Sabedoria popular: entre expressões e provérbios

Os ditados populares ou adágios transmitem grande sabedoria

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Os provérbios são manifestações populares de sabedoria. Regra geral, falam de pequenas ou grandes verdades do dia-a-dia e do comportamento das pessoas. São pequenas lições de vida em forma de sabedoria que é transmitida de geração em geração. E são muitos os provérbios portugueses que merecem destaque e uma análise mais detalhada.

Também conhecidos por ditados populares, os provérbios fazem parte da cultura portuguesa e das tradições do nosso povo. Alguns deles variam de região para região e outros estão a cair em desuso e no esquecimento.

Ninguém sabe ao certo como eles surgiram. Mas porque falam sobre verdades universais ou aspetos lógicos do quotidiano, continuam a ser utilizados regularmente nas mais variadas situações. Descubra alguns dos melhores provérbios populares portugueses e os seus significados.

“Sem papas na língua”

As papas (ou pepitas) são partículas que surgem na língua de algumas galinhas, sendo uma espécie de tumor que as impede de cacarejar. Sem as papas, a língua fica livre. A expressão vem da frase castelhana “no tener pepitas en la lengua”, e significa hoje ser franco e dizer o que quer sem rodeios.

“Maria vai com as outras”

A rainha D. Maria I ficou louca de um dia para o outro, tendo sido declarada incapaz de governar e afastada do trono. Passou a viver recolhida e apenas era vista em público na companhia de outras damas. Quando o povo assim a via, comentava “lá vai D. Maria com as outras”. Hoje, a expressão aplica-se a uma pessoa que não tem opiniões próprias e que segue apenas o que os outros lhe dizem.

“Andar à toa”

Uma toa é a corda que reboca uma embarcação a outra, sendo que um navio que está à toa não tem rumo nem leme, indo para onde o navio que o reboca quiser. O ditado significa assim andar sem destino, apenas a passar o tempo.

“Amigo da onça”

O termo parece ter surgido a partir da história de um caçador mentiroso que, ao ser surpreendido sem armas por uma onça, deu um grito tão forte que o animal fugiu. Como ninguém acreditava na sua história, o caçador perguntou se o interlocutor era amigo dele ou amigo da onça. Atualmente, esta expressão designa alguém hipócrita ou um falso amigo.

“De pequenino é que se torce o pepino”

Para que os pepinos se desenvolvam, os agricultores têm de lhes dar forma, retirando uns “olhinhos” que, se não forem removidos, fazem com que o pepino não cresça da melhor forma e adquira um gosto desagradável. Por analogia, tal como se molda os pepinos, também é preciso moldar o carácter das crianças desde tenra idade.

“Cor de burro quando foge”

Originalmente, a frase era “corre do burro quando ele foge”, o que faz sentido, já que um burro enraivecido pode ser perigoso. A tradição oral acabou por modificar a frase até à expressão que usamos hoje.

“Favas contadas”

Para se votar antigamente, usavam-se favas brancas e pretas, que significavam respectivamente sim ou não. Cada votante colocava a fava na urna, sendo que quem tivesse mais favas brancas ganhava. Hoje, a expressão é usada para designar algo certo, um negócio seguro.

“Um olho no peixe, outro no gato”

É uma variação do mais polémico e preconceituoso “um olho no burro e outro no cigano”. Aplica-se a situações em que alguém deve estar atento aos dois lados de um conflito ou prestar atenção tanto à vítima como ao agressor.

“Deus tem mais para dar do que o Diabo para tirar”

Quer dizer que, ao longo da vida, são mais as vezes em que recebemos algo bom do que aquelas em que nos acontece algo mau. Indica também que o lado bom é mais forte do que o lado mau. Demonstra uma visão otimista da vida.

“O seguro morreu de velho”

Ditado popular que fala sobre algo evidente: alguém mais precavido tem sempre mais hipóteses de ter sucesso na vida do que aqueles que vivem sem preocupações.

 “Quem não quer ser lobo não lhe vista a pele”

Um provérbio popular sobre aparências e comportamentos. Pretender mostrar que alguém tem melhores resultados quando mostra ser fiel a si próprio. A pessoa que mostra ser uma coisa sem o ser realmente não pode depois queixar-se se alguém o acusar de ser assim.

“Em terra de cego quem tem um olho é rei”

Talvez um dos mais conhecidos provérbios portugueses. Aliás, talvez seja um daqueles que explicar melhor o nosso comportamento enquanto sociedade. Significa que, num grupo de ignorantes, aquele que possui algum conhecimento, embora pouco, tem tendência para ser o líder.

“Um dia da caça, outro do caçador”

Nem todos os dias são maus. Em alguns dias, alguns são recompensados pela sorte e outros têm azar. Noutros, acontece o inverso. Indica também que a paciência é uma virtude e que devemos usá-la e esperar por dias melhores.

“Não adianta chorar sobre leite derramado”

Provérbio português que terá, possivelmente, origens brasileiras. Significa que não devemos pensar demasiado nos problemas do passado. O melhor mesmo é viver o presente e confiar que o futuro será melhor.

“Águas passadas não movem moinho”

Pretender mostrar que situações ou atitudes do passado não resolvem os problemas do presente e que nos devemos focar nos dias de hoje se quisermos evoluir e melhorar a nossa condição.

