A Madre Teresa de Calcutá dizia que ‘Aquele que não vive para servir, não serve para viver’, uma afirmação que reflecte a vida de Jorge Oliveira de Sousa, um madeirense que entregou grande parte da sua existência ao serviço dos mais necessitados, tornando-se no promotor de uma verbena em benefício do Geriátrico Padre Pio, que acontece desde há alguns anos no Centro Português.

O passado dia 29 de Julho foi talvez a verbena mais triste e emotiva até agora em nome da Casa Lar e Clínicas Padre Pio, pois, entre música e comidas típicas, os participantes tratavam de esquecer que, algumas horas antes, o grande impulsionador da actividade tinha recebido o chamado de Deus. A sua última vontade foi que, acontecesse o que acontecesse, estas actividades não fossem suspensas, pois beneficiam muitas pessoas.

Um madeirense exemplar

Jorge Oliveira de Sousa nasceu a 6 de Janeiro de 1944 no seio de uma família humilde de Câmara de Lobos (ilha da Madeira), e, como tantos outros portugueses, partiria para a Venezuela em busca de melhores oportunidades de vida.

Nessa viagem, encontrou-se com o amor da sua vida, Maria Alegria Gonçalves, com quem contraiu matrimónio a 3 de Julho de 1949, partilhando uma união exemplar, da qual nasceram três filhos, Jorge, Graciela e Ferdinando Oliveira Gonçalves, que, por sua vez, completaram a alegria de Jorge, ao lhe darem a oportunidade de tornar-se no “melhor avô do Mundo”, com a chegada de seis netos.

“Foi, sem dúvida alguma, um pai exemplar, um homem trabalhador, se tivesse de deixar de comer para dar aos filhos, fazia-o, era um bom amigo, bom marido, porque o demonstrava com a minha mãe. Amigo de toda a gente, muito disponível para colaborar. Ajudou muita gente, mesmo sem muitos recursos, porque ele não era uma pessoa de dinheiro, mas com o que tinha, tratava de arranjar formas de ajudar os outros. Sentimo-nos muito orgulhosos do nosso pai, não só pelo que fez para nos fazer evoluir, mas pelo que fez até ao último dia da sua vida, ao ajudar pessoas que nem conhecia”, relatou Jorge Oliveira filho.

O senhor Jorge estava há 45 anos na Venezuela e dedicava-se à venda independente de manteigas e queijos. Com o passar do tempo, tentou melhorar a forma como ajudava o próximo, pelo que se juntou à Fundação Bom Samaritano, uma actividade que se tornou no trabalho da sua vida a partir de 1997. Nesta reconhecida instituição, são atendidas as necessidades de idosos abandonados pelas suas famílias, de um grupo de crianças com SIDA e indigentes, a quem prestam não só serviço de alimentação, através de cantinas comunitárias, mas também têm acesso a roupas, pelo que Oliveira se encarregava de pedir ajuda às empresas portuguesas e há alguns anos, conseguiu que o Centro Português emprestasse as suas instalações uma vez por ano para um evento de angariação de fundos, através de uma verbena na qual tudo o que se vende e se rifa é conseguido através de donativos.

“Nunca nos disse porque o fazia, mas estamos certos que foi devido a uma promessa e porque acreditava realmente naquilo que fazia. Encarregava-se de ir pedir as ajudas directamente aos supermercados, a empresas, e muita gente duvidou que fosse verdade que ele levasse esses donativos para o fim que dizia, mas o meu pai nunca levou nada para casa que não fosse fruto do seu trabalho. Também queremos agradecer as juntas directivas do Centro Português porque proporcionaram que estas verbenas acontecessem”, destaca o filho mais velho.

Despedir-se à sua maneira

O senhor Jorge sabia que a sua doença estava avançada, e talvez o que o manteve tanto tempo na luta foi a sua vontade de ver a sua família unida e feliz, e ajudar, e assim foi pela última vez, para que essas mais de duas mil pessoas por dia fossem ajudadas pela instituição que representava.

Na sede de Mamera, só ele e o seu grupo atendiam quase 200 pessoas, enquanto o lar presta serviço a mais de 60 pessoas, entre crianças e idosos. “Em nenhum momento o meu pai nos disse ‘dói-me algo ou sinto-me mal’ e o médico dizia que lhe tinha que doer alguma coisa porque tinha muitos tumores, na cabeça, nos pulmões, nos rins. O meu pai demonstrou que a sua vontade de ajudar era mais forte, porque ele já não podia andar, mas até quinta-feira, saiu para ir à procura de colaborações para a verbena”, conta Oliveira Gonçalves.

 

Foram compradas passagens para uma viagem a meados de Agosto com toda a família, e ficou ainda a intenção de ir visitar o túmulo do Padre Pio em Itália, de quem Jorge era devoto e crente, e onde os seus filhos aspiravam levá-lo para cumprir um dos seus sonhos.

“Gostaríamos que recordassem o meu pai como um homem que deu tudo, literalmente, até ao último suspiro, porque se conseguisse fazer a verbena do Padre Pio, não queria suspendê-la por nada deste mundo, fez com que se tornasse possível que hoje toda esta gente estivesse aqui reunida, onde também queria estar porque até ao último momento dizia-nos que iria assistir a tudo numa esquina numa cadeira de rodas. Espero que o meu pai nos guie onde estiver para saber o que temos de fazer para seguir em frente com o seu trabalho, porque ele levou muitos segredos sobre o que fazia, como os clientes, quem dava e quem não, e será a pouco e pouco que vamos aprendendo e trataremos de fazer com que o seu legado continue”, concluiu Jorge Oliveira filho.

Jorge Oliveira de Sousa morreu acompanhado pela sua família no sábado, 28 de Julho, pelas 9:20 da manhã. Os seus restos mortais foram enterrados pelo meio-dia de 29 de Julho, no Cementerio del Este, justamente quando se iniciava outra edição da Verbena do Padre Pio.

 

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