“Quero fazer deste desporto a minha vida”

Piloto de motocross conversou com o CORREIO sobre a sua experiência numa das melhores escolas do mundo da modalidade.

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Daniel Fernandes Gonçalves, luso-descendente, 18 anos de idade, está actualmente radicado nos Estados Unidos, onde entrou na prestigiada escola de pilotos de motocross Millsaps Training Facility (MTF), situada no Cairo, Georgia.

Durante o mês de Dezembro, Fernandes esteve de férias na Venezuela, com a família, oportunidade que aproveitou para conversar com o CORREIO sobre a sua carreira e as expectativas para este novo ano.

Este jovem amante do desporto começou no motocross aos 5 anos de idade, graças ao pai, que se dedicava profissionalmente a este desporto. Foi ao cumprir 6 anos que Daniel entrou na categoria 50 PW, a mais pequena de todas, conseguindo o quinto lugar nesta primeira competição, o que o animou a manter-se na modalidade.

-O que representou para si que o seu pai fosse o seu treinador?

Foi muito forte porque o meu pai é muito rigoroso e exigia-me muitíssimo, mas hoje agradeço-lhe, porque foi isso que me ajudou a continuar a lutar e a aprender fora. Às vezes o meu pai tira a moto dele e treinamos juntos, e agora sou eu quem o corrige (risos). Ter o apoio de um multi-campeão como Pedro González também me ajudou muito.

-Este é um desporto muito radical. O que pensa a sua mãe?

-A minha mãe não gosta nada, respeita porque foi o desporto que escolhi mas queixa-se do risco que corro. Nem sequer vai ver-me nas pistas porque fica muito nervosa. O meu pai é que me treina, e a minha mãe cura-me quando me magoo.

-Já sofreu muitas lesões, então?

-Na verdade, nestes 11 anos em que estou a correr, só tive duas entorses em cada tornozelo, e este ano (2012) sofri uma fractura pela primeira vez.

-É aluno de uma das melhores escolas de motocross do Mundo. Como se sentiu estando na MTF Georgia?

-Agora que tenho oportunidade de sair do país, estou mais certo de que quero fazer deste desporto a minha vida, é o que gosto de fazer, e ver como se pratica fora fez-me pensar no futuro. Senti-me muito bem e satisfeito, porque é como uma universidade, mas de motocross. Ali tenho treino físico, psicológico, e também sobre motos. É um regime muito rigoroso, de segunda a sexta, e se tiver corridas no fim-de-semana, também tenho de ir. Estou contente que seja assim, porque se quero seguir em frente no desporto, este é o caminho. Ser piloto da minha escola dá um certo apoio que outros não têm, e como estou certo do que quero fazer disto a minha vida, procurámos a melhor opção.

-Qual foi a parte mais difícil desta experiência?

-Ter de viver só, e o regime rigoroso também me afectou, porque aqui não se treinava tanto. Às 7 da manhã já estou pronto para cumprir, tenho de estar na pista, ir ao ginásio, preparar as minhas próprias refeições e cumprir as condições físicas que eles me pedem. Vivo numa ‘motor home’, cá estava acostumado a outras coisas, mas lá tive oportunidade de partilhar com colegas de diferentes países, e convivo com mais três venezuelanos. Um deles é Anthony Rodríguez – também português -, que é o que mais me tem ajudado, porque não falo um inglês perfeito, estou a aprender sob pressão, e isso não tem sido fácil.

-Repetiu-se um pouco a história dos seus avós quando chegaram à Venezuela?

-Pode ser, porque o meu avô sempre me disse que veio da Madeira para a Venezuela com 18 anos, e que essa foi a primeira vez que calçou uns sapatos. Há pouco dizia ao meu avô que graças ao esforço dele e dos meus pais, hoje estou nos Estados Unidos em melhores condições do que aquelas que ele teve quando chegou à Venezuela.

-Estando a viver nos Estados, conseguiu alcançar o Top 5 das Mini- Olimpíadas de Inverno, tanto em motocross como em supercross. O que vem agora em 2013?

– A primeira competição é a Winter AM Series 2012, já em Janeiro. Também estou a treinar muito para a Loretta Lynn, Tenesse, onde espero correr em finais de Julho,  porque é ali que temos oportunidade de captar patrocinadores. Há classificações a partir de Fevereiro, que vão desde o local onde se vive até às estatais. Também quero correr no meu país.

-Quais as diferenças entre praticar motocross na Venezuela e nos Estados Unidos?

-Na Venezuela, há muito talento, mas vai se perdendo por diferentes motivos. Lá tudo é diferente, desde as pistas até à organização dos eventos. Nos Estados Unidos, pude fazer 85 corridas num dia e às 4 da tarde já estava tudo acabado. Aqui, são quatro eventos num dia, se tanto. Vê-se muitos patrocinadores, faz-se um espectáculo atractivo para os adeptos mas também para os desportistas, se há algo que se danifica na pista, vai logo uma equipa reparar.

-É possível viver do motocross?

Fora da Venezuela sim. Não se ganha como no futebol mas há pilotos que se retiram aos 24 anos.

-Que conselho pode dar a quem quer ingressar nesta modalidade?

-A primeira coisa é treinar muito e perder o medo de fazer as coisas, mas também é bom contar com o apoio de um bom treinador, porque senão vão repetir-se os mesmos erros de sempre.

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