Os portugueses na Venezuela: 500 anos de presença e trabalho

A história da emigração portuguesa na terra de Simón Bolívar é muito antiga, como atestam os muitos episódios históricos que remontam ao século XVI

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Numa altura em que os reinos de Espanha e de Portugal competiam pelo domínio do Oceano Atlântico e das costas africanas, surgiu a necessidade de celebrar um convénio que estabelecesse a divisão das zonas de navegação conhecidas e a conquistar para evitar conflitos entre ambas as coroas. Assim, a 7 de Junho de 1494 foi assinado o Tratado de Tordesilhas, segundo o qual se estabelecia uma linha de demarcação a 374 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, que dava a Portugal a possibilidade de explorar um vasto território que hoje é conhecido pelo nome de Brasil.

Entre o grupo de marinheiros que, sob o comando de Alonso de Ojeda, descobriram a Venezuela, em 1499, estavam alguns portugueses. A presença lusitana em terras crioulas se consolidaria rapidamente e em 1519 já existia uma povoação chamada Portugal, à qual a chegava zarpando desde Cumaná e navegando em direcção a sul vendo a costa.

Desde o início do século XX até 1935, a imigração portuguesa caracterizou-se pela dispersão e em número reduzido. Nesse período, a Venezuela viveu uma grande instabilidade política e o território carecia de comunicações, pelo que Cipriano Castro e Juan Vicente Gómez temiam a influência dos estrangeiros. A política baseava-se em permitir a entrada “gradual” de estrangeiros e sedia-los em regiões do país onde pudessem ser vigiados.

No entanto, com a chegada de Eleazar López Contreras ao poder, a presença dos europeus no nosso país tornou-se indispensável. Por Decreto Executivo de 26 de Agosto de 1938, se cria o Instituto Técnico de Imigração e Colonização (ITIC), mediante o qual o governo passava a planear a distribuição de latifúndios a agricultores venezuelanos e estrangeiros para repovoar os campos, elevar a qualidade de vida e melhorar a etnicidade da população.

Muitos outros lusos vieram sem ser chamados pelo ITIC e alojaram-se em pousadas onde se encontravam compatriotas, tais como o Hotel Coimbra, em Sarría, o Hotel Riviera, em La Planta, a Pensão Portuguesa, em Santa Teresa, e a Pensão Portela, em El Conde.

Em 1941, os portugueses demonstraram entusiasmo pelo país ao chamar os seus familiares, “o que fez pensar na chegada de lavradores e operários de todas as regiões de Portugal para se instalarem com as suas famílias nas agrestes terras venezuelanas”.

A chegada de Isaías Medina Angarita ao poder implicou um conjunto de mudanças na política migratória venezuelana, ficando ratificadas com a eliminação do ITIC em Junho de 1949. Assim, seria permitida a entrada no país aos estrangeiros com os quais o Estado não mantinha qualquer compromisso.

Em 1948, muitos venezuelanos elevaram o tom agressivo contra os estrangeiros e os portugueses foram incluídos na lista das 10 nacionalidades mais criticadas pelos venezuelanos. Já nesse ano, alguns portugueses eram donos de “pequenos restaurantes, em cuja parte posterior se alojavam até oito compatriotas”.

Segundo números oficiais, em 1950 foi registado um aumento de 10.510 portugueses estabelecidos na Venezuela. As mudanças operadas na política migratória estavam na ordem do dia e, em breve, com a chegada de Marcos Pérez Jiménez ao poder e com a política de “Portas Abertas”, seria facilitada a entrada de portugueses no país, pelo que o consulado venezuelano em Lisboa passou a estar sempre cheio de pessoas, na sua maioria homens, solicitando vistos para a terra de Simón Bolívar.

Na década de 1950, foram os navios a vapor que transportaram passageiros até La Guaira provenientes desde Portugal. Em 1954, a companhia Colonial de Navegação incorporou o Santa María e o Vera Cruz, dois dos navios iconos de emigração portuguesa para a Venezuela. No ano de 1955, o número de lusos alojados em pensões diminuía, enquanto se registrava um incremento dos radicados em casas de administração familiar ou nos locais de trabalho.

