Saudades da Nossa Terra / O rapaz do ‘Abraço’

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O apresentador da rádio e televisão da Madeira mais conhecido na emigração está a ponderar gravar o programa ‘Atlântida’ na Venezuela à semelhança do que já aconteceu na Austrália. O assunto não está ainda fechado, nem existe decisão.

Duarte Rebolo é a voz e a cara que leva notícias da Madeira às comunidades espalhadas pelo Mundo. Os programas ‘Abraço’, na rádio, e a ‘Atlântida’, da RTP-Madeira, tornaram-no conhecido na emigração, mas a carreira deste rapaz de Santo António começou vai para 25 anos na Estação Rádio Madeira, a velhinha ‘emissora do cambado’. Hoje divide o tempo pela rádio e pela televisão e ainda arranja maneira de tocar com a sua banda de garagem, os Aoakaso.

Ainda estudante da Escola Francisco Franco, Duarte Rebolo imitava os locutores da rádio, mas estava longe de imaginar que teria uma carreira como jornalista de televisão e de rádio. “Era só uma brincadeira”, explica, enquanto lembra os primeiros passos na Estação Rádio Madeira, no início dos anos 90. “Eu entrei na rádio a 13 de Maio de 1991. Sei isto bem porque o papa João Paulo II veio à Madeira no dia 12 e pediram-me para entrar depois de passar a confusão dos directos e da visita”. Um ano depois ganhava 120 contos, o que era um ordenado e tanto em 1992.

Na Estação Rádio Madeira, fez de tudo. Foi jornalista, locutor, fez relatos de futebol e os programas de música pedida, que ainda faziam sucesso na Madeira a meados da década de 90. Duarte Rebolo, que tem hoje 46 anos, deu a voz a muitos anúncios da estação e ainda se lembra como era muito mais difícil trabalhar na rádio. “Para gravar um anúncio precisava de uma manhã”, recorda. Sem computadores, o truque era usar bobines, mas para juntar voz e música era preciso cortar a fita magnética e colar com fita cola depois.

O emissor de onda média da rádio ainda era válvulas, mas mesmo assim havia sempre emissão, mesmo quando a electricidade ia abaixo, o que acontecia com frequência nesses tempos. A Estação Rádio Madeira tinha um gerador, que ficava a meio da fazenda. “Quando a luz ia abaixo, era preciso correr pela fazenda abaixo para ligar o gerador, que ainda por cima funcionava à manivela. E depois fazer o caminho de volta também a correr, para manter a emissão no ar”. O equipamento não era o melhor, estava velho e gasto, mas a rádio ia para o ar na mesma.

O jornalista e locutor acumulava a rádio com a venda de automóveis, a sua outra profissão durante 20 anos. Os carros foram muito importantes na sua vida, sobretudo os clássicos. Um dos seus hobbies durante anos foi a recuperação de carochas. No fim dos anos 90, saiu da Estação e foi fazer o desporto e a animação das manhãs na recém-criada TSF-Madeira. Por essa altura, Duarte Rebolo fazia também os relatos de futebol para a Rádio Renascença. Uns tempos depois chegou o convite para a RDP, para colaborar com o Desporto e havia uma vaga para o ‘Abraço’, o programa das comunidades.

“Eu, ao princípio, fiquei desconfiado, achei que aquele não era o meu estilo, a música que passava não era o meu estilo”. Pensou tudo isto antes de agarrar a oportunidade e ainda sem saber como iria mudar a carreira e a forma como hoje é reconhecido na rua. “Eu não troco o ‘Abraço’ por nada”, diz, agora que já lá vão anos e anos de emissões ao domingo a chegar ao Mundo inteiro e aos locais onde vivem madeirenses. “Quando a RDP tinha emissões em onda curta cheguei a receber chamadas dos barcos da apanha do bacalhau na Noruega e dos barcos do Panamá, onde estão muitos pescadores do Paul do Mar”.

Na Venezuela em Junho ou Julho
A empatia com os ouvintes é tanta que recebe presentes, chocolates, flores. É a saudade que une as pessoas, que sentem falta da terra, dos seus costumes e hábitos. Esta experiência na rádio levou-o a ser a escolha para o Atlântida, quando Maria Aurora morreu. A televisão tem outro impacto e Duarte Rebolo deixou de ser só uma voz para ser também uma cara. A experiência tem corrido bem e o programa já foi a Austrália e é provável que volte a sair da Madeira e seja emitido a partir de uma comunidade no estrangeiro. “Há a possibilidade de irmos à Venezuela em Junho ou Julho, mas ainda não está nada decidido”.

Com uma vida profissional tão exigente, Duarte Rebolo nunca esquece a mulher e os três filhos que, às vezes, podem sofrer com as ausências como aconteceu quando o programa Atlântida foi gravado na Austrália. “Todas as decisões são tomadas em conjunto com a minha mulher. Já falei com ela sobre a possibilidade de estar fora em Junho para a gravação do programa na Venezuela”. Com diálogo, tudo se acerta, mesmo quando parece que não vai sobrar tempo para nada. Entre os programas na rádio e na televisão – que no Verão de 2014 incluiu uma ronda pelos maiores arraiais da Madeira -, Duarte Rebolo ainda tem maneira de ensaiar e tocar com a banda de garagem.

“Eu tinha um sonho desde miúdo que era aprender a tocar viola. Quando deixei o emprego na empresa de venda de automóveis, surgiu na Junta de Freguesia de Santo António um curso de viola e eu achei que era tempo de tentar realizar o velho sonho de aprender a tocar. Acabei por ir com a minha filha mais velha, que estuda percussão”. Dai até formar a banda foi um passo. A banda ensaia agora na garagem de casa, assim mais ao menos ao acaso, tanto que ficou mesmo com esse nome ‘Aoakaso’. A banda toca covers e, mesmo sendo um hobby, tem feito concertos e tocou em Santa Cruz, na noite do Mercado de 2014.

E o rapaz de Santo António, Funchal, que começou hesitante no ‘Abraço’ de domingo na RDP-Madeira, é hoje uma das caras mais conhecidas na Madeira. A entrada para a televisão mudou tudo, reconhece e diz que não são apenas os emigrantes que vêem o programa que passa, de 15 em 15 dias, na RTP-Madeira e RTP Internacional. “As pessoas comentam comigo os convidados, o que disse e fiz”, realça, ainda surpreendido com os efeitos da televisão, de como é tudo diferente de trabalhar na rádio onde, além do ‘Abraço’, faz o desporto e, claro, alguns relatos de futebol.

Se alguma vez pensou que seria o que é aos 46 anos? Duarte Rebolo diz que não, nem mesmo quando brincava aos relatos da bola e imitava os locutores pensou que estaria a fazer o que hoje faz e que isso seria tão gratificante. Claro que continua a ter projectos para o futuro, um passa por ir para universidade tirar um curso. Os estudos ficaram em stand-by quando entrou para a rádio e começou a ganhar bem, os tais 120 contos (600 euros). Agora, já com uma carreira na comunicação social, casado e com três filhos, talvez seja tempo de pensar a sério no assunto, fazer como fez quando se decidiu a ir aprender a tocar viola na Junta de Freguesia.

[quote_box_left]Perfil
Duarte Rebolo
46 anos
casado
três filhos (6,9 e 15)
jornalista e animador[/quote_box_left]

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