“Enquanto as pessoas continuarem a pagar, o crime vai proliferar”

Supervisor da Divisão Nacional Contra o Sequestro e Extorsão, comissário David Peña, alerta a comunidade portuguesa

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Joaquim recebe uma chamada no seu telemóvel. Não é de noite, nem menos fim de semana. É num dia de trabalho como muitos outros, mas a voz do outro lado do telemóvel assegura-lhe que tem em seu poder um dos seus três filhos, e que para o libertar, terá que pagar uma elevada quantia em dólares. Entre o choque sofrido com a notícia, a sua astúcia e a desconfiança que sente face às autoridades, o comerciante prefere reunir os lucros de quatro meses de trabalho no seu negócio para poder ver o seu filho de novo e com vida. Mas nem imagina que essa acção, que vai libertar o seu ente querido, vai financiar o sequestro de pelo menos outras cinco pessoas.

Joaquim existe, ainda que com outro nome, e o facto de ter pago o resgate poucas horas, converteu-se também num alvo fácil para os próximos meses. “Quando esse tipo de cosas ocorrem, os delinquentes sabem que podem voltar a sequestrar ou extorquir a alguém dessa família. Quando voltam a precisar de se financiarem, dentro três ou cinco meses, podem voltar a procura-los”, adianta o comissário David Peña, Supervisor da Divisão Nacional Contra o Sequestro e a Extorsão.

Tal como já ocorreu noutras oportunidades, os agentes da Comissão acederam conversar com o CORREIO sobre o crime que afecta muitos membros da comunidade lusa residente na Venezuela.

Um dos feitos mais recentes deste departamento da polícia científica prende-se com o resgate de um português, de 34 anos, Jonathan Goncalves, que esteve em cativeiro durante mais de dias.

Tratou-se de uma operação que os próprios agentes definem como de “alto nível”, dada a preparação evidenciada pelos raptores, mas que devido à perícia, paciência e empenho dos agentes que nela participaram, foi possível chegar à vítima e resgatá-la sã e salva.

Como prova guardam com zelo nos seus telemóveis os vídeos feitos no momento em que se encontraram com a vítima, no qual não só sorri a vítima – sem entender se ainda está sonhando ou se é a pura realidade aquela que está vivendo -, senão que se nota nos rostos dos agentes a satisfação de ter alcançado o objectivo da missão. O acto fica selado com umas fotografias, a recordação do momento em que a vítima volta a nascer para a vida.

“Lamentavelmente, a comunidade portuguesa é muito receosa quanto à denúncia, como outras comunidades estrangeiras, e preferem pagar sem saber que assim se expõem mais. Creio que há muito desconhecimento sobre o que nós, como Comissão Anti-Extorsão e Sequestro, podemos fazer, que trabalhamos para evitar que isto continue a ocorrer e o Inspector Jerónimo Fernandes, em muitos momentos, ajudou-nos a fazer entender à sua comunidade que pagar não era a única opção. O certo é que enquanto as pessoas continuarem a pagar, o crime vai proliferar”, destaca Peña, que foi um dos agentes venezuelanos que recebeu formação em Portugal.

“Entendo que exista desconfiança em relação às polícias venezuelanas, mas por causa de uns não se podem julgar todos por igual, e a prova disso é o grande número de casos resolvidos que temos e os testemunhos das pessoas, que acabam por se converter em nossos aliados para combater este delito. Devemos entender que por cada sequestro pago, estamos iniciando novos grupos criminosos. Hoje em dia, os delinquentes são mais jovens que há dez anos”, observa o comissário, que guarda no seu gabinete uma Virgem de Fátima e uma ampulheta do tempo.

A esta polícia também de deve o desmantelamento de um dos bandos mais perigosos da zona este de Caracas, cujo cabecilha utilizava o seu posto de trabalho numa conhecida padaria de Santa Paula para aproximar-se de possíveis vítimas; e a intercepção do responsável pelo maior número de sequestros na Venezuela, “El portugués”, que apesar de ter escapado da cadeia de máxima segurança onde cumpria pena por mais de cem sequestros, foi baleado mortalmente por um grupo policial depois de lançar granadas contra a sede de PoliBaruta de Las Mercedes.

Pena sem direito a processo
Cabe destacar que legislação recente sobre o delito de extorsão e sequestro suprime todos os benefícios processuais para quem venha a cometer este tipo de crimes, ao mesmo tempo que considera a omissão de denúncia como cumplicidade, sendo as comunidades estrangeiras as mais prejudicadas, pois no seu desconhecimento face a esta matéria, preferem pagar rápido antes que contactar as autoridades.

É importante ter em conta que a lei penaliza o sequestro e a extorsão com penas de 15 a 30 anos de prisão, sendo um dos quatro delitos mais cometidos no país, juntamente com o homicídio, o furto e o roubo de veículos, segundo dados do Ministério do Interior e Justiça.

“O desconhecimento é o nosso principal inimigo, o que nos separa dos afectados, porque que se não oferecemos respostas imediatas, isso não quer dizer que não estejamos a fazer o nosso trabalho. Pelo contrário, nós fomos formados como investigadores e essa é a nossa missão, chegar até às últimas consequências para resgatar a vítima, mas também para desarticular os grupos criminosos. Nós nunca estaremos de acordo com o pagamento dos sequestros porque essa é a forma com que se fortalecem as ‘bandas’. Mas também temos tido situações em que devemos de ser flexíveis e permitir, em certas ocasiões, que as famílias paguem pela libertação do refém”, diz.

Peña, que ressalta a importância de que nos centros sociais ou instituições comunitárias, sejam realizadas com frequência debates sobre o sequestro, com fim de alertar os cidadão sobre esta situação.

Outro dos grandes problemas com que se enfrentam estas divisões espalhadas por todo o país é o surgimento de novas ‘bandas’, dada facilidade em obter dinheiro e ficar impunes, o que se converteu no principal aliado dos delinquentes na hora de ameaçar as vítimas. “É lamentável esta realidade, porque também ocorre que estamos atrás do rasto de uma ‘banda’ por diversas denúncias, e por outro lado aparece uma família que não denuncia, paga e ajuda a que a banda se fortaleça. É compreensível que a família ante uma situação como esta não queira pensar em mais nada, mas pagar a bem e logo à primeira nunca deve ser a solução, porque vão-se passar duas coisas: uma que para nos devolverem o nosso familiar vão sequestrar um ou mais, e por outro lado, que podem dar-se de conta da nossa rapidez na resposta de pagamento, e convertem-nos numa caixa multibanco”.

Questão de nacionalidade
Com o tempo, os portugueses têm a aprendido que denunciar sempre será a melhor opção. No entanto, em certas oportunidades esquecem-se, e isso faz com que o nosso núcleo seja considerado chave na lista de vítimas, que está encabeçado pelos cidadãos asiáticos.

“A informação será sempre chave. Um sequestro parte um núcleo familiar, pela pressão que se enfrenta. A chave do sequestro centra-se no negociador, e lamentavelmente a ninguém a vida treina para enfrentar esta situação. E o delinquente vai pressionar através da ameaça. Ele não é mais que um vendedor, e está vendendo o familiar sequestrado. É aqui entramos nós, porque não só trabalhamos investigando, senão assessoramos o familiar que servirá de enlace para chegar o mais rápido possível à vítima”, concluiu o comissário.

Os únicos dados oficiais disponíveis sobre os crimes de extorsão e sequestros na Venezuela datam de um relatório anual de 2014 da Procuradoria, que registou 599 casos no ano passado.

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