Elio Quintal: O ‘manager’ mais experiente do futebol venezuelano

Cinco equipa fazem parte do currículo deste técnico luso-descendente

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O futebol venezuelano tem crescido paulatinamente nas últimas duas décadas. Mas tal não tem acontecido por mero acaso. Esta evolução é o fruto do trabalho responsável de muitas pessoas. E um delas é, sem margem para dúvidas, o luso-descendente Elio Quintal, actual gerente o Portuguesa FC, que já passou pelo Deportivo Portugués e pelo Marítimo da Venezuela. Quintal nasceu em Caracas, mais especificamente na paróquia La Candelaria, a 16 de Setembro de 1958. Cresceu em La Pastora, onde fez a Primária e o Secundário. O seus pais eram naturais da freguesia do Caniço, ilha da Madeira.

O seu primeiro trabalho foi num jornal periódico, e não precisamente como jornalista. “Como muitos sabem, sou descendente de madeirenses. Tinha um primo que era sacerdote, Manuel Nóbrega da Gama era o seu nome, e sabes que a igreja católica de lá mandava os seus padres buscar dinheiro aqui para construir uma igreja; ainda hoje é assim. Mas esse meu primo deixou de ser sacerdote e dedicou-se a ser empresário, tendo um dos seus primeiros investimentos fundar um jornal chamado “A Voz de Portugal”, que era uma publicação dirigida à colónia portuguesa”, explicou.

No referido jornal, o nosso entrevistado era uma espécie de ‘utility’. “Eu tinha, à época, uns 17 anos e convidou-me para trabalhar com ele. Naquela altura tudo era muito distinto e era um jornal que era publicado semanalmente. Vivia das subscrições, e as publicações era envidas para os assinantes cada semana. Era a nível nacional e o primeiro que fiz ali foi empacotar os jornais para os clubes, depois fazia a tipografia do jornal e montava a edição. Mais tarde aprendi a paginar com papel quadriculado, e até fui cobrador”, descreveu.

A chegada ao futebol, como o próprio descreve, foi uma coincidência. “Ele tinha muitas notícias de Portugal e da vida social dos clubes. Um dia disse-me para ir a um jogo do Deportivo Portugués e para lhe trazer informação sobre o mesmo. Então, fazia uma resenha, tirava fotos e assim estive um tempo. Nesse trabalho conheci toda a gente da colónia portuguesa ligada ao futebol. E nessa época havia muitas equipas da colónia portuguesa, em torneios distritais, na Associação de Miranda, que tinha muita vida”, comentou.

A sua entrada no Deportivo Portugués decorreu aos poucos. “Soube meter-me nesse mundo e, de uma ou outra forma, liguei-me ao Deportivo Portugués. Sempre o segui. Quando era criança não ia ao estádio mas seguia-o pela imprensa. Em finais da década de 1970, comecei a ter contacto com a equipa. E em 1982, a minha função lá já era outra. Inclusivamente até já viajava com a equipa”, contou.

A equipa da comunidade lusa estava apresentando problemas financeiros e passava por momentos complicados. “No ano de 1983, decorreram os Jogos Pan-americanos e estávamos sempre fazendo esforços para que a equipa não desaparecesse. Nesse tempo, a equipa competiu num torneio chamado “República de Venezuela”, que foi pós-pan-americanos. O Portugués conseguiu meter no plantel vários jogadores da selecção da Venezuela (Nelson Carrero, Bobbie Ellie, Franco Rizzi, entre outros). Ficámos em terceiros e o Táchira foi campeão. Eu estava muito ligado à parte operacional, era o delegado. Depois, em 1984, chegou uma junta directiva e o presidente chamava-se Rufino Ferreira, que era um comerciante que tinha um restaurante que se chamava “El Crack”. Eu mantive-me colaborando com a equipa, já me havia separado do “Voz de Portugal”, e era um coordenador da Liga de Futebol Profissional”, prosseguiu.

No ano seguinte, o desaparecimento era iminente. “O torneio de 1984 era longo porque começava em Janeiro e terminava em Novembro. Arrancámos bem mas não terminamos bem porque a direcção foi à sede da liga, entre Julho e Agosto, retirar a equipa. Disseram que não tinham as condições económicas para continuar, apesar de já se terem qualificado para o octogonal final. O técnico era Rafa Santana, estava um senhor que era dono de uma oficina em Bello Monte, que se chamava Los Gallos, e outros mais que assumiram a responsabilidade dos pagamentos. Os jogadores, antes de ficarem sem jogar, preferiram continuar jogando. Ficámos como uma cooperativa porque o que sobrava depois das viagens era dividido entre todos. Não havia força financeira para pagar os ordenados. O Deportivo Portugués foi retirado e esse foi o seu último campeonato. E eu comecei a trabalhar em “Inversiones Selva”, no departamento de ventas”, acrescentou.

O desaparecimento do Deportivo Portugués cedeu espaço para o aparecimento do Marítimo. Quando foi criado, os seus fundadores chamaram Quintal para formar parte do projecto. Depois de uma época de muitos sucessos e títulos, desapareceu após uma série de problemas administrativos e logísticos, em 1993. Quintal começou a trabalhar com a liga de futebol de salão. “Karim Assafo dirigia uma equipa dessa competição e havia trabalhado comigo no Marítimo. Era do ‘circuito radial’ e estava trabalhando em ‘Laboratorios Vargas’, como farmacêutico e chamou-me em 1998 para ir ao Caracas Fútbol Club”, comentou.

Depois de muitos anos de êxitos, saiu do Caracas em 2011. “Trouxeram um administrador para a equipa que começou a alterar a filosofia do clube, com o tema da formação e a cortar nas despesas. Somado a isso, a minha esposa ficou doente, faleceu e afastei-me um mês e meio da equipa. Depois fui operado, e quando regressei havia um ambiente ainda mais tenso e decidi ir embora”, observou.

O Deportivo Lara chamou-o para integrar a equipa no Clausura de 2012, tendo aqui permanecido até Maio de 2014, altura em que se mudou para o Portuguesa FC. Actualmente, como o próprio nota, tem vindo a separar-se pouco a pouco da colectividade ‘llanera’.

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