem tradições seculares da mítica cidade das Primeiras Cortes de Portugal. Cria-se assim, uma ambiência festiva, humana e singular. Seja no Arraial quando vagueia uma multidão pela noitada de Lamego, na Novena quando se gera multidão em madrugadas de fé, quando se lança o seu famoso fogo-de-artifício, que pincela e rasga os céus num pranto de cor e vivas à Nossa Senhora dos Remédios, quando se aprecia a “iluminação”, que orgulha e exalta os festejos, quando se comercializa na feira franca, ou se dança e canta ao desafio, ou se presencia o cortejo etnográfico, ou a afamada “Batalha de Flores” e a imponente “Marcha Luminosa”, que arregalam espíritos e desejos, ou se enfrentam os célebres cabeçudos, que afastam os maus espíritos nas suas arruadas, com o ruído avassalador do ressoar dos bombos, ou ainda quando se vive a original, iconográfica e singular “Procissão de Triunfo”, que marca por inteiro a Romaria de Lamego.

É, pois, numa eloquente manifestação cenográfica e religiosa, carregada de simbolismo, espiritualidade e devoção, que a Virgem Maria percorre, no dia 8 de setembro, à tarde, num ambiente de oração e canto, as ruas do velho burgo lamecense, enchendo de silêncio a alma de milhares de visitantes em peregrinação. Impondo-se, igualmente, pela sua tradição secular na autorização pontifícia para usar junta de bois no transporte dos andores e da famosa “barca da Senhora Bela”, em tributo e homenagem ao trabalho e suor das gentes de Lamego.

Então, entre grande bulício e olhares de devoção, milhares de romeiros inundam e procuram entrar no sumptuoso e ornamentado Santuário, ajoelhando e orando à Senhora dos Remédios, recolhendo-se por efémeros momentos no seguro abrigo do seu manto azul e, esquecendo o ruído das preces daqueles que com eles lentamente e em sentida romagem superaram os 925 degraus do imponente escadório da colina de Santo Estevão. Numa espécie de ritual de ascensão e descensão, que certifica a conquista de saúde e vida, prometem à Nossa Senhora dos Remédios regressar mais um ano à cidade de Lamego e à Romaria de Portugal.

 

Os Santeiros de São Mamede do Coronado – Porto, Trofa

Os Santeiros de São Mamede do Coronado, Trofa, são hoje um marco importante da valorização do património cultural, material e imaterial, associado à produção de “imaginária religiosa” em Portugal. Desde o séc. XIX que existem no Vale do Coronado, famílias de artífices que produzem imagens religiosas em madeira. No entanto, foi em 1920, a partir desta freguesia, que a produção de imaginária religiosa iniciou um novo ciclo em Portugal. Nesse ano, o mestre José Ferreira Thedim (1891-1971), descendente de uma família com tradição na arte, executou a imagem da Capelinha das Aparições, no Santuário de Fátima.

Esta obra, hoje uma das mais famosas do mundo, teve grande aceitação entre os crentes e gerou um novo tema iconográfico que, mesmo antes da aprovação das aparições pelas autoridades eclesiásticas em 1930, já estava difundido por todo o país.

Concedido o culto da imagem nas igrejas, deu-se um aumento de encomendas à oficina Thedim. Já na segunda metade da década de 1940, este mestre realizou duas novas imagens da iconografia mariana de Fátima, a Virgem Peregrina e o Imaculado Coração de Maria, ambas sustentadas nas elucidações da irmã Lúcia, com quem privou para o efeito.

Tal como os Thedim, na localidade existiam outras famílias antigas de imaginários que, oportunamente se adaptaram ao novo mercado dos devotos da Cova da Iria. Os seus espaços oficinais eram também oficinas-escola, onde o saber-fazer se transmitia entre as diversas gerações de aprendizes. A partir daqui, até à década de 1970, proliferaram várias pequenas e médias oficinas com fins bastante diferentes, realizando um repertório vasto de imaginária em diversos materiais. Além de José Ferreira Thedim, algumas também cresceram e atingiram dimensão considerável. São os casos das oficinas de Avelino Vinhas (1912-2005), Crispim Monteiro (1914-1977) e Francisco da Silva Ferreira (1910-1995).

