Ler está na moda: Herberto Helder de Oliveira

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Herberto Helder de Oliveira é um poeta português de ascendência judaica que nasceu no Funchal, a 23 de Novembro de 1930. Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e trabalhou em Lisboa como jornalista, bibliotecário, tradutor e até apresentador de programas de rádio. Em 1994 venceu o Prémio Pessoa, mas recusou-o. Os seus textos podem ser classificados na categoria do surrealismo tardio.

Escreveu «Os Passos em Volta», um livro que mediante contos aprofunda as dualidades do ser humano e o fenómeno da identidade; em «Photomaton e Vox” utiliza o ensaio e o poema como instrumentos de reflexão para os leitores, enquanto que em «Poesia Toda» cria uma antologia dos seus livros de poesia.

Para finalizar, ficam estes poemas de Herberto Helder de Oliveira, cujo primeiro pode ler-se em Ofício Cantante – Poesia Completa, e o segundo em Poesia Toda:

Quero um erro de gramática que refaça

 na metade luminosa o poema do mundo,

 e que Deus mantenha oculto na metade nocturna

 o erro do erro:

 alta voltagem do ouro,

 bafo no rosto.

 (Ofício Cantante – Poesia Completa,  Assírio & Alvim, 2009)

.Não sei como dizer-te que a minha voz te procura

e a atenção começa a florir, quando sucede a noite

esplêndida e casta.

Não sei o que dizer, especialmente quando os teus pulsos

se enchem de um brilho precioso

e tu estremeces como um pensamento chegado. Quando

iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado

pelo pressentir de um tempo distante,

e na terra crescida os homens entoam a vindima,

– eu não sei como dizer-te que cem ideias,

dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros

ao lado do espaço

o coração é uma semente inventada

em seu ascético escuro e em seu turbilhão de um dia,

tu arrebatas os caminhos da minha solidão

como se toda a minha casa ardesse pousada na noite.

– E então não sei o que dizer

junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.

Quando as crianças acordam nas luas espantadas

que às vezes caem no meio do tempo,

– não sei como dizer-te que a pureza,

dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo

os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto

correr do espaço –

e penso que vou dizer algo cheio de razão,

mas quando a sombra vai cair da curva sôfrega

dos meus lábios, sinto que me falta

um girassol, uma pedra, uma ave – qualquer

coisa extraordinária.

Porque não sei como dizer-te sem milagres

que dentro de mim é o sol, o fruto,

a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,

o amor,

que te procuram.

(Poesia Toda. Assírio & Alvim, 1996)

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