Identidade de ‘Little Portugal’ em risco de desaparecer

A zona entre as ruas Bathurst e Dufferin é conhecida desde os anos 1970 como 'Little Portugal', mas essa identidade está a pouco e pouco a perder-se

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É em 'Little Portugal' que os que procuram ou têm saudades de produtos portugueses saciam o desejo.

Em Toronto, na província canadiana de Ontário, a zona entre as ruas Bathurst e Dufferin é conhecida desde os anos 1970 como ‘Little Portugal’, mas essa identidade está a pouco e pouco a perder-se.

Fernando Abreu, 52 anos, um dos proprietários da Churrasqueira do Sardinha, localizada no 1130 da Dundas St W, mesmo no centro de ‘Little Portugal’, disse à agência Lusa que actualmente há menos portugueses do que se verificava «há uns anos atrás.

«Muitos mudaram-se para o norte de Toronto, e mais recentemente abriram alguns estabelecimentos canadianos e de outras nacionalidades aqui no ‘Little Portugal’, mas a Dundas continua a ser o nosso Pequeno Portugal», afirmou o emigrante, natural do distrito de Viseu e desde 1991 no Canadá.

Uma parte de ‘Little Portugal’ está incluída no círculo eleitoral da Davenport, que reelegeu recentemente a vereadora Ana Bailão (Bairro 18) e que nas eleições provinciais do passado verão elegeu então a deputada Cristina Martins.

Calcula-se que existam actualmente no Canadá cerca de 550 mil portugueses e luso-descendentes, estando a grande maioria localizada na província do Ontário.

E é em ‘Little Portugal’ que os que procuram ou têm saudades de produtos portugueses saciam o desejo.

Fernando Abreu reconhece, orgulhoso que a zona «é praticamente uma cidade portuguesa no centro de Toronto».

«Não há de tudo, mas é quase como se estivesse em Portugal», justificou, explicando que no seu estabelecimento de ‘take out’ aberto há 11 anos, a grande especialidade é o tradicional frango assado.

Praticamente ao lado, no 1209 da Dundas St W, fica a Caldense Bakery, umas das primeiras padarias e pastelarias na área.

A empregada mais antiga, com 24 anos de serviço, Isabel da Silva, 39 anos, disse que os canadianos gostam muito dos doces portugueses, nomeadamente o bolo-rei.

«Ainda hoje vendi três ou quatro bolos-rei a canadianos que são casados ou têm familiares portugueses», exemplificou.

A emigrante, natural de Braga, também nota a progressiva diminuição da presença portuguesa, considerando que a zona «está mudada», constatando o envelhecimento da população, com os mais novos a afastarem-se da zona, devido aos elevados valores imobiliários: uma casa pode custar, em média, 1 milhão de dólares canadianos (700 mil euros).

No ‘Little Portugal’, pode-se também encontrar os tradicionais enchidos portugueses, embora fabricados no Canadá devido à legislação em vigor.

Trata-se do «Pavão Meats and Deli», no 1435 da Dundas St W, de que Luís Pavão, 38 anos, é um dos proprietários.

«Quem aqui entra, sabe que estamos num Pequeno Portugal. Oferecemos à comunidade um pouco que todo o nosso país oferece, tentamos ir às diferentes regiões, passando pelos Açores, Madeira e continente», explicou, acrescentando que, entre várias especialidades, apresenta o chouriço micaelense, as tripas à moda do Porto, o pé de torresmo caseiro, a morcela e a farinhota (pequena farinheira).

Uma historiadora e um sociólogo, ambos luso-descendentes, explicaram à Lusa as origens do ‘Little Portugal’.

«Foi criado por necessidade, porque os portugueses não falavam nem sabiam ler inglês. Queriam os produtos a que estavam habituados em Portugal», disse Susana Miranda, 40 anos, uma das responsáveis do Projecto de História Luso-canadiana, e filha de emigrantes naturais da Lourinhã, distrito de Lisboa.

«Podiam comprar o tradicional bacalhau ou outros produtos importados, ou então podiam ir ao salão do bilhar à procura de trabalho, tinham necessidades do dia-a-dia, e o ‘Little Portugal’ cresceu por esses motivos», afirmou

Após a emigração oficial para o Canadá, em 1953, os portugueses «começaram por se fixar na rua Augusta, no Kensington Market, acrescentou.

«Foi nessa área que abriu o primeiro restaurante português, uma papelaria, um supermercado, e a primeira pensão onde os ficavam algumas noites até encontrarem um local para viverem», explicou Susana Miranda.

Por sua vez, o sociólogo Emanuel da Silva, de 36 anos, e que é também director do Projecto de História Luso-canadiana, acrescentou que a intersecção da Dundas Street West com a Ossington Avenue tem sido o «coração» da comunidade portuguesa em Toronto, desde o início dos anos 70, mas com o passar do tempo «podem-se verificar algumas alterações» como a diminuição da presença lusa na área.

Os dois luso-descendentes reconhecem que a própria Câmara Municipal de Toronto tem vindo a apostar na multiculturalidade da cidade numa questão de ‘marketing’ para «atrair mais turistas».

O Projecto de História Luso-canadiana foi criado em 2008 e pretende sensibilizar a comunidade, preservando e documentando a presença dos imigrantes portugueses no Canadá.

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