Irmã Maria do Monte: uma religiosa madeirense a caminho de ser santa

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O Papa aprovou a publicação do decreto que reconhece as “virtudes heróicas” da irmã Maria do Monte (1897-1963), religiosa das Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, anunciou o Vaticano.

Esta é uma fase do processo que leva à proclamação de um fiel católico como beato, penúltima etapa para a declaração da santidade; para a beatificação, é agora necessária a aprovação de um milagre atribuído à intercessão da religiosa madeirense.

A Diocese do Funchal reagiu ao anúncio deste “passo importante”, em comunicado, destacando que esta é “a primeira venerável nascida na ilha da Madeira”.

Em declarações à Agência ECCLESIA, D. Nuno Brás assinalou o reconhecimento em ano da realização da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.

“No ano da Jornada Mundial da Juventude o Papa dá aos jovens hoje, um exemplo de santidade português. O que o Papa nos está a dizer é que é possível ser santo, reconhecendo as virtudes heroicas da irmã Maria do Monte”, afirmou.

A irmã Maria do Monte nasceu em 1897, na freguesia de Santo António (Funchal) e foi batizada com o nome de Elisa de Jesus Pereira. Um nome abençoado na pia batismal, qual vaticínio do seu caminho e das suas escolhas, que a predestinou a ser só de Jesus, ao serviço dos que sofrem. Nasceu no mês de abril, o mês das sementeiras e da vida nova trazida pela primavera. Do latim Aprilis, significa abrir, nascer da semente.

A madeirense era de uma família religiosa de dez filhos. Quando tinha 17 anos, ficou órfã e teve que assumir a responsabilidade de cuidar da casa e de outros irmãos. Mais tarde, expressou o desejo de se tornar religiosa, mas encontrou a oposição da família, que precisava de seus cuidados. Estes fatores fazem com que Elisa espere 10 anos para entrar na Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Tinha 29 anos quando de barco deixa o Funchal, em companhia da Irmã Verónica de Jesus Marturet, superiora geral da Congregação. Deus não desistiu de a chamar e foi desbravando o caminho. Maria do Monte entrega-se à missão, no cuidado às mulheres com doença mental.

Maria do Monte é o nome que assume em 1927, quando entra na Congregação. Associada ao seu nome, está a devoção a Nossa Senhora do Monte, a padroeira da Madeira. Mas, o monte é também lugar de encontro entre o humano e o divino, onde Deus se revela.

Em um artigo publicado em novembro de 2022 no site ‘Família Cristã’, padre Ricardo Figueiredo recordou as palavras escritas por irmã Maria do Monte no dia de sua profissão religiosa: “Eu, neste dia solene, me ofereço ao vosso coração como vítima de holocausto ao vosso amor! Que todos os sofrimentos da vossa alma e do vosso coração passem para esta pequenina hóstia que hoje se imola neste altar; ó Jesus aqui me tendes a vossos pés, pronta para sofrer na minha alma e, até se quiserdes, no meu corpo! Que eu seja outro Jesus crucificado em reparação dos pecados de todo o mundo e para ajudar os missionários”.

Segundo o sacerdote, este foi “o projeto de vida” da irmã Maria do Monte. “Viveu uma vida intensa e humilde de serviço aos mais fracos, alimentada por uma profunda intimidade com Deus, mergulhando profundamente no mistério da Santíssima Trindade”, escreveu.

A freira dedicou boa parte de sua vida à Casa de Saúde Câmara Pestana e ao Centro de Reabilitação Psicopedagógica da Sagrada Família. Segundo ‘Vatican News’, “foi estimada por suas irmãs e experimentou fenômenos singulares que ela viveu em discrição e humildade”. A Elisa era especial, sempre bem disposta, sempre disponível para escutar, amável, simples, humilde e dada com toda a gente. Era assim que a descreviam, os que a conheceram e que com ela conviveram.

“Motivada por seu diretor espiritual, ela transcreveu suas experiências interiores. Mulher de grande força moral, ela se caracterizou por uma notável capacidade de autocontrole que deriva de sua extraordinária intimidade com Deus, e foi com a ajuda da graça que ela conseguiu enfrentar situações difíceis, marcadas por seu precário estado de saúde”, disse o site da Santa Sé.

