O oceano Atlântico não funciona como um limite geográfico para Portugal, mas sim como a avenida principal da sua história e da sua cultura. Ao longo dos séculos, as comunidades costeiras lusitanas olharam para o horizonte não com temor ao isolamento, mas com a certeza de que o mar era o caminho para o sustento. Esta vocação marítima encontrou a sua máxima expressão na captura do bacalhau, um peixe que não habita nas águas temperadas do litoral português, mas sim nos gélidos pesqueiros do Atlântico Norte. A necessidade económica, a perícia náutica e o desenvolvimento de técnicas de conservação converteram uma travessia de alto risco numa indústria nacional e, eventualmente, no pilar fundamental da gastronomia de um país que aprendeu a consumir de forma quotidiana um alimento que se pescava a milhares de quilómetros de distância.
A Frota Branca e o desafio dos mares gelados
A consolidação da pesca do bacalhau a grande escala no século XX está ligada à epopeia da denominada «Frota Branca». Durante as décadas de 1930 a 1970, dezenas de navios portugueses, pintados de branco para serem avistados com maior facilidade entre o nevoeiro e os icebergs do norte, partiam a cada primavera de portos como Ílhavo, Figueira da Foz e Viana do Castelo com rumo à Terra Nova e à Gronelândia. As campanhas de pesca estendiam-se por um período de seis meses, em condições climatéricas extremas onde as temperaturas desciam frequentemente abaixo dos zero graus centígrados e os ventos ciclónicos punham à prova a resistência das embarcações.
O método de captura principal era a pesca de linha a bordo dos dories, pequenas embarcações de madeira de um só tripulante. Cada pescador era deixado à deriva no oceano às primeiras horas da manhã, equipado unicamente com as suas linhas de anzóis, uma bússola e um par de remos. O historiador naval Álvaro Garrido, nas suas investigações sobre a economia marítima do Estado Novo, aponta que la pesca do bacalhau era uma atividade de uma dureza laboral extrema, regulada sob um regime corporativo que exigia altos níveis de produção a troco de salários que dependiam diretamente do volume da captura. Os homens passavam mais de catorze horas diárias no dory, enfrentando o risco constante de se perderem no nevoeiro ou de serem naufragados pela ondulação, para depois regressarem ao navio-mãe para iniciar a faina da limpeza, evisceração e salga do peixe de forma manual.
O sustento familiar a troco do desenraizamento temporal
Para as populações das regiões do litoral e do centro de Portugal, a partida da Frota Branca marcava o ritmo da vida económica e social. O emprego nos bacalheiros representava, para muitos jovens, a única alternativa viável face à pobreza agrícola ou ao serviço militar obrigatório. Os rendimentos obtidos numa campanha bem-sucedida permitiam às famílias costeiras adquirir terrenos, construir habitação ou liquidar dívidas contraídas durante os meses de inverno. No entanto, este fluxo monetário exigia um custo social elevado baseado na ausência prolongada e na incerteza das famílias que permaneciam em terra.
As mulheres assumiam a chefia dos lares e a gestão da economia doméstica durante a ausência dos homens, desempenhando além disso um papel fundamental nas indústrias de secagem de bacalhau em terra. O retorno dos navios no outono significava o reencontro, mas também a constatação das perdas humanas que cada campanha cobrava de maneira regular. A literatura oral e as crónicas da época refletem como o bacalhau se transformou num símbolo bivalente: por um lado, era o sustento material que garantia a sobrevivência da descendência; por outro, era a recordação de um sacrifício pessoal que obrigava os trabalhadores a passar grande parte da sua vida adulta em alto-mar, afastados das suas dinâmicas familiares básicas.
A origem da salga e a adoção do peixe distante
A paradoxo de Portugal ter o bacalhau como o seu prato nacional sem possuir este recurso nas suas águas territoriais explica-se através da história da conservação de alimentos. Os registos do comércio deste peixe remontam ao século XIV, quando os comerciantes portugueses trocavam sal, azeite e vinho com a Inglaterra a troco de bacalhau seco. A introdução formal e massiva deste produto na dieta nacional consolidou-se graças às propriedades da salga, um processo químico natural que desidrata o peixe, impede a proliferação de bactérias e permite o seu armazenamento por longos períodos à temperatura ambiente.
