“Maneiras de fazer psicologia no futebol há muitas”

António Martins, o luso-descendente psicólogo do Estudiantes de Caracas.

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A pouco e pouco, os luso-descendentes foram chegando ao futebol venezuelano ocupando lugares importantes, sejam treinadores, gestores ou jogadores. No entanto, não são os únicos. A área da psicologia, por exemplo, conta com António Martins, que trabalha com o Estudiantes de Caracas.

António Martins nasceu em Chacao, Caracas, a 4 de Maio de 1990, fruto do casamento entre um madeirense natural de Ponta Delgada e uma venezuelana. A sua infância foi vivida entre Vista Alegre e Montalbán; fez a primária e o secundário no Colégio de Maria. Entrou na Universidade Católica Andrés Bello para estudar psicologia, onde se licenciou, e posteriormente tirou uma pós-graduação em psicologia clínica comunitária. “Tive a oportunidade de ter boas notas na pré-graduação, fui o quinto do meu grupo. Sempre gostei da docência. Inclusive fui preparador de várias matérias, e continuei aí, poder-se-ia dizer que esse foi o meu primeiro trabalho”, comentou.

Entrou no mundo do futebol através de Manuel Llorens, que foi o psicólogo da selecção nacional no ciclo de César Farias. “Ele apresentou-me a Charles López, a quem tenho muito que agradecer. Comecei a trabalhar com ele no seu último semestre com o Real Esppor. Quando saiu da equipa, saí por uma questão de lealdade. Voltei ao mundo do futebol quando Charles foi assistente técnico de Miguel Echenausi na selecção nacional sub–20, no último sul-americano. Ao terminar o processo com a selecção, deu-se esta oportunidade com os Estudiantes de Caracas, um clube que tem muito futuro”, explicou.

Manuel Llorens foi uma peça importante na sua formação profissional e pessoal desde que se conheceram na Universidade. “Foi meu professor de psicologia da personalidade. Eu era muito cansativo porque perguntava muitas coisas. Depois deu-me aulas na pós-graduação. Quando terminei, deu-se a oportunidade de estudar psicologia do desporto na mesma escola, entrei no curso e passei. Falou da oportunidade de trabalho com Charles e bom, aqui estamos”, disse.

Entre 2013 e 2015 esteve longe do futebol, dedicando-se a preparar-se profissionalmente, a par de dar aulas na universidade. Depois chegou o Sul-americano Sub-20 do Uruguai, onde lhe coube assumir um novo papel e enfrentar uns resultados muito criticados.

“Fomos o corpo técnico que mais tarde recebeu a sua selecção, com a Bolívia. Quando chegas às competições internacionais e falas com outros corpos técnicos, dás-te de conta que têm um ciclo completo e todas as ferramentas necessárias para trabalhar bem. Nós não o tivemos, e assumimos, era um desafio para nós. Os resultados não se proporcionaram, mas a aprendizagem foi significativa. Quando nos encontramos com jogadores que fizeram parte desse sul-americano e os olhamos nos olhos, sentimo-nos bem porque demos tudo pela classificação nesse mundial”, relatou.

Uma nova oportunidade
No Estudiantes de Caracas a psicologia é vista como uma área muito importante, e esta equipa tornou-se um novo desafio profissional. “Quando me chamaram, a ideia não era trazer um psicólogo para a primeira equipa mas para a organização, que tivesse uma equipa de trabalho para toda a estrutura. Essa é nossa intenção e proposta. Queremos ajudar, a partir da psicologia, ao crescimento do futebol venezuelano”, assinalou.

A psicologia no futebol venezuelano tem pouco tempo. Inclusive não são muitas as equipas que têm profissionais desta área. “Maneiras de fazer psicologia no futebol há muitas. Na Venezuela é diferente porque há carências e uma situação complicada. A psicologia do desporto na Venezuela é diferente de outros locais no mundo. Há que integrar no nosso trabalho umas variáveis socioculturais que são particulares do país. Tudo depende do treinador, porque ele é o encarregado desses alinhamentos. Na equipa, os jogadores vão ao nutricionista e ao psicólogo, e isso faz parte do treino, é fundamental. Eu situo-me como terapeuta familiar, que está inserido numa família, e há diferentes formas de ver as coisas. Eu trato de encaminhar isso para um objectivo em comum”, disse.

As suas raízes portuguesas influenciaram a sua vida de forma positiva. “Sou parte de uma família luso-venezuelana, e deixaram-me várias coisas importantes na minha vida, como o orgulho, a herança de pessoas trabalhadoras e as saudades que às vezes surgem por não estarmos perto da família”, concluiu, assegurando, no entanto, que uma equipa de futebol é como uma família.

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