Descontentamento e campanha intensa ditaram vitória do Chega no estrangeiro

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O investigador José Carlos Marques considera que o sentimento de abandono das comunidades portuguesas no estrangeiro e uma campanha “intensa e eficaz” por parte do Chega contribuíram para a eleição de dois deputados deste partido pela emigração.

O docente do Centro de Estudos de Sociologia da Universidade Nova de Lisboa e do Instituto Politécnico de Leiria disse à Lusa que ficou “surpreendido” com a eleição de dois deputados do Chega pelos emigrantes que tradicionalmente escolhem entre dois partidos: PS e PSD.

“Tem sido bastante difícil aos restantes partidos, até aos partidos com maior história parlamentar, conseguirem mobilizar os emigrantes para votarem nesses partidos”, afirmou.

“Foi surpreendente o facto de um partido relativamente recente conseguir fazer esta mobilização, que não foi conseguida no passado”, acrescentou.

“A inclinação do voto para um partido novo de extrema-direita é, de alguma forma, surpreendente, mas compreensível por duas ordens de razões: Primeiro, algum sentimento de abandono e menor atenção a que as comunidades portuguesas têm sido vetadas ao longo das décadas. Temos um secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Consulados e Embaixadas, mas provavelmente a sua ação não é muito eficaz nem muito bem percecionada pelos emigrantes portugueses”.

A outra razão apontada pelo investigador foi “a campanha muito intensa e muito eficaz que foi feita pelo partido que acabou por obter dois deputados, um pela Europa e outro por Fora da Europa”, incluindo “tecnologias de informação modernas, redes sociais, que têm uma grande capacidade de chegar a públicos dispersos no território”.

Sobre a forte votação no Chega pelos portugueses na Suíça, onde este partido foi o mais votado, obtendo 32,62% dos votos, José Carlos Marques acredita que estes cidadãos quiseram passar “alguma mensagem de descontentamento”.

“São territórios mais pequenos em termos de espaço, em que talvez tenha sido mais fácil mobilizar os eleitores”, disse, acrescentando que “nos territórios mais pequenos é mais fácil passar a mensagem e mobilizar eleitores para permitirem eleger um deputado”.

Na Suíça, prosseguiu, a comunidade portuguesa está concentrada nas regiões francófonas, onde fazendo campanha nessas zonas consegue-se, se os emigrantes votarem, um número bastante expressivo de votos”.

Em 2022, a Suíça foi o principal país de destino da emigração portuguesa, sendo este o segundo país do mundo com mais portugueses emigrados (204.000), logo a seguir à França.

José Carlos Marques recordou que “as alterações dos métodos de voto são uma exigência antiga da comunidade portuguesa no exterior”, para quem o atual processo é “muito arcaico”.

“O facto de quase metade dos votos [32,62%] terem sido anulados, deve-nos fazer refletir que se calhar é preciso pensar noutras formas de voto para as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, que já existem, é só preciso que não sejam possíveis de ser adulteradas”, disse.

E concluiu: “A democracia como um todo ganharia, pelo menos para as comunidades portuguesas no exterior, se fossem desenvolvidos métodos de eleição mais célere, como o voto eletrónico”.

Segundo os resultados definitivos das eleições legislativas de 10 de março no estrangeiro, o PS e o Chega obtiveram um deputado cada pelo círculo da Europa, enquanto a Aliança Democrática (AD) e o Chega obtiveram um deputado cada pelo círculo Fora da Europa.

A AD venceu estas eleições e o líder do PSD foi indigitado primeiro-ministro pelo Presidente da República. Luís Montenegro apresenta o seu Governo em 28 de março e a posse está prevista para 02 de abril.

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