Outros artífices mantiveram-se numa escala mais reduzida, contudo não deixaram de elaborar peças com um nível de execução elevado. Inclusive, alguns especializaram-se em tipologias de trabalhos, como são exemplo as imagens de Cristo Crucificado e de São Sebastião, em que se pormenorizavam os detalhes do corpo humano. Houve também os que trabalharam matérias-primas específicas, como o marfim e o mármore, diferenciando-se daqueles que talhavam a madeira, o material mais comum.

Nessa época, São Mamede do Coronado assumiu-se como o principal centro de produção da imaginária em Portugal. Depois dos anos setenta, as encomendas abrandaram e muitas oficinas encerraram. Na atualidade, estes profissionais trabalham isoladamente, na sua maioria, em casa.

Empenhada na preservação deste saber-fazer, a Câmara Municipal da Trofa publicou em 2017, o livro “A produção de Arte Sacra do Vale do Coronado” e adquiriu as coleções da oficina Stúdio Nossa Senhora de Fátima e do autor da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, José Ferreira Thedim. Este trabalho tem sido fundamental para a preservação desta memória coletiva, já inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Romaria de S. Bartolomeu – Viana do Castelo, Ponte da Barca

Numa perfeita simbiose entre o sagrado e o profano, a Romaria de S. Bartolomeu, que acontece todos os anos entre os dias 19 e 24 de Agosto, assume-se como um convívio de gente alegre que vibra com a sua festa e que nela tem orgulho! A Romaria de S. Bartolomeu é por si só um verdadeiro cartaz de promoção do concelho de Ponte da Barca e uma montra da sua dinâmica associativa. Esta Romaria é de todos e para todos, “dos de cá, dos que não estão cá e dos que são de fora”! É sobejamente conhecida no Norte de Portugal pela sua genuinidade e da gente que nelas participam!

De 19 a 24 de Agosto, a vila de Ponte da Barca não dorme: são cinco dias consecutivos em que se vive de dia e de noite! O programa é concorrido! Os três primeiros dias iniciam-se com um festival de música com os grupos folclóricos do concelho; passa pelo Concurso do Melão Casca-de-Carvalho e pela festa da rádio local (Rádio Barca); decorre a Gincana de Bicicletas e o jogo da Malha; compete a magnífica Corrida de Cavalos; encanta a Noite de Cantares ao Desafio! No dia 23 de Agosto, fervilha já a vila: o dia desperta com a alvorada com salva de morteiros e Grupos de Zés Pereiras e a missa matinal; decorre a Feira do Linho e o Concurso Pecuário e o incrível Cortejo Etnográfico, executado e participado por todas as freguesias do concelho de Ponte da Barca!

Sendo Ponte da Barca, a Capital das Rusgas Populares, a Romaria de S. Bartolomeu é marcada pela famosa e musical noite de 23 para 24 de Agosto, onde a população local e os visitantes formam rusgas populares que animam as ruas da vila durante madrugada fora! O som inebriante das concertinas, o estalar das castanholas, as luzes das iluminações, a riqueza da ourivesaria da filigrana, as cores vistosas das camisas bordadas e dos lenços minhotos, tudo relembra o secular mote de que na noite de S. Bartolomeu, “ O diabo anda à solta!” e que toda a diversão é permitida! Do cair da noite à aurora, o Largo do Urca recebe uma magnânima “roda”, que rodopia, rodopia, rodopia, numa maravilhosa cadência, composta por todos os que amam dançar e nela querem participar!

Novos e velhos, homens e mulheres, os “de cá” e os “de fora”, todos se animam e convivem, porque o S. Bartolomeu de Ponte da Barca é uma festa de amigos, uma festa de encontros, e na noite de 23 de Agosto, não há lugar para inimizades, para discussões ou conflitos! Todos brindam e conversam e dançam!

Uma escapada rápida para casa, uma ida fugaz à cama, para recuperar! Já é manhã do dia 24 de Agosto e há que descansar para a Majestosa Procissão a S. Bartolomeu! A folia já passou e há que honrar o Santo! A população participa em peso na procissão que percorre as ruas de Ponte da Barca! A Romaria só termina à meia-noite, aquando do “fogo do rio”!

