Entre lendas e crenças populares

No imaginário português existem centenas de histórias que fazem rica à cultura lusa

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A história de Portugal está repleta de pequenas lendas, algumas mais fantasiosas que outras e algumas sobre as quais não se sabe ao certo se foram acontecimentos verídicos ou não. São às centenas as lendas portuguesas, contos, ditos e crenças populares que fazem da nossa cultura tão rica e interessante. No imaginário português, estarão sempre lendas relativas a milagres e a feitos heróicos, más também histórias de vingança, justiça, amores impossíveis, amores perfeitos e acontecimentos verídicos mas com toques de imaginação, provavelmente para aumentar a carga dramática ou heróica do realmente sucedeu.

Lenda do Galo de Barcelos

Há muitos anos, uma família de peregrinos galegos foi hospedar-se numa estalagem de Barcelos, levando consigo um saco cheio de farnel. Conta-se que os habitantes andavam alarmados com um roubo e o galego se tornou suspeito. As autoridades resolveram prendê-lo, apesar dos seus juramentos de inocência. No entanto, acabou sendo condenado à morte na forca. O homem pediu que o levassem à presença do juiz que o condenara, onde voltou a afirmar a sua inocência e, perante a incredulidade dos presentes, apontou para um galo assado que estava sobre a grande mesa junto de outras iguarias, exclamando: – «É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem!». O juiz empurrou o prato para o lado e ignorou o apelo. Pois o que parecia impossível aconteceu, quando o peregrino estava a ser enforcado, o galo assado ergueu-se na mesa e cantou perante o espanto de todos os que zombaram do pobre galego. Compreendendo o seu erro, o juiz correu para a forca descobrindo que o galego se salvara graças a um nó mal feito. Alguns anos mais tarde, o galego teria voltado a Barcelos para esculpir o Monumento do Senhor do Galo em louvor à Virgem Maria e a Santiago Maior. Desde então, o Galo de Barcelos passou a figura popular e foi-se espalhando, fortalecendo ao longo das décadas a tradição, imortalizado na arte não só da cidade de Barcelos, mas de todo Portugal.

Lenda da Mula da Rainha Santa

  1. Mafalda, filha preferida de D. Sancho I e irmã favorita de D. Afonso II, foi escolhida para mulher de D. Henrique, herdeiro do trono de Castela, que tinha apenas doze anos quando se tornou rei. D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar ainda antes da súbita morte do rei, aos 14 anos. D. Mafalda viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja, mas quis o destino que morresse em Rio Tinto, aos 90 anos. Conta a lenda que os habitantes sugeriram pôr-se o caixão em cima da mula de D. Mafalda: para onde ela se dirigisse seria o local da sepultura da “rainha”. Assim fizeram, a mula dirigiu-se para o Mosteiro de Arouca e morreu. O sepulcro de D. Mafalda foi por duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI designou-a com o título de beata.

Lenda da Senhora do Monte

Conta-se que no final do século XV, a cerca de 1 quilómetro acima de onde se situa a igreja de Nossa Senhora do Monte, na localidade do Terreiro da Luta, uma menina brincava durante a tarde com uma pastorinha. A pastorinha ofereceu uma merenda a esta menina. A pastorinha, muito satisfeita, contou o sucedido à sua família, que não acreditou na sua história, por ser improvável que naquela mata deserta e tão afastada da povoação aparecesse uma menina. No dia seguinte, à hora indicada pela pastorinha, o seu pai foi de modo oculto observar a cena. Foi quando viu sobre uma pedra uma pequena imagem de Maria Santíssima e, à sua frente, a inocente pastorinha que se apressou a dizer-lhe que era aquela imagem a menina de quem lhe falava. O pai, perplexo, não ousou tocar a imagem e comunicou o facto à autoridade, que mandou colocar a imagem na Capela da Encarnação, próxima da atual igreja de Nossa Senhora do Monte. Deu-se, desde então, este nome àquela venerada imagem

Lenda da Lagoa do Negro

Esta lenda conta a história de como a Lagoa do Negro, na ilha Terceira, apareceu. Conta-se que, há séculos, existia uma família nobre na Terceira, com escravos negros. A única filha do patriarca era submissa e receava o pai, e aceitou sem questionar um casamento imposto. A moça, presa num casamento por conveniência do pai, apaixonou-se por um escravo, que também a amava. Um dia, uma aia que seguia a morgada para todo o lado, escutou os apaixonados a falar do seu amor, e foi contar ao seu amo. Este, vexado e enraivecido, ordenou que se prendesse o escravo. O homem, ao ouvir cães de caça e cavalos ao longe, percebeu que o buscavam e pôs-se em fuga. Fugiu pelos montes e vales, até não mais conseguir correr, e deixou-se cair em desespero. Diz a lenda que o escravo começou a chorar tanto e com tanta tristeza, que as suas lágrimas fizeram nascer uma lagoa à sua frente. Assustado e encurralado, correu colina acima e atirou-se para a lagoa, onde morreu afogado.

