“Fortalecer os nossos costumes e ajudar quem mais precisa”

Ana Cristina Monteiro asegura que os venezuelanos que estão a chegar á Madeira trazem “uma história marcada pelo desespero, necessidade, incerteza”.

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AGOSTINHO SILVA

Ana Cristina Monteiro é a primeira presidente da VENECOM – Associação da Comunidade de Imigrantes Venezuelanos na Madeira. Em entrevista ao DIÁRIO revela ter já cerca de 30 pedidos de ajuda e que a associação vai apostar em eventos para angariação de fundos. O “sotaque venezuelano muito acentuado”, para quem já fala português e que está na origem de alguma discriminação de parte a parte, será alvo de uma atenção especial pela VENECOM.

O que é que mudou entre a comunidade luso-venezuelana, na Madeira, ao ponto de um grupo de 28 pessoas decidirem avançar para a criação de uma associação? Apercebemo-nos que os venezuelanos que estão a chegar e, que têm vindo a chegar desde há um ano, mostram um olhar diferente, trazendo consigo, na maioria dos casos, uma história marcada pelo desespero, necessidade, incerteza e desassossego.

Por isso, o nosso objectivo principal é a sua integração na Madeira, e para isso pretendemos informá-los sobre os seus direitos e deveres, bem como orientá-los, mediante o encaminhamento para as entidades próprias.

Adicionalmente, queremos fazê-los sentir que não estão sós, que aquelas pessoas que já passaram por isso e que estão cá, há algum tempo, possam transmitir as suas experiências; tudo no sentido da sua maior e melhor integração na Região.

Já vos chegaram casos de pessoas ou famílias em dificuldades. Quais são as carências principais? Sim, até a data contabilizamos uns 30 pedidos de apoio, as quais mostram carências de índole migratório, social e económico, principalmente.

A VENECOM está receptiva à colaboração e à entrada de madeirenses que não sejam luso-venezuelanos? A VENECOM está aberta a receber a colaboração de todas e qualquer pessoa que se sinta identificada com a causa e queira ajudar, que é a grande maioria.

Qual foi a reacção das autoridades venezuelanas, designadamente do Consulado da Venezuela no Funchal? Até agora, tivemos uma reunião com o Consulado Geral da Venezuela no Funchal, com o seu máximo representante, que se mostrou aberto e com total disponibilidade para contribuir para os fins da associação, quer a nível cultural, quer a nível da formação na língua castelhana.

A VENECOM será mais uma associação, como tantas outras já existentes na Madeira, que fica à espera de dinheiro do governo e outros organismos do Estado para custear as suas actividades? Como é que funcionará? Pretendemos obter fundos através de contributos de terceiros e da realização de alguns eventos e actividades de convívio e de lazer, organizados exclusivamente com fins solidários, os quais estão a ser programados e oportunamente serão publicitados.

A VENECOM pretende trazer para a Madeira o ‘modus operandi’ de muitas associações já existentes na Venezuela? São conhecidas pela sua dinâmica, pelas actividades de lazer e de convívio, mas sempre com o objectivo de arrecadar fundos para ajudar quem precisa… Sim, justamente. Pretendemos que, com as actividades que estamos a programar, possamos reunir os venezuelanos e luso-venezuelanos e proporcionar um espaço adequado para fortalecer os nossos costumes, realçar a nossa cultura, e ainda, sensibilizar as pessoas para oferecer ajuda a quem mais precisa.

A comunidade luso-venezuelana na Madeira parece estar um pouco à parte. Acha que é benéfica essa espécie de separação? Não se trata de uma separação, mas sim da promoção de actividades que permitam a integração da comunidade venezuelana e luso-venezuelana na Madeira, mediante a valorização de cada pessoa como indivíduos e da idiossincrasia venezuelana.

Os vossos estatutos falam na preservação da língua castelhana, ao mesmo nível do ensino ou aperfeiçoamento da língua portuguesa. Qual é o objectivo? Acha que o cada vez mais notado sotaque venezuelano, mesmo para quem fala português, continua a despertar reacções pouco razoáveis, certo? Com a preservação da língua castelhana, a nossa língua materna, procuramos que a nossa cultura e nossa identificação como venezuelanos, se mantenha intacta, assim como a vossa se mantem na Venezuela. Sendo ainda, uma mais-valia para as gerações nascidas em Portugal ou que imigraram muito jovens, o conhecimento de várias línguas.

Em relação ao ensino da língua portuguesa, consideramos que é essencial para a integração dos venezuelanos e luso-venezuelanos, em Portugal e, mais especificamente, no mercado laboral e social da Madeira. Quando falamos do aperfeiçoamento, referimo-nos aos casos em que a pessoa já fala português, mas com um sotaque venezuelano muito acentuado. Nestas situações, pretendemos ajudar no melhoramento da pronúncia e, assim evitar que possa ser um factor de discriminação no referido sector laboral e social.

VENECOM celebrou protocolo com Ordem dos Advogados

A Associação da Comunidade de Imigrantes Venezuelanos na Madeira (VENECOM), constituída no Funchal com o objectivo de prestar apoio a nível social, humanitário, cultural e jurídico, celebrou um protocolo com o Conselho Regional da Madeira da Ordem dos Advogados.

Segundo Ana Cristina Monteiro, uma das 28 sócias fundadoras da VENECOM, este protocolo tem por objectivo prestar apoio e orientar as pessoas que chegam da Venezuela.

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