Por vezes sente que “a sua alma anda à deriva, que navega numa barquinha sem remos, à mercê das ondas encapeladas, às vezes surgem as noites, noites dos sentidos e parece estar num deserto sozinha sem apoio divino nem humano, suspensa entre o céu e a terra. Ou então, “esta presença divina, dispõe a minha alma para uma quietação e união mais íntima e habitual com Deus e então daí me vem uma grande paz interior, um repouso cheio de encantos, é aí que a minha alma experimenta uma espécie de sono místico. Deus tem a sua hora para tudo”.

A irmã Maria do Monte morreu aos 66 anos, em 18 de dezembro de 1963. Sua causa de beatificação e canonização foi aberta em 4 de março de 2007, no Funchal, e ouviu cerca de 40 testemunhas, tendo sido encerrado a 18 de dezembro de 2008. Na época, o então bispo do Funchal, dom Teodoro de Faria, recordou como começou este processo.

“Como manifestou Deus os carismas concedidos à sua serva, se ela nada comunicou aos seus superiores e pessoas amigas?”, perguntou o bispo em texto publicado pela Agência Ecclesia. Segundo ele, o diretor espiritual da irmã Maria do Monte, o jesuíta padre Giulio Gritti, “perante uma realidade espiritual fora do comum”, pediu que ela “escrevesse os seus colóquios espirituais com Deus”. O padre Gritti guardou os documentos e, após a morte da freira, “enviou algumas folhas do texto a um padre jesuíta pedindo para o ler e dar a sua opinião, por escrito. Outros diretores espirituais leram o texto e manifestaram a sua opinião favorável”. O documento também chegou à casa da congregação em Roma e foi apresentado ao postulador da congregação. Em seguida, foi feito o pedido ao bipo do Funchal que abrisse o processo de beatificação.

“O processo da irmã Maria do Monte recorda-me o de santa Teresinha do Menino Jesus após o aparecimento do magnífico livro biográfico ‘A História de uma Alma’”, disse dom Faria.

Após o reconhecimento das virtudes heroicas da irmã Maria do Monte, o atual bispo do Funchal, dom Nuno Brás, disse à Agência Ecclesia que, “no ano da Jornada Mundial da Juventude, o papa dá aos jovens hoje, um exemplo de santidade português. O que o papa nos está a dizer é que é possível ser santo, reconhecendo as virtudes heroicas da irmã Maria do Monte”.

Agora, para a beatificação de irmã Maria do Monte, é preciso o reconhecimento de um milagre que tenha acontecido pela intercessão da religiosa madeirense. D. Nuno Brás sublinhou a necessidade de divulgação da causa de canonização, promovida pela Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, pois sem essa divulgação “mais dificilmente se reconhecerá um milagre”.

“O Papa Francisco reconheceu hoje a vida da irmã Maria do Monte, nascida e falecida no Funchal, como exemplo de vida cristã, a partir dos seus escritos e vida. Isto é claramente algo de muito importante. Para ser declarada beata precisamos de um milagre, e para isso há que divulgar a sua causa de canonização para que o milagre possa acontecer e declarada oficialmente beata”, reconheceu.

A causa decorre junto das irmãs hospitaleira mantendo-se a Diocese do Funchal disponível para “ajudar no que for necessário” e estiver ao seu “alcance”.

O portal de notícias do Vaticano destaca, na sua página, uma vida “passada entre os doentes da Madeira”. “Desenvolve o seu serviço e apostolado em várias comunidades, onde foi estimada pelas religiosas e experienciou fenómenos singulares, que viveu no escondimento e com humildade”, pode ler-se.

Estas experiências espirituais foram registadas por escrito, por sugestão do seu diretor espiritual.

“Mulher de grande força moral, caraterizou-se por uma notável capacidade de autocontrolo, que derivou da extraordinária intimidade com Deus, e foi com a ajuda da graça que conseguiu enfrentar situações difíceis, marcadas pelas precárias condições de saúde”, indica o Vaticano.

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