“Apressado come cru”

Provérbio em tudo semelhante ao famoso “a pressa é inimiga da perfeição”. Aplica-se em casos onde a paciência é a qualidade necessária para resolver uma situação, tarefa ou problema.

“Plantar verde para colher maduro”

Outro dos provérbios portugueses sobre as virtudes da paciência e de pensar a longo prazo. Significa que devemos preparar o futuro com antecedência e ser pacientes na espera pelos resultados. Aplica-se também quando alguém utiliza perguntas hábeis para conseguir as respostas que pretende.

“Filhos criados, trabalhos dobrados”

Ditado popular que significa que os filhos continuam a causar preocupações mesmo quando se tornam adultos. Além disso, essas preocupações podem ser ainda maiores do que quando eles eram crianças.

“Depois da batalha aparecem os valentes”

O significado deste provérbio popular é simples e evidente: muitas pessoas mostram ser corajosas ou sábias apenas depois do problema já ter sido resolvido. Aplica-se também em situações em que alguém se gaba do que não fez ou em casos em que alguém diz ser capaz de fazer algo mas depois desiste e aparece apenas no final para dar o seu palpite.

“Não adianta lamentar a morte da bezerra”

Aplica-se em situações em que alguém se lamenta sobre algo que já não pode ser alterado. Pretender transmitir a ideia de que é melhor pensar no presente e o futuro em vez de recordar os problemas do passado.

“Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”

Provérbio popular muito comum em Portugal e no Brasil. Pretende transmitir a ideia de que é melhor opinar sobre as zangas entre os membros de um casal. Geralmente, por 3 motivos: porque não sabemos a história toda, porque podemos faltar ao respeito à sua privacidade e porque cada casal tem a sua própria dinâmica que, muitas vezes, é difícil de compreender por quem está de fora.

“Quem bate, esquece; quem apanha, não”

Ditado popular que ilustra a diferença de perceção dos acontecimentos entre um agressor e a sua vítima. O agressor esquece com facilidade que agrediu, física ou verbalmente, a vítima. Por sua vez, a vítima não esquece tão facilmente ou tão rápido e guarda mágoa.

“Se ferradura trouxesse sorte, burro não puxava carroça”

Indica que os amuletos são inúteis perante a realidade do dia-a-dia e que mais vale trabalhar do que esperar que as coisas aconteçam apenas por sorte.

“Manda quem pode, obedece quem tem juízo”

Ditado popular que indica que aqueles dependem de um trabalho devem ter o juízo de obedecer ao seu patrão, não porque ele sabe o que está a dizer mas sim porque lhe paga o ordenado. Utilizado em situações em que, como diz o povo, “mais vale estar calado”.

“Andar com o rei na barriga”

Esta expressão vem dos tempos da monarquia, altura em que as rainhas eram tratadas com especial deferência quando estavam grávidas, já que iam aumentar a prole real e dar herdeiros ao trono. Hoje, a expressão refere-se a alguém que dá muita importância a si mesma.

“Com a corda toda”

Os brinquedos de antigamente eram acionados ao torcer-se um mecanismo em forma de mola ou de elástico, sendo chamados brinquedos “de corda”. Quando se dava mais “corda” a um brinquedo, ele mexia-se mais depressa e de forma frenética, sendo que a expressão ainda hoje denomina alguém que se encontra nesse estado.

“Bicho de sete cabeças”

Esta expressão tem origem na lenda da Hidra de Lerna, um monstro que tinha sete cabeças que, ao serem cortadas, renasciam. Uma das doze proezas de Hércules foi matar esse animal. No entanto, a expressão hoje denomina a atitude de alguém que, quando confrontado por uma dificuldade, coloca entraves à realização da tarefa, seja por medo seja por preguiça de a enfrentar.

“Tapar o sol com a peneira”

Uma peneira é um objeto circular com fundo em rede de metal, por onde se costuma passar a farinha ou qualquer outra substância moída. Como o fundo é em rede, qualquer tentativa de tapar o sol com uma peneira é infrutífera. Assim, a expressão nasceu desta constatação, designando um esforço mal-sucedido para ocultar uma asneira ou negar uma evidência.

“Farinha do mesmo saco”

A origem desta expressão é uma frase em latim usada para generalizar um comportamento tido como reprovável: “Homines sunt ejusdem farinae”. Como a farinha boa era colocada no mesmo saco que a farinha boa, e a farinha má num saco com mais farinha de menor qualidade, faz-se esta comparação para insinuar que pessoas boas andam com pessoas boas, enquanto pessoas más preferem a companhia de pessoas más.

“Sangria desatada”

A expressão teve origem nas guerras, onde havia necessidade de um cuidado rápido dos feridos. Se, por qualquer motivo, a ligadura colocada sobre as feridas se desatasse, haveria grande perda de sangue e o soldado morreria. Nos campos de batalha, seria comum, assim, esta “sangria desatada”. Hoje, a expressão é usada para nos referirmos a qualquer coisa que precisa de solução ou realização imediata.

“Colocar panos quentes”

Colocar panos quentes na testa de alguém é um cuidado paliativo de origem remota em estados febris, já que os panos encharcados em água quente elevam a sudorese e fazem baixar a febre. A expressão significa hoje favorecer ou encobrir algo de errado feito por outra pessoa.

 

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