Pedro Zarraga: o narrador de Futebol de Radio Caracas Radio e TV

Amigo de Pelé e Bekeenbeaur, o venezuelano não se esquece dos melhores momentos do futebol

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Aleixo Vieira

Sentado ao canto da mesa de uma pizzaria nas proximidades da sua casa, na localidade de La Boyera, em Caracas, e ao sabor de uma‘7 up’ e de uma tradicional pizza italiana, Pedro Zarraga, em entrevista ao Correio da Venezuela fala das suas vivências e memórias da sua atividade profissional.

Nascido em Valencia, estado Carabobo, Pedro Zarraga foi por muitos anos a voz inconfundível do futebol europeu e dos mundiais de futebol. Iniciou-se na década de 60 quando a radiofonia marcavaa pauta mediática. Começou a trabralhar na Onda Popular, emissora de rádio parceira da Radio Caracas Radio. Viveu a transição para a TV e, logo de seguida, passou a trabalhar para Radio Caracas Televisao, filial da mesma empresa.

Assistiu e narrou vários mundiais de futebol. Destaca o mundial de México 1970, onde o Brasil foi campeão e onde aparece o “rei” Pelé, com quem viria a cultivar grande amizade até aos dias de hoje. «Pelé era um fenómeno dentro e fora do campo e um jogador humilde e generoso com todos. Convivi muito com ele. Estou triste porque sei que está um pouco doente», afirma Zarraga.

Recorda o mundial de 1966 onde aparece a Seleção Portuguesa e o Eusébio: «Portugal tinha a Pantera Negra. Que grande jogador», exclama.

Amigo de Pelé e Bekeenbeaur, entre outras figuras do futebol mundial, nao esconde a sua simpatia pela seleção canarinha. Lembra-se ao pormenor o nome dos jogadores mais emblemáticos e diz ter vivido momentos inesquecíveis de amizade comquase todos os dessa época. «O jogador brasileiro era humilde e boa gente», refere, afirmando-se como um apaixonado pela azul e amarela, pela «alegria do seu jogo e a contagiante forma de acarinhar a bola nos pés». Mas sonha um dia ver a seleção da Venezuela marcar contra a seleção brasileira num mundial.

Atualmente e desde o seu novo posto de observador reformado, em casa, destaca a disciplina tática física da seleção da Alemanha, em todos os níveis e escalões “têm cortes de cabelo normal e nem sequer usam tatuagens no corpo».

Do futebol nacional, começa por nos contar que na década dos anos 60 os anunciantes não acreditavam muito nas transmissões radiais de futebol e as empresas apostavam tudo ao basebol. Até que aparece a TV e, através da Radio Caracas Televisão, transmite-se o mundial do México, que foi o primeiro a ser transmitido, conforme nos conta Pedro Zarraga. «Ganha o Brasil e leva a taça Jules Rime porque existia a condição de ganhar três taças mundiais para conseguir esse feito. Itália tinha sido campeã em 1934 e 1938, Brasil em 1958 e 1962. No México, o Brasil ganha à Itália naquela goleada histórica e leva a taça para o Brasil. Foi uma loucura na Venezuela e é daí que vem a simpatia crioula pelo Brasil.

Lembra-se dos seus inícios e da importância que tiveram os Europeus no desenvolvimento da modalidade. «Vivia-se o futebol de colónias, Deportivo Italia, Galicia, Deportivo Portugués, Canarias, entre outros, pois estes eram só alguns dos clubes que dominavam o futebol na Capital.

Recorda com brilho nos olhos a famosa equipa de desporto português campeão várias vezes na Venezuela, com destaque especial para os jogadores Ramos, Rato, Edy e até para a forma como defendia o guarda-redes Pompeye, foram grandes estrelas da representação portuguesa, como tambem o Celso Oliveira, avançado central do clube desportivo Galicia, do atleta mundial Jairzinho, contratado pelo Deportivo Portuguesa futebol-clube, entre outros. Mendoncita era o Venezuelano que mais o impressionava.

«Europeus prestaram grande contributo ao Futebol na Venezuela»

Eram tempos de crescimento económico e chegavam muitos emigrantes europeus à Venezuela. «Trabalhavam muito e o futebol era o único divertimento que tinham. Um jogo entre o Deportivo Portugués e o Deportivo Italia enchia o estádio olímpico», recorda Pedro Zarraga.

«No ano de 1964, dá-se um fenómeno interessante, pois inicia-se a participação da Venezuela na Taça Libertadores de América, sendo que o primeiro representante que o País tem nessa competição é o Deportivo Italia, que elimina o Sport Bahia de Brasil e passa à segunda fase». «Foi um feito histórico para o futebol na Venezuela e contagiou muita gente», recorda Pedro Zarraga.

Durante muitos anos, o futebol Italiano transmitiu o campeonato espanhol e posteriormente em parceria com Adelino Oliveira e Carlos Oliveira também transmitiu os campeonatos portugueses. Pedro Zarraga elogia os dois irmãos: «eram pessoas corretíssimas, excelentes profissionais e representaram sempre com dignidade o nome de Portugal no ambiente da rádio e da Televisão». Recorda com nostalgia os anúncios publicitários que, entretanto, já começavam a aparecer, como “Tiquire flores”, por exemplo, que era um senhor italiano que gostava muito de futebol e que patrocinou sempre as transmissões e até tinha a sua própria equipa de futebol.

“Os federados venezuelanos pregaram uma partida ao Marítimo da Venezuela”

Ainda sobre o futebol nacional, critica a injustiça do triste desaparecimento do Marítimo da Venezuela do cenário desportivo nacional. «Os dirigentes da Federação de então fizeram uma má jogada aos portugueses», lamenta Pedro Zarraga.

Ainda se recorda de muitas anedotas sobre os mais de 50 anos de futebol na rádio e na televisão na Venezuela.

Do futebol na Europa, destaca a era Maradona: «Foi genial e oxalá tivesse sido tão boa pesssoa como foi jogador de Futebol».

Quanto a Pelé, diz: «o mais simples e humilde de todos».

O golo mais espetacular que viu marcar foi o de Zicona seleção do Brasil contra o Paraguay. «Até o presidente do Paraguay se levantou para aplaudir o golo, apesar de ser contra». Lembra e faz questão de contar a anedótica origem do nome do internacional brasileiro: quando Zico era criança não parava de jogar à bola na rua e a irmã saía sempre à rua a chamá-lo de “Arturcito”na hora do almoço e do jantar, pois o seu nome de origem é Artur Antunes, Coimbra, pelo que logo passou a ser conhecido pelos amigos do bairro como “O Zico”.

“O objetivo do futebol é o golo e Ronaldo é sempre golo “

Sobre Ronaldo e Messi, um comentário que não podia faltar na nossa entrevista. Pedro Zarraga é categórico: «o objetivo do futebol é o golo e o golo é Ronaldo, é um rapaz disciplinado, trabalhador e um jogador que resolve o jogo», diz, acrescentando ainda que «Messi e Ronaldo são dois fenómenos».

Dos companheiros de profissão, destaca a amizade e o profissionalismo de Reyes Alamo e de Carlos Montemayor, companheiros de muitos anos de trabalho juntos.

A sua máxima de vida é a Humildade. «Na humildade as coisas têm duplo valor e são sempre bem vistas pelos outros», conclui.

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