Numa época que carecia de sistemas de refrigeração industrial, o bacalhau salgado e seco converteu-se na única proteína marinha capaz de chegar ao interior geográfico de Portugal sem se deteriorar. A sua facilidade de transporte a dorso de mula pelas rotas montanhosas facilitou a sua adoção por parte das classes populares e rurais. Da mesma forma, os preceitos da Igreja Católica, que impunham o jejum de carne vermelha durante a Quaresma, as vigílias e outras festividades do calendário litúrgico, impulsionaram de maneira definitiva o consumo deste peixe. Por ser um produto acessível, duradouro e de alto valor calórico, a sociedade portuguesa incorporou o bacalhau não como um luxo exótico, mas sim como um elemento básico da estrutura alimentar nacional.
As mil e uma formas da riqueza culinária lusitana
No território português existe o axioma popular de que há mais de 365 receitas para preparar o bacalhau, uma por cada dia do ano. Esta diversidade culinária demonstra a versatilidade de um ingrediente que se aproveita na sua totalidade, desde os lombos principais até às caras, às línguas e às espinhas para a elaboração de caldos. O bacalhau é o eixo central das celebrações familiares mais importantes do país, ocupando um lugar exclusivo na ceia de Consoada, onde o «Bacalhau Cozido» com batatas, couve portuguesa, grão-de-bico e ovos cozidos representa a sobriedade e a tradição da mesa natalícia. Aos domingos, os restaurantes e os lares mantêm o costume de apresentar este peixe como a opção principal para o almoço familiar.
Entre as preparações mais difundidas destaca-se o «Bacalhau à Brás», originário do bairro da Mouraria em Lisboa, onde o peixe desfiado é envolvido com batata-palha finamente frita, ovo batido, cebola, azeitonas pretas e salsa. Na região do norte, o «Bacalhau à Gomes de Sá», criado por um comerciante no Porto, propõe um assado no forno do peixe previamente marinado em leite, acompanhado de batatas, cebolas cozidas, azeitonas e rodelas de ovo cozido. Por sua vez, o «Bacalhau com Natas» introduz a influência da cozinha francesa mediante o uso de natas e molho bechamel para gratinar o peixe no forno. Estas variantes regionais evidenciam como um mesmo recurso se adapta aos ingredientes locais de cada província, consolidando uma geografia gastronómica unificada.
O vínculo à emigração e a vigência atual
A relação dos portugueses com o bacalhau transcende as fronteiras da República. Com as vagas migratórias massivas em direção à Europa Central, à América do Sul e à América do Norte durante o século XX, o bacalhau salgado transformou-se num símbolo da identidade cultural e no principal vínculo de ligação com o país de origem. Os estabelecimentos comerciais fundados pela diáspora portuguesa em cidades como Paris, Toronto, Newark, Rio de Janeiro ou Caracas priorizaram a importação deste produto para satisfazer a procura das comunidades de emigrantes, que encontravam na sua preparação uma forma de mitigar a nostalgia e manter vivas as tradições herdadas.
No contexto atual, a pesca do bacalhau rege-se por estritas quotas internacionais geridas pela Organização das Pescarias do Atlântico Noroeste (NAFO) e pela União Europeia para garantir a sustentabilidade da espécie. Embora a Frota Branca tradicional tenha sido substituída por modernos navios-fábrica que processam e congelam o peixe em alto-mar, o processo de cura tradicional por salga continua a ser realizado nas indústrias de transformação localizadas em território português. A permanência deste consumo nas novas gerações confirma que o bacalhau não é apenas um recurso alimentar histórico, mas sim um elemento integrador da memória coletiva, da economia e do património imaterial da nação lusitana.
Por: Sergio Ferreira Soares



