De comboio até ao Terreiro da Luta

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Do comboio que, durante 50 anos, subiu e desceu do Monte resta o nome da rua e três estações abandonadas.

Quem passa pela Estação do Pombal – hoje um prédio velho e fechado no início do Caminho de Ferro – não imagina que dali partiu o primeiro comboio numa tarde de Julho, faz agora 121 anos. A locomotiva saiu às quatro e demorou dez minutos até à estação da Levada de Santa Luzia.

O projecto idealizado por António Joaquim Marques recebeu luz verde da Câmara do Funchal em 1887, formando-se então a Companhia do Caminho de Ferro do Monte. Raoul Mensier de Ponsard, nome grande da engenharia portuguesa do século XIX ( construiu o elevador de Santa Justa em Lisboa ), foi convidado para desenhar e construir a linha e as estações.

A construção da linha – em cremalheira (o mais adequado aos comboios de montanha) – passou por várias mãos até à viagem inaugural, a 16 de Julho de 1893. Dois meses após a inauguração, a Companhia do Caminho de Ferro fixava a tabela de preços para as viagens: subida 100 reis; descida 50 reis.

A Madeira entrava na modernidade e os jornais anunciavam a melhoria nos transportes, sobretudo depois da extensão da linha até ao Monte, freguesia no alto do Funchal e onde custava a chegar. O comboio, composto por uma locomotiva e uma carruagem aberta,  fazia viagens diárias. E, como tinha vagões para carga, era muito usado para o transporte de mercadorias.

Num tempo em que se andava em carros de bois ou se descia do Monte em carrinhos de cestos, o comboio significava o máximo do conforto e da rapidez. Ainda nem se falava de carros, o primeiro automóvel só chegaria à ilha em 1904. Na verdade, foi necessário complementar o serviço com um outro: o ‘Americano’.

As fotografias da Rua do Aljube do princípio do século XX ainda mostram os carris deste percursor do eléctrico. O carro funcionava em carris, mas era puxado por cavalos. E era no ‘Americano’ que o turistas iam dar à Estação do Pombal para subir a ver as vistas do Monte. Nem todos, claro, muitos vinham para tratar a tuberculose.

O comboio parava numa estação, Quinta Santana, que dava acesso aos sanatórios, na zona onde hoje está o Hospital Dr. João de Almada. No fim do século XIX, os turistas, sobretudo alemães procuravam naqueles sanatórios para curar os males dos pulmões. A Imperatriz Isabel de Áustria, Sissi, tornara a Madeira famosa pelos seus bons ares.

Em 1910, a Companhia do Caminho de Ferro pediu autorização para estender a linha ferroviária até ao Terreiro da Luta. A obra foi inaugurada a 24 de Julho de 1912, na mesma ocasião que a estação e o restaurante panorâmico, tido como dos melhores do mundo. A época de ouro da Companhia estava, no entanto,  a chegar ao fim. A Grande Guerra de 1914-1918 fez subir os preços do carvão e mingar o número de turistas.

O acidente – a explosão da caldeira da locomotiva – a 10 de Setembro de 1919 seria mais um duro golpe no negócio, além de ter feito quatro mortos e muitos feridos entre os 56 passageiros que seguiam a bordo. A verdade é que há muito que se falava dos problemas técnicos dos comboios. Ainda assim, a linha reabriu no ano seguinte e manteve-se operacional até 1943. As peças foram usadas no elevador do Bom Jesus de Braga.

O golpe de misericórdia foi a II Guerra Mundial, que deixou a Madeira sem turistas, os hotéis fecharam e muitos só funcionaram para acolher refugiados de guerra britânicos. A verdade, no entanto, foi que os madeirenses e os turistas deixaram de usar o comboio por questões de segurança, sobretudo após o descarrilamento em 1932.

Em 2003, a Câmara do Funchal e empresa que gere o teleférico – Teleféricos da Madeira – decidiram avançar com a recuperação da linha, mas apenas entre o Monte e o Terreiro da Luta. O projecto incluía a recuperação das duas estações, classificadas como património municipal. A ideia era recriar o ambiente, com carruagens da época e funcionários fardados como no princípio do século XX.

A recuperação custava sete milhões de euros, a crise fechou as possibilidades de financiamento. As derrocadas do 20 de Fevereiro de 2010 acabaram por encarecer ainda mais o projecto. A empresa abandonou a ideia e a Câmara não tem dinheiro para fazer a obra. E o comboio continua a ser um nome de uma rua, três estações velhas e umas quantas fotografias a preto e branco.

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