Órgãos de comunicação social da diáspora são invisíveis

0
35

“Portugal está na moda”, afirmou o diretor do jornal Bom Dia (Luxemburgo), Raúl Reis. A língua portuguesa está em crescimento e há uma nova atitude dos emigrantes, particularmente entre os mais novos. “Eles agora têm orgulho em falar português”, o que ajuda à visibilidade dos meios de comunicação social em língua portuguesa, explica o também presidente da Plataforma (Associação dos Órgãos de Comunicação Social Portugueses no Estrangeiro), que apresentou uma comunicação no 5.º Congresso dos Jornalistas, que decorre em Lisboa. Nesse texto, Raúl Reis abordou aqueles que considera serem os problemas e desafios destes títulos.

Os limites geográficos transcendem-se e novas histórias são abraçadas, aquelas que especialmente se dedicam à cultura que envolve os emigrantes. Mas o que parece não crescer é, precisamente, o reconhecimento da importância da atuação destes meios.

Aos olhos de Portugal, o jornalismo no exterior é algo invisível, que lutou quase sempre sozinho, para corresponder com a obrigação e vontade de informar os portugueses além-fronteiras.

Mais de 160 jornais, revistas, rádios e televisões, um grupo até onde já se incluem os blogues produzidos por jornalistas, aproximam as comunidades portuguesas emigrantes. E, independentemente do idioma adotado, relatam o que é português ou do seu interesse. Em França, a pressão social para se redigir ou falar na língua local é maior e na Venezuela só se existe jornalismo para emigrantes em língua espanhola. O português, por sua vez, mantém a sua presença no Luxemburgo.

“Cada país tem de se adaptar à sua diáspora”, afirma Raúl Reis, salientando a importância da resposta de cada título à diversidade de idiomas e públicos, que variam entre os mais especializados que fogem da precariedade das oportunidades que lhes faltam e os que mal comunicam ou leem em português.

Os jornais das comunidades têm uma relação particular com as regiões de onde a maioria dos emigrantes são originários em cada um dos países de destino. Nesse sentido, os meios de comunicação portugueses na diáspora têm um papel fundamental na resposta ao progressivo desaparecimento do jornalismo local, uma das maiores preocupações da atual realidade jornalística. Este sentimento de proximidade para grande parte da população portuguesa espalhada pelo mundo passa agora pelo trabalho do jornalismo na diáspora, que não esquece as cidades, vilas e aldeias de origem das suas comunidades e procura retratar o contexto local português. “Tudo isto é informação que temos a obrigação de dar”, defende.

As elites subestimam, ainda assim, este tipo de produtos jornalísticos. Por não pertencer ao panorama jornalístico português, e, muitas vezes, nem ao do local onde atua, a diáspora é esquecida quando um assunto que a evoca deixa, também, de ser recordado. Raúl Reis critica o olhar afastado da imprensa nacional em relação às comunidades, que não são uma prioridade. “Só se vai voltar a falar de diáspora no verão quando os portugueses começarem a chegar e quando um ministro os for buscar à fronteira”, explica.

Segundo um estudo divulgado pelo jornal Expresso, um terço da juventude portuguesa vive no estrangeiro, mas o foco da imprensa sobre este assunto será passageiro, reforça o jornalista. E por isso faz um apelo claro: que se fale em Portugal sobre os seus emigrantes.

Mas não só de páginas não escritas ou de reportagens não produzidas é composto este abandono das comunidades, que encontram, mais uma vez, conforto noutro país e noutros meios de comunicação. As fragilidades nos apoios do Estado português à sobrevivência destas plataformas revelam ser uma dificuldade deste reconhecimento, ou uma consequência da falta dele.

A falta de apoios é também uma preocupação. Não iria resolver todos os problemas, mas poderia ajudar. “Em termos de montantes não vai salvar nenhum dos nossos órgãos de comunicação”, mas, apesar das limitações, os recentes apoios promulgados pelo Governo português permitem uma maior aposta na modernização digital que se oponha ao estado “arqueológico” que ainda prevalece em muitos meios.

O desafio é complexo, tendo em conta o envelhecimento das redações de muitos destes meios, nascidos da carolice e do voluntarismo de alguns emigrantes. Muitos estão ainda antiquados, sem presença no digital e desatualizados em relação ao que está a mudar a forma de se fazer ver o mundo.

Ainda que algumas redações não estejam preparadas para essa transição, com “duas ou três pessoas a trabalhar”, o decreto-lei nº122/2023, publicado a 27 de dezembro do último ano, deu origem ao Programa de Apoios à Comunicação Social da Diáspora Portuguesa, um dos primeiros apoios do Estado a projetos jornalísticos exteriores.

O avanço é significativo, mas Raúl Reis não esquece o desconhecimento e esquecimento com que se lida atualmente com o estrangeiro e com os seus meios. As restrições são excessivas e a elegibilidade aos apoios remete para uma pequena percentagem da totalidade destes órgãos de comunicação, que não conseguem responder a todas as exigências formais equiparadas às do contexto da imprensa nacional.

Dezassete anos depois da primeira tentativa de estabelecer um diálogo entre os meios da diáspora dispersos pelo globo, foi criada a Plataforma. A associação, que surgiu num contexto de desagregação e afastamento total entre órgãos de comunicação social, criou um interlocutor que representasse estes meios na comunicação com o Estado português.

Por isso, a semanas das eleições legislativas, “o futuro Governo devia perguntar-nos mais o que faz falta”, aconselha.

A estrutura criada para representar os meios também em Portugal e defender os interesses do jornalismo de emigração foi a forma encontrada para garantir que todos estão a “remar no mesmo sentido”, uma direção que assegure o seu ponto de viragem. O trabalho diário passa por manter a comunicação com todos os associados, de forma a partilhar boas práticas, conteúdos, ideias e métodos de organização.

Estruturados ou não, bem ou mal organizados e com ou sem direito ao financiamento do Estado português, o objetivo do jornalismo na diáspora é comum a todos os países que o acolhem: corresponder aos interesses da emigração e manter a ligação entre o país-berço e o de destino.

Dejar respuesta

Please enter your comment!
Please enter your name here