Papa João Paulo I Beatificado

Teodoro de Faria, Bispo Emérito do Funchal

0
42

O Papa Francisco, fixou a data da beatificação do Servo de Deus João Paulo I no dia 4 de Setembro, deste ano da graça 2022. É o quinto Papa do século XX que será proclamado Beato, como todos os outos, com uma sucessiva canonização. O primeiro foi São Pio X, aquele que teve a intuição divina de permitir a primeira comunhão às crianças; o segundo foi o Papa João XXIII, que abriu o Concílio Vaticano II; o terceiro foi Paulo VI, que encerrou o Concílio e visitou Jerusalém, João Paulo II foi o quarto, o grande amigo da Madeira que sempre a quis visitar, e me disse como deveria proceder na Secretaria de Estado, após lhe ter dito que era o bispo do Funchal; o quinto é o “Papa do sorriso” que escolheu para seu brasão de armas a palavra “Humilitas” Humildade que, no dizer do grande escritor russo Dostoievski, “é uma grande força”.

E o Papa Pio XII, o homem que enfrentou Hitler, sofreu com os campos de concentração, salvou milhares e milhares de judeus das garras e chamas do Holocausto e recebeu de Golda Meir, do governo de Israel, o grande louvor: “Na década do terror nazi, o Papa Pio XII elevou a sua voz pelas vítimas.

A vida dos tempos que vivemos foi enriquecida por uma voz que se erguia, com grandes verdades morais, acima do tumulto do conflito diário. Choramos um grande servo da paz”.

Sim, Pio XII, o primeiro Papa que encontrei em Roma, está guardado no coração das pessoas, esperando a hora da sua gloriosa beatificação.

Quanto ao “Papa do sorriso”, a sua santidade estava presente no mundo, diversos episcopados já tinham pedido ao Papa Francisco a autorização para que a Congregação da Causa dos Santos promulgasse o decreto sobre a causa, e milagre devido à intercessão do Papa Albino Luciani, cujo pontificado durou apenas 33 dias, um dos mais breves na história da santidade na Igreja.

Os episcopados que mais pediram ao Papa a abertura do processo do Papa Luciani, foram a Suíça, a França, o Canadá, os Estados Unidos da América e o Brasil com todo o seu episcopado. Foram consultadas 167 testemunhas, caso singular, o Papa Bento XVI deixou também um testemunho sobre o seu antecessor: “Pessoalmente estou convencidíssimo que era um santo. Pela sua grande bondade, simplicidade, humildade.

E pela sua grande coragem…de dizer as coisas com grande clareza, até andando contra as opiniões correntes. E também pela sua grande cultura de fé. Era um homem de grande cultura teológica e de grande senso e experiência pastoral.”

O milagre para a beatificação aconteceu em Buenos Aires, numa criança que sofria de encefalopatia Inflamatória aguda, com convulsões diárias.

Após a escritura pormenorizada, o livro aprovado pela Congregação romana, chamado POSSITIO, tem 3,600 páginas, contendo a vida do bem-aventurado, testemunhos e virtudes heroicas. Albino Luciani foi eleito Papa a 26 de agosto de 1978, sucedeu ao Papa Paulo VI, e faleceu a 28 de Setembro do mesmo ano.

Terminado o processo e aprovado o dia da beatificação a 4 de Setembro deste ano, foi a alegre notícia comunicada ao Bispo de Belluno-Feltre, Dom Renato Marangoni tendo causado uma feliz notícia aos diocesanos, tanto aos que residiam na Itália como ao grande número de pessoas do Veneto que residem no Brasil, alguns dos quais da sua família que são meus conhecidos.

Quando era Patriarca de Veneza, Paulo VI nomeia-o membro do Sínodo dos bispos em 1971 e, ao visitar Veneza no ano seguinte, realiza um gesto clamoroso, impõe-lhe a própria estola papal na Praça de São Marcos, perante a multidão de fiéis!

O novo Patriarca continuou fiel a si mesmo, sóbrio, atento aos pobres e aos doentes, simples e amável no trato.

Tive algumas relações pessoais com o Bispo Albino Luciani, que confirmam estes dados. A primeira foi na sua diocese de Belluno, no norte da Itália quando era Reitor do Colégio Português em Roma. Era tradição do Colégio na semana da Páscoa, tempo de férias para os alunos, percorrerem uma das zonas da Itália durante sete dias e, nesse ano no Veneto. Recorri ao Bispo Luciani que me recebeu carinhosa e festivamente. Como necessitava de uma casa com trinta quartos e refeições para os estudantes, todos padres, não podia recorrer a um hotel por ser muito caro. O Bispo Luciani chama sua irmã, que dirigia uma casa de acolhimento e reservou-a para os portugueses.

Tempos depois, o bispo Luciani era nomeado Patriarca de Veneza. Quando no grande calor de agosto morreu o Papa Paulo VI em Castel Gandolfo, tive de seguir com o Cardeal António Ribeiro de Lisboa para Roma, cidade quentíssima e sem turistas, no chamado Ferragosto. Todos os dias, de manhã, como secretário do Patriarca de Lisboa, tínhamos eucaristia no Vaticano com todos os Cardiais e os Patriarcas de Veneza e Lisboa. Para a preparação para a Eucaristia, os dois Patriarcas estavam em conjunto, desta forma, encontrava-os sempre na Basílica de São Pedro. Por vezes, o Cardeal de Veneza não tinha secretário, nesse caso ajudava-o a tomar os paramentos.

Na véspera do Conclave, palavra latina que significa “com chaves,” desejei que o Espírito Santo descesse sobre o Patriarca de Veneza. Os Patriarcas sorriram com a minha predição. O Conclave foi brevíssimo, quando fui ao Vaticano para trazer o cardeal Ribeiro, ele disse-me: “Vais ter uma surpresa, não perdeste o teu voto”.

A ovação na Praça de São Pedro parecia não ter fim, disse o Papa: “Ontem de manhã fui à capella Sistina a votar tranquilamente, nunca imaginei aquilo que estava para suceder… “Em nome de Cristo dou a primeira da minha proporcionadora Bênção Apostólica.”

Após o espaço de um sorriso de 33 dias, Deus chama o Seu servo à Sua presença. Sobre a morte inesperada e suas causas escreveu-se muito, disseram que o Papa foi encontrado morto pelo seu secretário particular, na documentação para a beatificação, foi a Irmã Vincenza Tafarel, acompanhada pela Irmã Margherita Marin, preocupadas porque o Papa não andara ainda a orar na capela, pouco depois das cinco horas da manhã. O Papa estava no leito tendo entre a mãos as folhas que devia ler, com um ligeiro sorriso nos lábios, tendo falecido por uma morte súbita. O Papa tinha-se manifestado ao mundo inteiro, no seu breve pontificado pela humildade e alegria vivida no anúncio do evangelho e na catequese dirigida a todos a começar pelos mais pequeninos e simples. Quem vive na luz do Senhor ressuscitado, pode morrer com um sorriso nos lábios…

Dejar respuesta

Please enter your comment!
Please enter your name here