Lusodescendente dirige serviço que ajuda crianças venezuelanas a ter melhor saúde mental

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O psicólogo luso-venezuelano Abel Saraiva criou o Serviço de Psicologia Crescer sem Violência, no contexto dos protestos políticos de 2017 na Venezuela, que atualmente atende mais de 9.000 crianças e adolescentes por ano.

Em declarações à agência Lusa, o descendente de emigrantes naturais de Fermentelos explicou que o serviço faz parte da ONG Cecodap – Centros Comunitários de Aprendizagem, fundada há 38 anos, que trabalha localmente na promoção e defesa dos direitos humanos das crianças e adolescentes.

“Vimos que havia grande procura de ajuda para crianças em resultado da situação (…) no primeiro ano do serviço, atendemos 250 pessoas e hoje atendemos mais de 9.000 (ao ano). Passámos de ter um psicólogo, que era apenas eu, a ter 21 psicólogos que atendem os 365 dias do ano. Tem sido um trabalho árduo, mas também satisfatório”, disse.

Segundo o psicólogo, são principalmente “crianças e adolescentes vítimas de violência, de perturbações do estado de ânimo como a depressão, a ansiedade, casos de risco de suicídio, de abuso sexual e também relacionados com processos migratórios e de violações dos direitos humanos”.

Os casos, disse, aumentaram no ano de 2020, com a pandemia da covid-19, passando de 22% para 39%, relacionados com a ansiedade e a depressão e o risco de suicídio em crianças e adolescentes, especialmente meninas.

“Além da imagem que o país pode projetar, existe um profundo sofrimento humano que não está a ser atendido. O país investe menos de 0,01% do orçamento para a saúde na saúde mental das crianças e adolescentes. Sem orçamento e em emergência humanitária, há um sofrimento que se exprime da forma que estamos a ver”, explicou.

Este aumento, disse, deve-se ao facto de que “não há, no país, programas nem serviços de saúde mental gratuitos em número suficiente para atender a população” e como exemplo referiu que há “mais de um milhão de crianças afetadas pela migração do país e não há um milhão de psicólogos para atender esses casos”.

“Quando fazemos as contas, compreendemos que não há profissionais suficientes nem para lidar com o fenómeno migratório na Venezuela”, frisou.

Também porque o atendimento privado é “extremamente caro”, “há elevados níveis de violência, um enorme impacto da crise económica a afetar as famílias e não há planos de prevenção em termos de saúde mental”, uma combinação de fatores que “produz um enorme sofrimento e efeitos profundos nas crianças”.

“Cerca de 70% dos problemas de saúde mental nos adultos têm origem na infância. Não atender a saúde mental das crianças é assegurar um estado alterado de saúde mental na idade adulta”, disse.

Por outro lado, explicou que o Serviço de Psicologia Crescer sem Violência atende presencialmente em Caracas e em zonas rurais, e de maneira virtual, casos de todo o país.

“Estão a chegar mais casos por motivos mais graves, com maior risco. Em termos de saúde mental, a situação não está a melhorar, os pacientes chegam em piores condições e isso diz-nos que há uma emergência que não está a ser vista”, disse.

Segundo Abel Saraiva, por “detrás dos edifícios e carros de luxo da cidade, há um profundo sofrimento humano, porque a maioria das pessoas continua a viver em condições de pobreza muito duras, sob os efeitos da violência, sem que sejam tomadas medidas estruturais para resolver efetivamente a raiz da questão”.

“Mas o facto de a Venezuela estar a viver em emergência, de existirem problemas estruturais, de pobreza, não significa que tenhamos de prestar um mau serviço aos pobres, pelo contrário, o nosso compromisso tem sido o de oferecer um serviço com a qualidade de qualquer serviço de saúde mental na Europa”, explicou.

O luso-venezuelano considerou que “é importante ouvir as organizações sociais”, ver além do que “por vezes, querem mostrar nos meios de comunicação social e compreender que as pessoas continuam a sofrer, e que é por isso que há a migração, que há tantos venezuelanos no mundo”.

“No caso de Portugal, a Venezuela foi um país recetor de emigrantes portugueses. Eu sou um exemplo de uma família que emigrou, mas é muito importante perceber que hoje os venezuelanos estão a emigrar», disse defendendo que todos precisam de apoio porque «na Venezuela e no mundo a saúde mental deve ser uma prioridade, sobretudo a saúde mental das crianças e dos adolescentes”, concluiu.

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