«O Luxemburgo sofreu um processo de lusificação»

No Grão-Ducado, um país onde quase metade dos habitantes são estrangeiros, vivem cerca de 90 mil portugueses

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CORREIO/LUSA

A emigração portuguesa para o Luxemburgo nos últimos 50 anos deixou marcas no país, um fenómeno a que a investigadora luxemburguesa Aline Schiltz, especialista em geografia humana, chama «lusificação».

No Grão-Ducado, um país onde quase metade dos habitantes são estrangeiros, vivem cerca de 90 mil portugueses, cerca de 16% da população, e a sua presença não passa despercebida.

Da língua que se ouve nas ruas aos produtos nacionais, vendidos mesmo nas grandes superfícies e nas áreas de serviço, passando pelas bandeiras à janela em altura de mundial de futebol, «a emigração portuguesa marcou a paisagem de forma determinante», defendeu a geógrafa, autora de vários estudos sobre os emigrantes portugueses.

«Não há nada de tão forte como o impacto dos portugueses, e pelo país todo: os cafés com nome português, os produtos portugueses, até os pastéis de nata», exemplificou a geógrafa luxemburguesa, a viver entre Lisboa e o Luxemburgo desde 2003.

A popularidade deste ícone da doçaria portuguesa é tão grande que há mesmo empresas luxemburguesas a produzi-los no país, como a pastelaria Fischer, fundada em 1913, que os vende nas 62 lojas da cadeia, tal como os bolos-de-arroz, lado a lado com os doces tradicionais luxemburgueses.

«A lusificação é positiva: querendo ou não, é uma realidade o facto de o Luxemburgo estar inserido num mundo luso, e isso não prejudica a cultura luxemburguesa, é uma riqueza», defendeu, sublinhando no entanto que a presença portuguesa continua a ser também «fonte de tensões», por causa das «dificuldades linguísticas».

«O Luxemburgo tem especificidades que o fazem diferente da França, como o facto de haver três línguas oficiais», pelo que «também é mais raro os portugueses não transmitirem a língua materna aos filhos, enquanto em França é mais comum os filhos dos emigrantes já só falarem francês, por causa deste contexto linguístico», explicou.

Para a geógrafa, «as medidas que procuram a assimilação» dos portugueses «perdem de vista a evolução sócio-cultural» do país e «a riqueza cultural que o Luxemburgo tem a ganhar com a imigração portuguesa», favorecendo «a cristalização de representações sociais xenófobas».

Apesar de portugueses e luxemburgueses viverem ainda «em dois mundos aparte», há também «uma relação natural» entre ambos que devia ser mais valorizada, defendeu.

«Ainda há muitas reticências dos luxemburgueses em relação aos portugueses, faz-se muito uma fronteira, e a sociedade luxemburguesa não é fácil – as línguas são um problema – mas há uma relação também natural, diária, e eu tenho muito orgulho em dizer em Portugal que os pastéis de nata fazem parte dos bolos nacionais no Luxemburgo», disse à Lusa.

A geógrafa, de 35 anos, é autora de vários estudos sobre os emigrantes portugueses, incluindo sobre o impacto da emigração no Fiolhoso, uma localidade transmontana «considerada a aldeia mais luxemburguesa de Portugal», além de uma tese de doutoramento em que analisa a mobilidade entre os dois países.

Para Aline Schiltz, o fluxo migratório entre Portugal e o Luxemburgo contribuiu também para a criação de «um espaço transnacional que podia servir de exemplo para uma Europa sem fronteiras».

«No Fiolhoso, um rapaz comentava-me que se ficasse desempregado, não ia procurar trabalho ao Porto, porque tinha um tio no Luxemburgo e viria para cá», exemplificou. «Para ele, a dois mil quilómetros de distância, o Luxemburgo era mais perto, de certa forma, que o Porto».

O Grão-Ducado é o país com maior percentagem de portugueses na diáspora, mas apesar da grande concentração de emigrantes, a geógrafa disse que não se pode falar em «comunidade portuguesa», porque «não há uma comunidade homogénea».

«Não há nada mais diversificado do que a comunidade portuguesa: temos quem chegou nos anos 60 e 70, quem veio nos anos 80 enquanto funcionário europeu, quem nasceu cá, quem chegou ontem, há uma mistura enorme de vivências e perfis», afirmou, referindo que é preciso «desfazer o estereótipo» de que os portugueses são apenas «pedreiros ou ‘femmes de ménage’ [empregadas de limpeza]», um «preconceito» que não corresponde à realidade.

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