Qual o dia mais alegre em Ponte da Barca? Dizem os barquenses: “O 19 de Agosto! Quando se acendem as luzes, as decorações! Quando começa a Festa!”. E qual o dia mais triste? “Ahhh… o dia mais triste.. o 25 de Agosto… é quando começa o Inverno…”

Romaria de S. João d’Arga – Caminha, Viana do Castelo

A Serra d’Arga representa uma cadeia montanhosa situada entre o rio Minho e Lima sendo o ponto de convergência dos concelhos de Caminha, Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo, Ponte de Lima e Paredes de Coura, constituída por rochas escarpadas desfrutando de uma panorâmica privilegiada sobre o curso final do rio Minho.

Local de excelentes pastagens, ao qual o seu nome se deve, constituída pelas três chãs ou agras: Arga de Cima, Arga de Baixo e Arga de São João. Nesta última é onde tem lugar a romaria de São João d’Arga, todos os anos nos dias 28 e 29 de agosto, no mosteiro e capela com o nome do seu patrono – São João Baptista.

Esta montanha possui um caráter genuíno e telúrico do modo de vida dos seus habitantes, hoje muito presente em momentos de festa – no colorido dos seus trajes e na alegria das danças e cantares tradicionais – cujo valor cultural é inequívoco.

A Romaria de São João d’Arga realiza-se anualmente, desde há vários séculos, no Santuário de São João d’Arga, local onde se encontra a capela com o mesmo nome.

Esta é conhecida, principalmente, pelas suas danças e cantares e pela beleza típica dos trajes coloridos das suas romeiras, caraterísticos do Alto Minho. Nela encontramos a riqueza das danças como o Vira, a Rosinha, o Malhão, a Góta da Serra d’Arga, a Cana-verde, a Tirana, etc., num encontro espontâneo de grupos de tocadores de concertinas, cantadores e dançarinos aos quais se juntam os romeiros no adro da capela.

Assistimos à chegada de grupos – as rusgas – oriundos do concelho de Caminha, dos concelhos vizinhos assim como de diversos pontos do país e da Galiza e que outrora percorriam caminhos da serra descalços. Juntam-se romeiros e peregrinos ao som de concertinas, cantando e dançando, onde não dispensam o merendeiro para prestar homenagem ao patrono de Arga de São João e dando início à caminhada na tarde de 28 de agosto.

No trajeto há uma paragem obrigatória junto do penedo dos namorados, onde os solteiros atiram uma pedra ao penedo e se ela lá ficar é sinal de que casará no ano seguinte. Chegados ao recinto da romaria, após um longo caminho, é ritual imprescindível dar três voltas à capela, a pé ou de joelhos, conforme a promessa feita, seguida pela entrada na capela para beijar o Santo e deixar duas esmolas, uma ao santo (São João Baptista) e outra ao diabo, uma tradição que muitos romeiros ainda mantêm.

A ladear a capela encontram-se os quartéis construídos para abrigo dos romeiros ou peregrinos que acorriam à festa cansados do bailarico que continua pela noite dentro.

Na parte inferior dos quartéis encontram-se instaladas as tascas que oferecem as iguarias confecionadas pelas mãos dos seus habitantes. Falamos do saboroso prato de sarapatel (confecionado com miúdos, tripas e bucho de cabrito), o cabrito à moda da Serra d’Arga, servido já por tradição no dia 27 de agosto e o arroz doce. No final rega-se tudo com ‘chiripiti’ (bebida de bagaço com mel extraído da serra).

A romaria tem início no dia 28 de manhã com as celebrações religiosas. Às 10 horas entra a banda de música no recinto, seguindo-se a eucaristia e sermão. À tarde a procissão segue, na frente o guião, ladeado por lanternas, as irmandades e respetivos pendões e os dois andores com fitas de seda e grinaldas. Primeiro o de Santo Aginha e depois o de São João Batista. Seguem-se os penitentes, os “amortalhados”, o pálio, as duas bandas e o povo.

Na noite de 28 para 29, assiste-se ao despique das bandas de música que, energicamente, tocam com alegria e euforia, interagindo com os romeiros que as acompanham cantando os mais diversos estilos musicais.

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