Duas nações unidas pela música coral

A história do Orfeão da Universidade Central de Venezuela está directamente ligada a Portugal.

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Katherine Alcántara

O Orfeão da Universidade Central de Venezuela, mais conhecido como Orfeão Universitário, tem 70 anos de história. Criado em 1943, sob orientação de Antonio Estevez, este grupo, que concentra talentos jovens e apaixonados pela música, está directamente ligado a Portugal devido a uma tragédia.

Em 1976, o Orfeão viajou para a Europa, a fim de participar numa competição em Espanha, na altura sob a tutela de Vinicio Adames. Um total de 68 pessoas ia a bordo do avião, entre eles jovens do interior da Venezuela e alguns luso-descendentes. Os cantos animavam o voo, num Hércules C-130, um avião oferecido pelo Governo de Carlos Andrés Pérez. Lamentavelmente, duas tempestades assolavam a zona de costa das ilhas dos Açores. Uma mistura fatídica entre a pouca visibilidade do piloto devido às condições atmosféricas, ventos fortes e a ausência de uma encarregado na Torre de Controlo levaram à queda do avião, que caiu na ilha Terceira, uma das nove ilhas dos Açores, a 1333 quilómetros de Lisboa, onde todos os passageiros perderam a vida.

O pároco de Angra do Heroísmo, Francisco Dolores, saiu da sua casa depois de sentir o estrondo causado pela queda do avião, e viu o local do acidente, onde conseguiu recuperar o diapasão do director do Orfeão, instrumento que devolveu pessoalmente em Caracas, 20 anos depois.

A tragédia despertou o interesse dos habitantes de Angra do Heroísmo em conhecer mais acerca da Venezuela, e começou, na altura, a desenhar-se um centro de informação sobre o país. Esta cidade foi declarada Património Histórico da Humanidade pela Unesco, por partilhar a compaixão e a dor dos venezuelanos.

Este laço inquebrável mantém-se vivo passados 37 anos da tragédia. O Orfeão Universitário continuou a trabalhar continuamente e superou o trágico acidente, ainda que a dor pelas perdas continua vivo. Actualmente, Raúl López Moreno é director deste orfeão, que é o conjunto de música coral com mais anos de actividade ininterrupta do país, um maestro que sente um nexo profundo com a comunidade portuguesa, não só pela tragédia de 1976, mas também pela sua proximidade com os lusitanos, já que dirigiu o grupo coral da Missão Católica Portuguesa durante 10 anos.

O Orfeão Universitário conta também com a presença de Iliana Goncalves, luso- descendente apaixonada pelo canto coral e pelo fado. Isto reflecte como, apesar dos anos, a união dos países continua a fortalecer-se, e com aspectos culturais de ambos, pode formar-se um conjunto coral tão estável e próspero, para além desta mesma mistura, que o torna único no seu género.

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