Rómulo Betancourt, ante a onda de histórias xenófobas com que foi confrontado ao chegar ao poder em 1959 e reconhecendo a relevância das comunidades estrangeiras radicadas no país, solicitou a Alejandro Hernandes da Associação Pró Venezuela para lançar um apelo em apoio à banca nacional e para acabar com essa campanha de rumores. É que assim que, a 14 de Março de 1960, vai para o ar uma campanha com o objectivo de acalmar a onda de xenofobia que grassava pelo país desde a queda de Marcos Pérez Jiménez. Acalmada a situação, os portugueses continuaram a estabelecer-se e a construir em Caracas os primeiros edifícios das ‘barriadas populares’, onde se instalaram

O maior crescimento no número de portugueses na Venezuela está compreendido entre os censos de 1961 e 1981: a proporção indica que, a cada 9 estrangeiros que entravam no país, 1 vinha de Portugal. Isto ficou-se a dever à depressão económica portuguesa e ao receio de vir a fazer parte do recrutamento massivo de tropas para a guerra colonial em África.

O censo de 1981 registou a presença de 93.029 lusos em terras crioulas. No entanto, segundo explica de Abreu Xavier: “Se o efeito multiplicador se aplica ao resultado dos censos portugueses e venezuelanos dos anos 1980 e 1981, poderia dizer que então a comunidade lusa estava entre os 400.000 e 450.000 indivíduos”. Este período culmina em 1983 com a extensão das visitas a Portugal, até converter-se numa modalidade de vida por temporadas.

A instabilidade política e económica na Venezuela, em conjunto com o despontar da economia portuguesa no mercado europeu, levaram a uma queda no número de lusitanos no país latino-americano, entre os censos de 1981 e 1990, seja por morte da primeira geração ou pelo regresso a terras ibéricas. Os números indicam que a perda de cidadãos lusos foi de 2.475 por ano. No entanto, quem decidiu ficar na Venezuela, continuou dando passos firmes rumo ao crescimento pessoal e da nação, dando espaço ao bonito orgulho na portugalidade.

Para além de algumas instituições que já tinham sido criadas nas duas décadas anteriores, este novo período foi marcado pelo nascimento de mais de uma centena de instituições, clubes, associações e grupos folclóricos que tinham como finalidade proteger os interesses da comunidade e ressaltar o orgulho de ser português na Venezuela.

O associativismo continuaria, assim, em ascensão com a criação de diversos clubes, como o Centro Português de Caracas (1958), Casa Portuguesa de Aragua (1965), Associação Desportiva Luso Venezuelana (1972), Casa de Portugal de Maracaibo (1972), Centro Luso Larense (1977), Centro Social Madeirense (1978), Centro Português de Puerto Ordaz (1979), Centro Luso de Catia la Mar e Centro Atlântico Madeira (1984), Centro Luso Venezuelano de La Victoria (1985), Centro Luso Venezuelano de Acarigua (1986), Centro Português de Punto Fijo (1987), Centro Luso de Los Valles del Tuy (1992), Centro Português de Barinas (1996), Centro Sociocultural Virgem de Fátima (2002), Casa Portuguesa Venezuelana de Naguanagua (2004); para além de outras em Ciudad Bolívar, Maturin, Calabozo, El Tigre, Villa de Cura, Margarita, Guarico, Anaco, Puerto Cabello, Barcelona, Ciudad Guayana, Coro, Araure e Táchira.

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Editor - Jefe de Redacción / Periodista sferreira@correiodevenezuela.com Egresado de la Universidad Católica Andrés Bello como Licenciado en Comunicación Social, mención periodismo, con mención honorífica Cum Laude. Inició su formación profesional como redactor de las publicaciones digitales “Factum” y “Business & Management”, además de ser colaborador para la revista “Bowling al día” y el diario El Nacional. Forma parte del equipo del CORREIO da Venezuela desde el año 2009, desempeñándose como periodista, editor, jefe de redacción y coordinador general. El trabajo en nuestro medio lo ha alternado con cursos en Community Management, lo que le ha permitido llevar las cuentas de diferentes empresas. En el año 2012 debutó como diseñador de joyas con su marca Pistacho's Accesorios y un año más tarde creó la Fundación Manos de Esperanza, en pro de la lucha contra el cáncer infantil en Venezuela. En 2013 fungió como director de Comunicaciones del Premio Torbellino Flamenco. Actualmente, además de ser el Editor de nuestro medio y corresponsal del Diário de Notícias da Madeira, también funge como el encargado de las Comunicaciones Culturales de la Asociación Civil Centro Portugués.

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