«O fado é como um filme»

Cantora Iliana Gonçalves surpreendeu o público do Colégio San Agustín ao mostrar um repertório repleto de música tradicional portuguesa e algumas adaptações de canções crioulas

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Oscar Sayago

No sábado 5 de maio, realizou-se um concerto inesquecível com uma das vozes mais tradicionais da língua portuguesa, na Escola San Agustín, localizada em El Paraíso, Caracas. Para comemorar o Dia Internacional da Língua Portuguesa, a fadista Iliana Gonçalves interpretou um dos seus repertórios mais populares.

Esta atividade foi levada a cabo graças à colaboração da Embaixada da República Portuguesa em Caracas, do Instituto Camões, do Mês de Europa, da Associação Venezuelana de Ensino da Língua Portuguesa (Avelp) e da Escola de San Agustín.

O evento teve lugar às 15h00, mas os convidados a começaram a se juntar fora do teatro antes do tempo, para receberem o cantor. A iniciativa começou com algumas palavras de convidados especiais, como Rainer Sousa, Coordenador do Ensino do Português Língua na Venezuela, sendo que assistiram ao mesmo Enrique de Sá, professor na Universidade Pedagógica Experimental Libertador (UPEL); e Nelida de Sousa, coordenadora do programa de ensino de Português no Colégio San Agustín.

No início, Sousa teve a honra de deixar algumas palavras no âmbito das comemorações do Dia Internacional da Língua Portuguesa. «Eu gostaria de agradecer a presença de todos, especialmente ao Colégio San Agustín, que nos deu a oportunidade de organizar esta iniciativa, assim como todas as personalidades e grupos de ensino». Nesta ocasião, Sousa destacou a importância da língua portuguesa em todo o mundo e, como esta tem tido impacto em diferentes países, uma vez que é a terceira língua mais falada no mundo ocidental e a sexta a nível mundial.

Ao finalizar, Rainer referiu que a cantora acabou a gravação de um projeto musical que presta homenagem a vários artistas, com interpretação de diferentes géneros como o musical, jazz e a bossa nova em várias línguas (alemão, inglês, francês e português).

Iliana Goncalves apareceu com outros três músicos crioulos. Luis González, músico, compositor e diretor musical que usou um bandolim de dez cordas para fazer fados, e Xavier Perri, que começou na área da música venezuelana com a harpa crioula e o ‘quatro’ . No final da apresentação dos três músicos, teve lugar a abertura formal do evento.

Quando a artista finalizou a sua primeira música do repertório, ela fez uma breve receção a toda a plateia. «Estamos a comemorar o Dia da Língua Portuguesa e tenho muito prazer em poder estar hoje com todos vós. Espero que possamos abraçar toda a cultura portuguesa hoje e aproveitá-la», afirmou o cantor.

Uma das canções no seu repertório foi «Rosa Blanca», uma composição dedicada a amantes que têm um fundo único, em que a cantora refere que cada mulher é especial e única à sua maneira. Num dos intervalos do espetáculo, a atriz chamou ao palco a Licenciada Sousa para interpretar uma poesia, uma vez que o espetáculo não consistia apenas em tocar fados mas também em inspiração em prosa.

A artista tocou uma música intitulada “Hay una música en el Pueblo” e assegura que não sabe se a raiz desta música é o fado, mas expressa que a razão pela qual a partilha é por causa da sensação que ela transmite: «eu vou cantá-la e canto-a de qualquer forma e sempre tem sentimento, no fim».

Para finalizar o seu concerto, cantou uma última música para homenagear a música venezuelana. Foi uma das canções mais representativas de Simón Díaz, um bolero com o nome de «Qué vale más».

 A intérprete lusodescendente deu ao CORREIO uma breve entrevista para saber mais sobre os seus projetos atuais e como ela viu o crescimento da língua portuguesa na Venezuela ao longo dos anos.

Dado que se formou em línguas modernas e também trabalha como professora, como viu o crescimento da língua portuguesa na Venezuela?

«Nalgum momento, cultural e social, o Português foi renegado, já que houve um êxodo em massa de pessoas, todo o mundo tinha um amigo “portu”, embora fosse o padeiro da esquina. Mas com a expansão do mundo e com a globalização, penso que os portugueses estão a ter um crescimento interessante, porque os jovens estão a interessar-se pela cultura, e não só na Venezuela, mas noutros países, e conseguiram que os portugueses tivessem uma reputação diferente».

 Pode nos falar sobre o processo da canção «September Song»?

«Isso fazia parte de um projeto, que atualmente tem o nome de «berlineando «, que é uma homenagem a dois expoentes da cultura alemã, como eram Bertolt Brecht, dramaturgo, e Kurt Weill, músico. Devido à minha ligação com o alemão, sempre tive contacto com a cultura e as expressões poéticas, como hoje, em que apresentamos um pouco de poesia em espanhol para aproximar as pessoas que não falam português. A produção dessa música está a cargo de Aquiles Báez, compositor venezuelano. O projeto está a ser desenvolvido por Freedy Adrian, que criou uma série de vídeos com solistas, e no caso de «September Song», que é uma canção de Maxwell Anderson com música de Kurt Weill, fizemos uma mistura desse projeto e estamos a fazer música em quatro línguas: inglês, francês, português e alemão».

Como foi a participação no seu concerto da UPEL em Maracay?

 «Foi um concerto incrível, como professora adoro ir a diferentes universidades já que é o lugar onde se pode mudar o pensamento, percebi que havia poucos lusodescendentes, mas a maioria dos venezuelanos que compareceram, e que não faziam ideia de que o fado foi um género de música portuguesa teve uma boa receção. O concerto daquele dia foi um pouco mais didático e o público ficou muito emocionado. Parece-me que há pouca atividade que pode ser levada para o interior do país, pelo que espero voltar a Maracay e visitar outras partes do país».

Gostaria de deixar uma mensagem em homenagem ao Dia Internacional da Língua Portuguesa?

 «Os preconceitos que podem existir antes de outra cultura são o resultado de não reconhecer que existe outro porque você existe. Sinto-me muito venezuelana, mas os meus pais são portugueses e me identifico como venezuelana porque sei que há outra parte de mim que também pertence a outro lugar. Qualquer língua deve sempre ter a possibilidade de descobrir outros segredos e aquelas maravilhas que estão escondidas, para que possamos descobrir como somos, porque é possível que haja outra pessoa igual ou diferente».

Iliana Gonçalves iniciou-se no mundo da música desde muito cedo, quando tinha oito anos começou a gostar de fado e começou a desenvolver a sua aptidão nos ateliers da Fundação Biggot, em Caracas. Começou a tocar bandolim e se interessou pelas aulas de dança tradicionais venezuelanas. Pertencia ao coro da sua escola e começou a estudar música no Conservatório de Música José Ángel Lamas. Aperfeiçoou-se na música folclórica madeirense, depois iniciou uma carreira na Universidade Central da Venezuela (UCV), em Línguas Modernas, onde se formou em Tradução, em 2007. Começou a criar fados aos 18 anos, com o seu professor Evaristo Vieira.

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