Memória Agradecida: “Os cedros do Líbano e a Bíblia”

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Por: Teodoro de Faria, Bispo Emérito do Funchal

A Sagrada Escritura pode definir-se como uma sinfonia a muitas vozes. O estudo da utilização das plantas da Bíblia, reúne o trabalho de exegetas, botânicos, homens das florestas, principalmente da área do Mediterrâneo. Entre as espécies de árvores, o cedro do Líbano é apreciado pelo seu vigor e a sua majestade.

O cedro do Líbano é uma das espécies mais conhecidas da antiguidade, aparece já na cultura egípcia, mesopotâmica e greco romana. É uma árvore com grandes dimensões e uma destribuição atual que compreende a Turquia, o Líbano, a Síria e a ilha de Chipre. Hoje aparecem poucos exemplares no Líbano.

Quando me dirigia para a École Biblique de Jerusalém, com outros estudantes, fomos alojados em Beirut na casa dos franciscanos, que não exigiam como pagamento senão a intenção da missa que eles tinham para celebrar. Além de outras visitas, a que mais nos entusiasmava, era visitar os cedros do Líbano, recordando o número impressionante de vezes que eles apareciam no Antigo Testamento. Encontramos poucos exemplares, mas árvores impressionantes. À sombra de um deles, lemos a narração da vinda dos cedros para Jerusalém, levados para o mar em barcos até Jope e, depois, puxados por juntas de 45 bois até à cidade santa de David e de seu filho Salomão.

No tempo do rei David o cedro do Líbano tinha uma grande fama e grande sucesso. Ele aparece 73 vezes com a palavra hebraica. Um dos livros que o cita é o de Siracide (Sir.24,13 e 30, 12). Aparece também na tradução grega dos Setenta como substantivo, Kédros.

A maior parte das citações refere-se ao Templo de Jerusalém, mas Salomão tinha-o também colocado no seu palácio chamado “floresta do Líbano”. Quanto ao Templo de Jerusalém, o cedro é celebrado não só na Bíblia, mas também nos países vizinhos. Esta maravilha da Casa de Deus foi celebrada como o mais belo exemplar do seu tempo. Apesar disso, foi destruída e queimada pelo imperador Nabucodonosor, rei de Babilónia.

Um salmo recorda o choro e a tristeza dos exilados que dependuram as cítaras nos salgueiros, junto ao rio Tigre, recordando o Templo perdido e a Arca da Aliança que desapareceu também no incêndio da cidade.

Com a vinda do exílio, o imperador Ciro permitiu que reconstruissem o Templo, tendo nessa ocasião importado cedros do Líbano, mas a beleza antiga perdida para sempre, levava o povo a chorar pelo monumento de Salomão.

Os profetas recordam nos seus discursos os cedros, material nobre e positivo. A recordação do cedro como árvore de pé, no Livro dos Reis (1 Re. 5) é símbolo da sabedoria e sapiência, aparece também como sinal de vida, e até, de destruição e condenação.

O Salmo 92,5, é usado para descrever o justo, aparece também no oráculo de Balaão, em que as tendas de Israel são comparadas a uma floresta de cedros que crescem junto aos cursos de água. No Salmo 29,5, canta-se a majestade de Deus que derruba os cedros do Líbano. Em Isaías 2,13, a altura do cedro é associada à soberba dos homens. No livro 2 Reis 14,8-14 e 2 das Crónicas 25,17, o Senhor ordenará uma guerra contra todos os cedros do Líbano, altos e elevados.

O amado do Cântico dos Cânticos, é descrito no seu aspeto magnífico, como um cedro do Líbano. O Salmista louva Deus criador e descreve os grandes cedros do Líbano que devido à providência divina estão saciados e repletos de linfa (Sal. 104,16). No livro da Sabedoria (48,9) as árvores de fruto são convidadas a participar com os cedros a louvar a Deus.

Muitas outras citações se encontram na Bíblia para louvar os cedros que exigiriam um capítulo ainda maior. Termino com o Imperador Justiniano de Constantinopla que, ao inaugurar a Basílica Haghia Sophia, junto ao Patriarca da cidade sob a magnífica cúpula da Catedral exclamou: “ Venci-te Salomão”.

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