Ler está na moda: Futebol entre letras

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O escritor português José Saramago, que ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1998, conhecia muito bem o poder do futebol: Durante um debate na Biblioteca Municipal de Oeiras, Lisboa, em 2006, comentou: «Mal andam as coisas se é necessário estimular a leitura, porque ninguém precisa de estimular o futebol, que tem uma fabulosa operação de propaganda.” Assim é o futebol, parte da vida de milhões de adeptos, inclusive entre os próprios escritores, como veremos mais adiante.

No último Mundial, foi rendido tributo a Saramago, através do uso de uma braçadeira negra no braço, e o seleccionador nacional Carlos Queiroz dedicou-lhe uma mensagem, por ter sido “uma referência da cultura portuguesa, um exemplo de jovialidade na busca permanente de pensar, reflectir e estimular o debate sobre a cultura, os valores e a ética da sociedade.” Acima das polémicas, “uniu as pessoas de Portugal na discussão sobre as grandes questões da vida.”

Há escritores que são fãs do futebol venezuelano, como Francisco Massiani ou Carlos Drummond de Andrade, grande poeta da literatura brasileira e parte da Geração de 30. Escreveu que “o futebol é um desses raros exemplos de arte corporal e mental que promove uma felicidade unânime, ainda que divida a massa consumidora em grupos antagónicos. Antagonismo formal, no fim de contas, pois a fusão íntima opera-se em torno da beleza do gesto, venha do corpo que vier (…). O difícil, o extraordinário, não é fazer mil golos, como Pelé. É fazer um golo como Pelé. Esse golo que gostaríamos tanto de fazer, mas, diabolicamente, não se deixa fazer.”

O escritor uruguaio Eduardo Galeano, vencedor do prémio Casa das Américas de 1975, afirmou que o futebol é “um símbolo poderoso, um assunto misterioso” e que “muita gente encontra no futebol o único espaço de identidade em que se reconhece (…). Nas Olimpíadas da Grécia, a selecção de futebol do Iraque, em plena guerra, venceu vários jogos, e chegou a disputar as semi-finais do torneio.”

Para o filósofo nascido na Argélia, Albert Camus, pai do Existencialismo e vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 1957, o futebol significava regressar às raízes. “Sim, joguei vários anos na Universidade de Argel. Parece que foi ontem. Mas quando, em 1940, voltei a calçar as botas, dei-me de conta de que não tinha sido ontem. Aprendi logo que a bola nunca vem quando esperamos que venha. Isso ajudou-me muito na vida (…). Depois de muitos anos em que o mundo me permitiu variadas experiências, o que mais sei, muito, acerca de moral e das obrigações dos homens, devo-o ao futebol, o que aprendi com o R.U.A não pode morrer. Preservemo-lo. Preservemos esta grande e digna imagem da nossa juventude.”

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