Lenda do Milagre das Rosas

Conta a lenda que o rei D. Dinis foi informado sobre as ações de caridade da rainha D. Isabel e das despesas que implicavam para o tesouro real. Um dia, o rei decidiu surpreender a rainha numa das suas habituais caminhadas para distribuir esmolas e pão aos necessitados. Reparou que ela procurava disfarçar o que levava no regaço. D. Dinis perguntou à rainha onde ia e ela respondeu que se dirigia ao mosteiro para ornamentar os altares. Não satisfeito com a resposta, o rei mostrou curiosidade sobre o que ela levava no regaço. Após alguns momentos de atrapalhação, D. Isabel respondeu: «São rosas, meu senhor!». Desconfiado, o rei acusou-a de estar a mentir, uma vez que não era possível haver rosas em janeiro. Obrigou-a, então, a abrir o manto e revelar o que estava lá escondido. A rainha Isabel mostrou, perante os olhos espantados de todos, as belíssimas rosas que guardava no regaço. Por milagre, o pão que levava escondido tinha-se transformado em rosas. O rei ficou sem palavras e acabou por pedir perdão à rainha que prosseguiu com a sua intenção. A notícia do milagre correu a cidade de Coimbra e o povo proclamou santa a rainha Isabel de Portugal.

Lenda de D. Sebastião

No dia 4 de agosto de 1578, D. Sebastião liderou as tropas portuguesas no norte de Marrocos, disposto a aliviar a pressão dos mouros sobre as fortalezas portuguesas. Por causa da inexperiência do jovem rei, os portugueses sofreram grandes baixas, incluindo a do próprio monarca que, apesar de ter os seus restos mortais enterrados no Mosteiro dos Jerónimos, ainda permanece no imaginário popular como o “Rei Adormecido”, que regressará numa manhã de nevoeiro para livrar Portugal de todo o mal. Após o seu desaparecimento sem deixar herdeiros, iniciou-se uma delicada crise sucessória no país, abrindo espaço para Filipe II de Espanha governar. Portugal entra em luto mas, pouco tempo depois, este sentimento é transformado em esperança do reaparecimento do rei. A lenda persistiu, pois o seu corpo não havia sido encontrado, o que abriu um precedente para inúmeros burlões se apresentarem como D. Sebastião. Filipe II, disposto a encerrar de uma vez por todas este regresso miraculoso, apresentou um conjunto de restos mortais como sendo o “Encoberto”. Apesar disso, o povo português jamais deixou de levar no coração a esperança do retorno do Rei e a falta de provas quanto às ossadas pertencerem ao monarca só alimentou o mito do “Sebastianismo”. Para aqueles que acreditam que o rei sobreviveu a Alcácer-Quibir, D. Sebastião saiu da batalha acompanhado por Sebastião Figueira, que confirmou o facto e ainda acrescentou que o monarca reapareceu no ano de 1598 em Itália, onde foi mais tarde preso, com a cumplicidade dos espanhóis. O próprio Figueira na altura reconheceu-o em Veneza, na pessoa do Cavaleiro da Cruz, ou como “Dom Sebastião de Veneza”.

Lenda das lágrimas da Inês

Pedro era o filho do rei de Portugal, herdeiro do trono, e Inês uma aia que veio acompanhando a princesa espanhola D. Constança Manuel, futura esposa de Pedro. Mas, por acidente do destino, Pedro I e Inês de Castro acabam se apaixonando e iniciando um romance, dando início a um grande drama político. O rei não teve outra alternativa a não ser mandar exilar Inês no castelo de Albuquerque, na fronteira castelhana. Algum tempo depois D. Constança faleceu durante o parto e então, viúvo, Pedro fez com que Inês regressasse e foi viver com ela na Quinta das Lágrimas em Coimbra, causando um grande escândalo na corte. O pai de Pedro tentou de diversas maneiras separar o casal. Pressionado pela corte, o rei D. Afonso IV manda que executem Inês de Castro. Foi durante uma viagem de caça de D. Pedro que o assassinato aconteceu. Reza a lenda que foram as lágrimas derramadas por Inês durante a sua morte que deram origem à Fonte dos Amores, localizada nos fundos da Quinta das Lágrimas. Segundo a lenda, os fungos vermelhos no fundo da fonte, são o sangue da Inês. Algum tempo depois o próprio rei faleceu, tornando-se Pedro, então, o novo rei de Portugal. Em uma homenagem ao seu grande amor, mandou que desenterrassem Inês, que a vestissem com os trajes reais e a coroou rainha, obrigando que toda a corte beijasse a mão daquela que tanto desprezaram. Por isso a frase que até hoje persiste, pois diziam para ele: “Pedro, agora Inês é morta!”.

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